Cristianismo Cult

Os jovens pentecostais, os teólogos liberais e a pseudoerudição

Bultmann com “analfabetismo funcional”:
 uma mistura ruim!

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Um jovem neófito procura uma instituição de ensino teológico dentro da sua denominação. O estudante é de confissão pentecostal. Ele entra no seminário cheio de tradições, legalismos e perspectivas carismáticas. Um ano depois já é um “especialista” em Rudolf Bultmann. E pega para si uma missão: convencer o “povo ignorante” de sua igreja que a Bíblia está cheia de mitos e que o cristianismo é um instrumento político opressivo.

É assim que nasce um pequeno teólogo liberal (não gosto desse termo, pois a palavra “liberal” traz um sentido positivo para mim). Eu mesmo conheço alguns liberais de carteirinha. Eles nascem em seminários que levam o nome da nossa denominação e depois, imbuídos de uma missão iluminista, querem converter outros ao liberalismo teológico.

Mas neste texto apresento algumas características desses jovens liberais:

1. Mal sabem o português, mas já trabalham com temas complexos com certo ar de especialistas. Eu sei que a língua portuguesa é dificílima e, eu mesmo, sofro com ela todos os dias. Mas acho interessante um teólogo liberal que mal sabe preparar um artigo. Conheço um sujeito que não escreve nada com uma concordância razoável, mas sempre usa termos como: “paradigma”, “processo histórico”, “emancipação” e outras palavras viciadas em seus textos. Ora, se mal sabe o português como é capaz de ler livros complexos? E, se realmente os lê, como será capaz de entendê-los?

Normalmente esse grupo abraça com entusiasmo a Teologia da Libertação. Só que a Teologia da Libertação não tem apenas problemas metodológicos quanto à teologia. Essa cria latina é, também, um horror como teoria econômica. Dê o Ministério da Fazenda para qualquer teólogo da libertação é você terá o caos econômico e social, mas, é claro, tudo “em nome do bem”. E esses jovens falam de economia sem nunca terem lido nada a respeito. Mas, é claro, o “ar de especialista” paira no ambiente.

2. Em sua pouca experiência são facilmente ludibriados por uma pseudoerudição. Quando eu era adolescente morria de medo dos intelectuais. Eu achava que tamanha erudição poderia minar a minha fé em Cristo. Ora, a universidade seria um lugar que minha crença seria colocada no fogo… Até que entrei na faculdade. Nada de impressionante. Era apenas a extensão do Ensino Médio. Alguns professores ditos “progressistas” eram “fundamentalistas da vanguarda” e logo percebi esse traço intolerante no magistério que tanto falava em “pluralismo” e “democracia participativa”. Além disso, alguns tinham opiniões políticas tão idiotas que a faculdade perdeu aquela aura de um lugar tão “sabido”! Só quem não sabe de nada fica com medo de certos eruditos. E, infelizmente, muitos jovens que nutriam esse medo hoje prestam reverência a esses “eruditos”.

As ciências humanas, por exemplo, são o campo de maior conflito com essa erudição arrogante. É a intolerância dos tolerantes. O filósofo Luiz Felipe Pondé escreve:

Quando falamos em ciências humanas- ciências quase inúteis e de resultados dúbios-, o mérito então desaparece e, em seu lugar, resta mediocridade, corporativismo, repetições que mimetizam produtividade em termos numéricos e quantificáveis. Tudo a serviço de disputas miseráveis dos pequenos poderes institucionais [1].

Sim, até lembra a estrutura de certas igrejas. Por que ficar de boca aberta diante disso? Sendo deselegante diria que é pura breguice quem se impressiona com pouca coisa.

Não leia esse texto como uma defesa do anti-intelectualismo, pois não o é. O problema desses pequenos liberais não é a erudição, mas a pouca erudição. Eles seguem professores como alguns neopentecostais seguem “bispos” e “apóstolos”. Eles reverenciam certo eruditos como alguns pentecostais reverenciam certos caciques. Tanto num espaço como noutro o que temos é o exercício do cabresto. Só que no primeiro grupo isso é ser “cool”.

3. Mal conhecem a teologia conservadora e vivem de criticar caricaturas. Ora, como é fácil criticar caricaturas. Se todo reformado fosse um John MacArthur Jr., por exemplo, a crítica seria fácil e rasteira. Mas nem todo reformado é estreito com MacArthur Jr. Se todo pentecostal fosse um Silas Malafaia, por exemplo, como seria fácil criticá-los. O mesmo acontece com o conservadorismo. Não podemos simplesmente criticar a ortodoxia histórica baseados em caricaturas. Será que esses teólogos liberais já leram alguma linha do teólogo católico Joseph Ratzinger ou vivem de ler citações do Leonardo Boff? Eu sei que alguns conservadores comentem o mesmo erro em relação aos liberais, mas esse pecado é tão comum nesse meio que fico espantado como eles vivem em função das caricaturas.

Será que, tratando-se de conservadorismo filosófico, eles sabem que são os filósofos Edmund Burke, Michael Oakeshott ou Russell Kirk? Não, eles não sabem.

