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Desafios ao Protestantismo

Encerrando a série de pequenas entrevistas sobre a Reforma Protestante, vamos ler a opinião do pastor Silas Daniel. Nessa série o Blog Teologia Pentecostal entrevistou o pastor presbiteriano Hernandes Dias Lopes, o bispo anglicano Robinson Cavalcanti, o pastor assembleiano Ciro Zibordi, além do apologista Paulo Romeiro. Esses líderes protestantes que tem contribuído muito para a reflexão teológica no Brasil. Agradeço a todos!

Segue o último texto da série “Reforma Protestante”.

Silas Daniel é pastor assembleiano no Rio de Janeiro, conferencista, jornalista e editor do jornal Mensageiro da Paz e da revista Manual do Obreiro. Com formação em Comunicação Social e Teologia, e cursando o último ano de Direito, ele é autor dos livros Como vencer a frustração espiritual, História da Convenção Geral das Assembléias de Deus, Reflexões sobre a alma e o tempo e Habacuque – a vitória da fé em meio ao caos e A Sedução das Novas Teologias, todos lançados pela Casa Publicadora das Assembléias de Deus (CPAD).

BTP: Quais são os maiores desafios do protestantismo nesse início de século?

Silas Daniel: De forma geral, entendo que o protestantismo enfrenta quatro grandes desafios neste início de novo século. O primeiro é o de influenciar a sociedade sendo uma reserva e referência de valores em uma época em que estes estão sendo fluidificados.
Para entender melhor esse primeiro desafio, é preciso recapitular a importância da Reforma Protestante para a formação do Ocidente.
Com o objetivo de realçar essa importância do protestantismo na reflexão sobre a sociedade ocidental hodierna, o historiador Carter Lindberg, professor de Teologia da Universidade de Boston, afirma em sua obra As Reformas na Europa: “Estar conscientes das contribuições da Reforma para o desenvolvimento de nosso mundo [ocidental] nos ajuda a entender como chegamos onde estamos e proporciona um horizonte crítico para avaliar os resultados”. Ou seja, a Reforma e seus princípios, enfatiza Lindberg, são importantes para refletir o Ocidente. Aliás, ele e o alemão Karlheinz Blaschke, entre outros historiadores, ressaltam inclusive que é errado pensarmos que a Reforma só foi possível por causa da “onda” chamada modernidade. Segundo eles, o inverso é que é verdade: a modernidade só foi possível porque a Reforma lhe abriu as portas. A Reforma não deve a ela seu surgimento; ela é que deve à Reforma a possibilidade de ter acontecido.
Segundo frisam esses historiadores, a maioria dos livros de História de hoje sugere que a Reforma só foi possível devido à conjuntura política e filosófica da modernidade que estava começando a se formar naquela época, porque os historiadores ocidentais modernos, a partir de sua perspectiva hodierna, associam naturalmente grandes acontecimentos da História a fatores políticos e econômicos. E eu acrescentaria ainda que, desde o advento do materialismo histórico e da dialética marxista, muitos não entendem que qualquer fator além de economia e política possa motivar grandes mudanças. Esquecem, por exemplo, como destacam Lindberg e Blaschke, que na época da Reforma as pessoas davam muito mais valor à religião do que a fatores políticos e econômicos. Os cidadãos comuns e nobres daquela época chegavam a aceitar naturalmente a morte com base em compromissos religiosos. O problema é que as pessoas tendem a ler o século 16 com as lentes do século 21.
Ressalta Blaschke que “Lutero não pretendia modernizar a sociedade, nem dar início ao período moderno, nem sequer desencadear uma revolução social”, entretanto, “embora seja verdade que o período moderno já estava a caminho quando ele [Lutero] estava envolvido em sua luta religiosa para encontrar um Deus misericordioso, foi a descoberta religiosa de Lutero de que a justiça diante de Deus é recebida, e não conquistada, que removeu os obstáculos que até então haviam impedido a irrupção completa do mundo moderno”.
Isto é, o Ocidente deve muito do que é hoje, mas muito mesmo, à Reforma. Contudo, apesar disso, vemos o liberalismo social secularizante travar uma guerra cultural todos os dias, com apoio da maioria esmagadora da mídia secular, para tentar “varrer” do Ocidente todos aqueles princípios sobre os quais a sociedade ocidental foi erigida. É verdade que essa é uma luta que envolve todos os ramos do cristianismo, mas sobretudo o protestantismo, cujo surgimento influenciou tremendamente a formação do Ocidente como hoje o conhecemos.
