Sem categoria

O que me atrai no calvinismo (parte 2)…

No artigo anterior falei sobre a “antropologia negativa” dos calvinistas. Ao ler o texto é inevitável uma pergunta: “Não há beleza no ser humano?” Sim, há muita beleza no ser humana caído. Os calvinistas criaram o maravilhoso conceito da “graça comum”, ou seja, é a graça estendida a todos os homens, sejam eles cristãos ou não. É a lembrança que qualquer ser humano é “imagem e semelhança de Deus”. O professor C. Stephen Evans define assim a “graça comum”:

Graça divina estendida não somente aos eleitos, que Deus salva, mas a todos os seres humanos e, até mesmo, à ordem natural como um todo. Os teólogos que enfatizam a graça comum dizem que ela é uma ação divina de bondade (“envia chuva sobre justos e injustos”) e permite que seres humanos pecaminosos adquiram conhecimento e desenvolvam empreendimentos culturais como o governo e as artes. [1]

A ideia de “graça comum” é o desenvolvimento de um pensamento da era patrística. “Toda verdade é verdade de Deus”, diziam os Pais da Igreja. Não importa quem fale a verdade, se é verdade é de Deus. Assim nascia o conceito de “graça comum” já nos primeiros séculos da Igreja Cristã. 

É bom lembrar que a “graça comum” é uma ênfase calvinista não abraçada por todos os reformados. A divisão dessa doutruna ficou bem exposta entre os dois teólogos holandeses no começo do século XX, sendo eles Herman Hoeksema e Abraham Kuyper, autor de De Gemene Gratie (Da Graça Comum). Para Hoeksema a “graça” é uma bênção somente para “os eleitos” e acusava ser a doutrina da “graça comum” um “arminianismo puro”. Kuyper foi o principal nome defensor dessa ideia e que certamente saiu vencedor no debate, já que sua tese se popularizou.

Música e “graça comum”

A graça comum é um antídoto contra a divisão “sagrado” e “secular” tão comum no evangelicalismo popular. Exemplo clássico é a música. Na mentalidade evangélica há a “música de Deus” e a “música do mundo”. O cristão evangélico canta, por exemplo, a música “Sabor de Mel” na igreja e acha sacralidade no ato. Ora, uma música deve ser julgada pelo compositor (evangélico ou não-evangélico) ou pelos valores ensinados (conteúdo verdadeiro versus conteúdo falso)? 

Leia abaixo trecho da música “Aquarela”, composta por poetas como Toquinho e Vinicius de Moraes.

E o futuro é uma astronave
Que tentamos pilotar
Não tem tempo, nem piedade
Nem tem hora de chegar
Sem pedir licença
Muda a nossa vida
E depois convida
A rir ou chorar…

Nessa estrada não nos cabe
Conhecer ou ver o que virá
O fim dela ninguém sabe
Bem ao certo onde vai dar
Vamos todos
Numa linda passarela
De uma aquarela
Que um dia enfim
Descolorirá…

Ora, não lembra uma passagem de Eclesiastes? O trecho não é a lembrança da nulidade da vida depois de falar em tantos desenhos e cores? Quando ouço esse pedaço sempre lembro de Salomão. E é bem provável que eles não tenham pensado no livro bíblico ao escrever a composição.

Agora leia um trecho da música evangélica “Sabor de Mel”:

Quem te viu passar na prova
E não te ajudou
Quando ver você na benção
Vão se arrepender
Vai estar entre a plateia
E você no palco
Vai olhar e ver
Jesus brilhando em você
Quem sabe no teu pensamento
Você vai dizer
Meu Deus como vale a pena
A gente ser fiel
Na verdade a minha prova
Tinha um gosto amargo
Mas minha vitória hoje
Tem sabor de mel. (SIC)

Não é uma poesia pobre? Quais são os valores ensinados? Evidente que é um baita desejo de vingança. É o sentimento de “passar na cara” daqueles que o desprezavam. É o exibicionismo do vencedor no “palco” diante dos inimigos. Nada mais anticristão. Nada mais contra o Sermão do Monte ou Romanos 12. Mas, infelizmente, essa “música sacra” é cantada em nossos púlpitos todos os dias.