Se pouco sabem, como podem viver com aquele tipo professoral? “Que grande inutilidade! “, diz o Mestre. “Que grande inutilidade! Nada faz sentido!” [Eclesiastes 1.2]

Referência Bibliográfica:

[1] PONDÉ, Luiz Felipe. Contra um Mundo Melhor. 1 ed. São Paulo: Leya, 2010. p 178.

LEIA A SEGUNDA PARTE AQUI.

17 comentários em “Os jovens pentecostais, os teólogos liberais e a pseudoerudição

  1. Meu amado, achei provocativo, mas, oporturno seu texto. Apenas lamento o tom de certa “superioridade” em que irmão desenvolve sua reflexão. As palavras têm o poder de nos trair. Quando vc evoca seu próprio exemplo, passa essa ideia. Inclusive, pelo que vi na sua formação, carece de uma certa bagagem acadêmica para se imaginar uma referência, como transpareceu nas suas palavras. Sugiro o cuidado com essa palavra “liberal”. No campo da teologia ela tem sido mal utilizada, inclusive, anacronicamente.
    Quanto ao mais, desejo sucesso na caminhada e que o bom Deus o guarde em tudo.

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  2. Muito bem dito. O liberalismo teológico é, de modo geral, ignorante da erudição ortodoxo e reformado. De fato, os liberais frequentemente tem um conhecimento superficial dos presupostos filosóficos atrás de seu próprio liberalismo. Eles lançam críticas contra a teologia Evangêlica, sem saber que estas críticas já eram respondidas e refutadas há anos. Sou formado em faculdades liberais (bacharel e doutorado) e conservadoras (mestrado), e sem dúvida foram os professores Evangêlicas que tinham conhecimento mais profundo e abrangente da teologia, pois eles leiam tanto a teologia liberal como a teologia conservadora. Mas, tipicamente, os liberais ignoram a teologia conservadora, e assim ficam ignorantes. A ironia se manfesta na arrogância de alguns liberais que se acham mais eruditos e superiores aos “fundamentalistas”. No entanto, são eles que tem a mente fechada, sendo nada mais que fundamentalistas da esquerda.

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  3. Caro Gutierres,

    É bem verdade que, não obstante o restante da população, os evangélicos, em sua maioria, tenham uma enorme dificuldade de interpretar textos eruditos. Por isso, uma figura falsamente intelectual é tão perigosa, pois essa falsa intelectualidade se prolifera como um câncer alimentada pela superficialidade no conhecimento até mesmo dos rudimentos do Evangelho por parte dos estudantes de teologia. O que eu peço a Deus todos os dias é que todo esse povo aprenda pelo menos o básico para que tenha estrutura para aprender coisas mais “elevadas”. Portanto oremos e façamos alguma coisa para reverter essa situação. Parabéns pela postagem!

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  4. Não precisa ir longe para se deparar com os “teólogos” mencionados por você. Os “web-debates” entre ateus e cristãos dão clara prova de que nossos neo-teólogos se alimentam de teologia rasa e arrotam erudição. Outro ponto no qual concordo com seu texto concerne ao velho e obscuro ‘português’. O rico idioma é apequenado pela pobreza verbal daqueles que ousam.

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  5. Verdade os liberais se fecham para os consevadores, mas vou falar eu tive professores liberais no mackenzie que eram muito mais profundo no conhecimento exemplo o Paulo Romeiro que vc gosta Guitierres é fraco em vista do meu professor de NT que era liberal até a tampa hahhahah. Agora os dois autores citados Bultmann e Boff eu conheço bem as obras dos dois apresentei no mackenzie na aula de Teologia contemporânea acerca do Bultmann o Romeiro saiu tremendo, e o Boff é na minha opinião o maior teólogo brasileiro na atualidade meu tcc foi sobre a Trindade na sua elaboração, nós pentecostais poderia aproveitar a erudição destes gigantes pois é preciso entender o conceito bultmaniano e boffiano, pois criticar alguém sem nunca ter lido é facíl fui…..

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  6. Evite o preciosismo, seja o gramatical ou seja o intelectual, caro irmão Gutierres, e perdoe se certas bandeiras de direita ou esquerda defendidas por certas pessoas nas igrejas se mostram tão míseras ao serem desfraldadas.

    Vale sempre a boa intenção, amém?

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  7. eu, Matias, fico admirado que esta “teologia liberal” está ficando popular em pleno sec 21, enquanto que na Alemanha, berço desta corrente, já se percebeu que isto levou a nada a não ser majestosos templos luteranos vazios em pleno domingo e um recorde de solicitações de desligamento da igreja estatal.
    concordo também com o Myatt que os teólogos liberais são muito fechados, pois conhecem apenas superficialmente outras correntes teologicas e, mesmo, na interpretação destas, são mal intencionados (ou são ruins de interpretação mesmo…). Pior, o liberalismo vem com uma vestimenta de ciência empírica, mas não o é. É puro idealismo. Ou como dizia uma professora de teologia alemã, que se convertera no final de sua carreira academica como professora liberal, referindo-se a mente fechada do liberalismo: é uma prisão satanica.
    Conheci muitos estudantes brasileiros de teologia vindo de igrejas históricas que faziam doutorado na Alemanha. Acho que grande parte hoje não presta mais para o ministério e trancou-se no gueto de sua denominação (também alienada…) ou instituição de ensino (muito mais alienada….), onde seus diplomas são valorizados e seu “brilhantismo academico” é louvado. O mundo os ignora.
    Abraço, Matias

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  8. Inteligente, oportuno e muito real.
    Só não entendo o incômodo causado pela “carência” de certa “bagagem” acadêmica específica, quando se fala com embasamento e propriedade muitas vezes maiores do que a de muitos acadêmicos.