Em segundo lugar, o protestantismo enfrenta também o desafio de não ceder à tentação do “emsimesmamento”, olvidando sua missão evangelística. Refiro-me ao fato de que, em muitos lugares, infelizmente, o protestantismo tem se tornado mais um segmento voltado para si mesmo do que voltado para o mundo.
Em terceiro lugar, a necessidade premente de voltar-se às Sagradas Escrituras. Há vários casos em nossos dias que demonstram essa necessidade. Por exemplo, há muitos pregadores evangélicos, tanto no Brasil como lá fora, que infelizmente têm substituído a pregação e o ensino bíblicos integrais por meras mensagens de auto-ajuda. Não se preocupam mais em pregar “todo o conselho de Deus”, mas apenas aqueles aspectos do Evangelho que se encaixam à proposta motivacional da atraente e popular filosofia de auto-ajuda.
Pregadores têm se preocupado mais em se portarem como gurus motivacionais do que em levar seus ouvintes a crescerem espiritualmente em todas as áreas de suas vidas. Nesse contexto, não se prega mais, por exemplo, sobre cruz, renúncia, céu, inferno, pecado e santificação, mas apenas sobre superação de problemas materiais do cotidiano.
Outro caso em que vemos essa necessidade de retorno à Bíblia está na substituição que alguns fazem da mensagem inteiramente bíblica pela mensagem saturada de mero conteúdo filosófico. Às vezes, ao ouvir certas mensagens, constatamos serem mais uma reprodução sintética do conteúdo de livros de filosofia e de aforismos colhidos aqui e ali do que uma transmissão dedicada do conteúdo bíblico. Muitos se preocupam mais em inserir sua biblioteca em seus sermões do que em pregar a Bíblia em seus sermões. Não estou dizendo que nossa bagagem de leituras não deva enriquecer nossos sermões, mas que nossos sermões devem ser mais bíblicos do que “bibliotecocêntricos”.
Finalmente, um terceiro caso de distanciamento das Escrituras em nossos dias é o do zelo sem entendimento, que, indubitavelmente, está causando muito estrago. Aliás, esse talvez seja o mais freqüente de todos os casos, especialmente no que concerne ao evangelicalismo brasileiro, extremamente suscetível a modismos.
Sou pentecostal e enfatizo a necessidade de sermos, como disse o apóstolo Paulo, “fervorosos no Espírito servindo ao Senhor”, porém não devemos confundir isso com algo que a Bíblia reprova imensamente, que é tomar o fervor como um fim em si mesmo. Fervor sem o diapasão da Palavra de Deus causa estragos terríveis na vida espiritual das pessoas e de uma igreja como um todo.
Há muitos cristãos sinceros e fervorosos que, infelizmente, baseiam sua vida espiritual tão somente ou principalmente em experiências, e não na Palavra de Deus. São mais empíricos do que bíblicos em sua fé, e o resultado disso são bizarrias de toda sorte e, o que é bastante freqüente, frustração espiritual. São muitos os cristãos sinceros e genuínos em seu fervor que se encontram hoje neurotizados, frustrados espiritualmente, confusos, imersos em crise espiritual e com sua vida cristã em frangalhos. Isso me motivou a escrever, há dois anos, um livro sobre o assunto: Como vencer a frustração espiritual. Essa obra surgiu depois de inúmeros casos de crentes frustrados espiritualmente que encontrei em minhas viagens pelo Brasil para pregar a Palavra de Deus em igrejas de diversas denominações. Ainda hoje, recebo dezenas de emails de pessoas que me pedem orientação para saírem de alguma crise espiritual que estão vivenciando e, ao analisar o s casos, o diagnóstico tem sido invariavelmente o mesmo: as crises são geradas por conceitos equivocados sobre quem é Deus, o que é a vida cristã, o que é a vida espiritual, o que é o relacionamento com Deus e até mesmo sobre a natureza humana. Em suma: está faltando orientação bíblica.