A graça comum nos ensina que o julgamento de uma música é pelo seu conteúdo. Quais são os valores e verdades enfatizadas? A graça comum mostra que encontramos beleza na arte produzida por não-cristãos. Você pergunta para o professor de geografia se ele é cristão ao enunciar a geologia da terra? É claro que não. Toda verdade é verdade de Deus. O que preferimos? O melancólico Johnny Cash cantando a miséria do homem em “Hurt” ou o triunfalismo infantil do “Vai dar Tudo Certo” dos neopentecostais? Quem está falando a verdade sobre o estado do homem? 
A respeito disso, o teólogo reformado Francis Schaeffer escreveu:

Em outras palavras, da mesma maneira que é possível o não-cristão ser inconsistente e pintar o mundo de Deus apesar de sua filosofia pessoa, também é possível o cristãos ser inconsistente e incorporar em suas pinturas uma cosmovisão não-crista. Este último tipo talvez seja o mais triste de todos […] Devemos enxergar tida a obra de arte à luz de sua técnica, validade, cosmovisão e adequação da forma ao conteúdo [2]

Ora, então é bíblico um cântico que não fale das grandezas de Deus diretamente? Na sua Bíblia tem um livro pouco estudado chamado “Cânticos dos Cânticos”. Por mais que se tente espiritualizar o livro, ali é uma canção de um homem apaixonado por sua noiva. É Salomão cantando alegremente as virtudes, mesmo físicas, de sua amada sulamita. A característica central do livro é “certamente o amor entre os dois”, como lembra Grant R. Osborne [3]. Falar o contrário é negar o óbvio. O próprio Schaeffer lembrava: “O que torna uma arte cristã não é necessariamente o fato de ela tratar de questões religiosas” [4][5]

O conceito de graça comum pode ser estendido para outras artes. Além disso, o conceito de trabalho também passa pela graça comum. Ser faxineiro é tão “sagrado” quanto ser pastor. O exemplo focado na música é o melhor, pois é justamente nessa área onde predomina a dicotomia maniqueísta do “sagrado versus secular”, quando a discussão deveria ser em valores passados pelas mensagens contidas nas letras e ritmos. 
A graça comum lembra  que não podemos dividir a nossa lida no lado comum com um outro lado religioso. No cristão tudo deve ser sagrado.

Referências Bibliográficas:

[1] EVANS, C. Stephen. Dicionário de Apologética e Filosofia da Religião. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2004. p 63-64. 
[2] SCHAEFFER, Francis A. A Arte e a Bíblia. 1 ed. Viçosa: Editora Ultimato, 2010. p 58 e 60.

[3] OSBORNE, Grant R. A Espiral Hermenêutica. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2009. p 297.

[4] SCHAEFFER, Francis A. Idem. p 28.

[5] Leia mais sobre música: a) COLSON, Charles e PEARCEY, Nancy. E Agora, Como Viveremos? 2 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2000. p 543- 553. b) GONDIM, Ricardo. É Proibido: o que a Bíblia permite e a igreja proíbe. 1 ed. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 1998. p 117- 134. c) PALMER, Michael D. (ed). Panorama do Pensamento Cristão. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2001. p 325- 349. Leia também o artigo de Tony Reinke: Deus deleita-se com a arte não-cristã? em http://iprodigo.com/textos/deus-deleita-se-com-a-arte-nao-crista.html

6 comentários em “O que me atrai no calvinismo (parte 2)…

  1. Palavras regadas de sobriedade!

    Deixo a minha contribuição para corroborar com o post:

    “Seja grato e louve ao Senhor
    E eu sentirei tudo bem
    Vamos seguir juntos para
    Ficarmos bem.
    Só mais uma coisa!

    Temos que manter a união para enfrentarmos o
    Armagedom Sagrado (um só amor)
    Então quando o Homem vier, estaremos
    Seguros (uma só canção)
    Tenha dó daqueles cujas as
    Chances são poucas
    Pois não haverá como se esconder
    Do pai da criação…”

    [One Love, Bob Marley]

    Curtir

  2. Gutierres,

    Continuo lendo e gostando. Mas veja só, apesar de ouvir “música secular” e “música sacra” e de não fazer distinção entre elas, mesmo assim mantenho-nas em pastas separadas, no pendrive do carro. Resquício dessa dicotomia e também para não escandalizar um caroneiro evangélico mais sensível.

    Mas a verdade é que ouço mais música dita não religiosa do que os góspeis da hora. Porcaria tem em toda parte, mas entre as chamadas músicas seculares há mais alternativas de escolhas e é mais fácil de montar boas seleções. Entre os góspeis está cada vez mais difícil, pois seguem o que há de pior, salvo raras exceções.