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  9. Matias,

    É realmente um mistério o fato de que a Esquerda em qualquer lugar que seja se mostre totalitária e devastadora. Por que será que combater os excessos do sistema, a rigidez de nós da Direita, redunda no cúmulo da rigidez que é o totalitarismo e um certo tipo de burrice tipicamente esquerdista, ou seja, falsamente liberal e progressista?

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  10. Completando meu comentário anterior. A professora de Teologia que se converteu a Cristo chamava-se Eta Linnemann. Ela fora aluna de Bultmann e em 1977/78 em pleno exercicio da sua profissão como professora de teologia em uma universidade alemã converteu se a Cristo e publicamente rejeitou a teologia liberal.
    Abraço, Matias

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  11. O Gutierres, como sempre, acertou na mosca.

    Os liberais, vivem, em regra, no mais desvairado corporativismo. Vivem de citar um ao outro e repetir o que um diz para o outro a respeito da teologia “conservadora”. Enfim, é quase como um clubinho criado especificamente para fazer o fofoca de quem não gostam.

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  12. Aliás, só algumas palavras sobre os termos “conservador” e “liberal” ou “progressista” como os liberais também gostam de ser chamados.

    O Gutierres, assim como eu, é um grande admirador do pensamento do Chesterton, e tenho certeza que vai me entender. Esse pensador já demostrou, no seu livro Hereges, que os termos “conservador” e “progressista” não são termos que carreguem, em si mesmo, um significado. São termos comparativos que não fazem qualquer sentido sem um superlativo. Desse modo, um conservador pode muito bem ser um progressista enquanto o seu ideal não for um ideal praticado em toda a sociedade. Enquanto ele querer implantar esse ideal e caminhar para ele, ele poderá ser legitimamente ser chamado de progressista. O mesmo pode acontecer para um progressista que consegue implantar na sociedade o seu ideal progressista. Uma fez feito isso ele procurará conserva-lo e, portanto, será um conservador.

    Disso infere-se que esses termos não servem para descrever o pensamento de quem quer que seja, apesar de já estarem consagrados e todo mundo saber do que se trata quando são utilizados.

    O problema, e ai a segunda critica, é que esses termos tem alta carga IDEOLÓGICA. Pois os liberais se vendem como aqueles que lutam pela liberdade das pessoas e os progressistas como aqueles que querem ver a sociedade melhorar. E ao fazerem isso gostam de detratar os conservadores como os empenhados em conservar as injustiças, as desigualdades e tudo isso que abominamos. Nada mais falso.

    Portanto, além de imprecisos esses termos servem muito mais como propaganda e como instrumento de manipulação ideológica.

    Abraços.

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  13. Gutierres.

    Congratulo você por abordar este tema. A iniciativa ao escrever sobre o assunto é assaz pertinente. Parabéns!

    Concordo com o que escreveu. Ao ler, quase que vi uma determinada pessoa na minha frente. Ela formou-se em teologia e passou a criticar tudo e todos, como se acreditasse que o ensino superior tornasse ela uma pessoa superior ao resto da humanidade. É triste encontrar pessoas que, ao invés de ir ao mundo anunciar o Evangelho, ficam no meio evangélico tentando converter os convertidos a Cristo às suas preferências intelectuais (para não dizer “intelectualóides”).

    Talvez, assim como eu, você “sofra” com a companhia de uma pessoa saída de uma instituição de ensino teológico, convencido que é preciso reformular o “projeto” da roda.

    Indiquei sua reflexão aqui: http://belverede-blogs.blogspot.com.br/ e aqui http://www.ubeblogs.net

    Abraço.

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  14. Gutierres boa tarde! existe uma enquete aqui no site site, onde está algumas denominações, entre elas a cristão católica,, participo da renovação carismatica catolica, acho que vc deveria colocar cristão católica pentecostal. ooo Glloriaa
    a gostei muito de alguns postagens suas, que Deus continue te abençoando.

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  15. Reverter essa situação que também tem um cunho histórico é muito difícil , pois a base para para esse problema foi lançado há muito tempo, precisamos defender a fé que uma vez foi dada aos santos, o problema é que ninguém quer fazer essa defesa de forma contudente, expodo-se, deixando a reputação de lado e guiando-se por uma consciência presa as Escrituras, portanto presa à Cristo…..Falo isso por experiência própria, pertenço a uma igreja histórica, onde hoje o pastor é um areunião liberal

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