E finalmente, o quarto desafio é um despertamento à ortopraxia. Se há protestantes que tropeçam porque lhes falta ortodoxia, há aqueles cujo problema é exatamente ausência de ortopraxia. São aqueles que perderam “o primeiro amor” em meio à sua trajetória e se cauterizaram ao ponto de, hoje, estarem “mornos”, “frios” ou até mesmo “mortos” espiritualmente. Esse arrefecimento e morte às vezes se devem ao desenvolvimento de alguma espiritualidade tipo zelo sem entendimento, ou a alguma forma errada com que a pessoa lidou com eventual queda espiritual, ou à relativização paulatina dos princípios bíblicos na vida da pessoa, ou a uma perda progressiva de foco devido à influencia do secularismo sobre ela, ou à falta de cultivo da vida espiritual viabilizando a ressurreição do “velho homem”, ou ainda ao trauma de um esgotamento físico e espiritual por ativismo religioso, dentre outros motivos. Tudo isso pode gerar a perda da harmonia entre o comportamento da pessoa e a Palavra de Deus. Tudo isso pode fazer com que um bom cristão, de repente, sofra uma ruptura em sua espiritualidade e se torne, aos poucos, um perfeito hipócrita.
E é importante ressaltar que os males que isso provoca não se vêem apenas na degeneração da vida dessas próprias pessoas ou no mau testemunho que dão à sociedade, mas também no efeito que causam na vida de cristãos que, sem maturidade, os tomam como referência de espiritualidade. Diante da queda desses referenciais, diante dos casos escandalosos de hipocrisia, esses cristãos deságuam em profunda desilusão e crise espiritual. E quando não se desviam, tornam-se presas fáceis ao neoliberalismo teológico ou a outras alternativas mais populares que se apresentam como salvadoras e se caracterizam, em casos mais extremos, pela demonização e diabolização da igreja organizada. Isso acontece hoje como aconteceu no passado, conquanto em formatos diferentes. Por exemplo, foi assim com o monaquismo e com o misticismo medieval, que se apresentaram – cada um a seu tempo e com suas respectivas peculiaridades – como alternativas à corrupção da igreja cristã medieva l. Esses movimentos eram mais uma fuga da igreja organizada e uma aposta em sua inexorável auto-desintegração do que uma tentativa de reformá-la. Lembremos que seus seguidores criam que, com a degeneração da igreja organizada como um todo, eles sobreviveriam como “igreja pura”.
Talvez não seja à toa que haja atualmente uma procura, por parte de alguns evangélicos frustrados com o cristianismo organizado, pela literatura devocional católica dos místicos medievais. Essa literatura surgiu exatamente em meio a uma frustração com o cristianismo organizado daquela época; foi essa conjuntura que levou seus autores a enveredarem na busca por uma nova espiritualidade.
De qualquer forma, no final, como sabemos, esses movimentos se dissolveram na História, enquanto o movimento reformador vingou. Porém, hoje, devido ao retrocesso em vários setores do protestantismo em relação aos princípios fundamentais da Reforma, constata-se que precisamos de uma espécie de “nova Reforma”. Basicamente, diria que precisamos retornar às Sagradas Escrituras, e refiro-me aqui tanto a um retorno em termos doutrinários como em termos de prática da vida cristã. Precisamos pregar e viver a Palavra. Precisamos ensiná-la e encarná-la.

6 comentários em “Desafios ao Protestantismo

  1. Muito bom este comentário do Silas Daniel.Não sei se ele vai ler este post, mas eu concordo com tudo que ele disse.Ao mesmo tempo fico muito frustrado pois parece que na prática isto não tem acontecido, ou seja, em nossas igrejas a realidde e outra.Minha grande dúvida persiste: Se vocês que são teologos e pastores lideres da Assembléia de Deus nõ der o primeiro passo para esta mudança, quem dará?Porque a Assembléia de Deus não aproveita este momento de comemoração de 100 anos para cortar esses modismos que tem ocorrido dentro dela e voltar à pregação genuina da palavra de Deus?Não estou dizendo que não haja pregação genuina, mas tem muitos modismos no meio que assim como o autor do post, eu também acho que precisa ser erradicado.

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  2. Luis, a paz!Penso que o centenário das Assembléias de Deus será uma rica oportunidade para repensar o nosso modo de viver o pentecostalismo clássico. Tomara que possamos passar de disputas infantis e discutir o que interessa!Essa é também minha esperança!

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