    Em Cristo,

    Clóvis

    Curtir

  3. Tem uma musica que melembra o diluvio!

    Eternas Ondas
    Zé Ramalho

    Quanto tempo temos antes de voltarem aquelas ondas
    Que vieram como gotas em silêncio tão furioso;

    Derrubando homens entre outros animais,
    Devastando a sede desses matagais;

    Devorando árvores, pensamentos seguindo
    A linha do que foi escrito pelo mesmo lábio tão furioso.

    E se teu amigo vento não te procurar
    É porque multidões ele foi arrastar.

    Curtir

  4. Caro Gutierrez,
    Comento sobre os dois posts:
    Toda teologia pentecostal está fundado no armenianismo!
    Os teólogos calvinistas, pelo desejo de reafirmar suas “teorias” a todo mundo protestante, evangélico e pentecostal, acabam por forçar um sistema que elitiza o próprio calvinismo.
    A sua justificativa sobre o “negativismo antropológico” está em frontal contradição com a “graça comum”.
    O próprio Sartre em sua construção sobre “liberdade” na obra “O Ser e o Nada” define o homem como “… condenado a ser livre”. Ou seja, o homem é dialético, onde navega na síntese entre o novo e o desconhecido, presente na
    tensão da existência. O homem é dialético: totalização em curso, projeto que se projeta sem cessar, é uma liberdade em ação. Que leva a construção de uma responsabilidade individual, isto é, somente com a possibilidade de escolhas é que se pode ter responsabilidades.
    A liberdade de fazer escolhas e aceitar as responsabilidades decorrentes.
    Portanto, embora, a história humana individual seja desfavorável socialmente, ninguém pode usar este argumento para justificar os erros presentes e futuros, para não incorrer no fatalismo, ou, predestinação.
    Pois, todos temos escolhas a fazer. O problema é assumir as responsabilidades.
    Portanto, aquele que teve dificuldades na infância pode alterar seu futuro, dependendo da escolha que determinará seu futuro: seja por Cristo, seja por uma vida digna, moral e ética.
    Assim, o negativismo antropológico é fatalista. E o positivismo antropológico, com seu livre-arbítrio torna o futuro aberto às possibilidades humanas. E, assim, o homem pode construir com Deus um futuro melhor!!
    Portanto, o calvinismo é lógico dentro de sua racionalidade, entretanto é facilmente contraditório quando colocado em prática.
    Por isso, embora, insistam, o negativismo antropológico é contraditório à graça comum, que é próprio do armenianismo.
    É hora de assumir nossa teologia pentecostal, e aprender a confrontar as contradições calvinistas que tornam o protestantismo nacional numa miscelânia que mais confunde que esclarece. Pois, por força das grandes instituições de ensino teológico serem predominantemente calvinistas, está se formando no Brasil, uma igreja estranha: uma igreja com cabeça (pastores e líderes) calvinistas, mas, com corpo (membros) armenianistas (realidade pentecostal e evangélica)
    É hora de perder o medo dos calvinistas e confrontá-los!!!
    Pense nisso!!

    Curtir

  5. Valter,

    Perdoe-me a intromissão.

    Você diz que “toda teologia pentecostal está fundada no arminianismo”. Não deveria estar na Bíblia? Mesmo assim, qual é incompatibilidade entre pentecostalismo e calvinismo? Eu sou calvinista e pentecostal e não percebo conflito entre a soteriologia reformada e a pneumatologia pentecostal.

    Tampouco vejo incompatibilidade entre incapacidade humana e graça comum. Talvez aqui esteja havendo alguma confusão conceitual. Pois da maneira como são definidas, a inabilidade humana não só é consistente com a graça comum como a torna necessária, para que o homem não chegue a ser tão mal quanto poderia ser.

    Além disso, a nossa referência para uma antropologia que seja correta é a Bíblia e não Sartre. O palavreado quase que poético que procura definir o homem de maneira ambígua vira caco quando bate na declaração bíblica de que “não há quem faça o bem”.

    Em tempo: não acredito que o Gutierres tenha medo dos calvinistas, e nem precisaria ter. Como calvinistas não devem ter medo de pentecostais. Ambos podem aprender muito uns com os outros.

    Em Cristo,

    Clóvis

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s