Política

O “voto dos evangélicos”, o voto de cabresto e o preconceito velado nas análises jornalísticas e sociológicas!

O retrato dos evangélicos em muitas análises sociológicas é como essa charge.
 Será que os evangélicos são mais manipuláveis do que a média da população?

Por Gutierres Fernandes Siqueira

As minhas posições sobre igreja e política são claras. Mas não custa relembrar: 1) A igreja não deve apoiar oficialmente um candidato, seja ele evangélico ou não, isso porque a igreja deve ser uma entidade neutra sem interesses no poder temporal. 2) O papel da igreja é educar, ou seja, orientar os fiéis a um voto consciente. E a ação educadora passa também pela formação de uma alta cultura. 3) A igreja deve defender a democracia e a voz eclesiástica ativa em sua sociedade laica, assim como deve rejeitar movimentos teocráticos ou extremistas que se escondem sob o secularismo. 4) A igreja jamais deve ceder o seu espaço para a propaganda política, ideológica ou partidária. 5) O prédio da igreja não pode ser confundido com comitê eleitoral. 6) O candidato que visitar um culto deve ser tratado como qualquer outro visitante, ou seja, com educação, mas sem nenhuma diferenciação. 7) A igreja evangélica deve ser a maior defensora da separação entre a Igreja e o Estado.

Mas neste texto quero falar sobre o “voto dos evangélicos”, ou seja, essa entidade mística buscada com afinco pelos políticos, vendida pelos pastores sem escrúpulos e objeto de análise dos “especialistas”. O tom é meio de “voto de cabresto”, ou seja, se uma denominação apoia determinado candidato parece que todo membro daquela igreja votará no indivíduo. Será que é assim mesmo?

Na verdade, tal visão é preconceituosa. A ideia que o “rebanho” é tão dependente da orientação pastoral que votará em qualquer um apresentado pela igreja é simplesmente absurda. Eu, pessoalmente, já vi inúmeras vezes pastores defendendo determinado candidato e membros da mesma igreja dizendo que iam votar no candidato adversário. O que pesa mais não é a palavra do pastor, mas sim a percepção geral daquele eleitor sobre o candidato. Pode até ser que a opinião do eleitor coincida com a orientação daquele pastor, mas tal processo não é automático, principalmente para eleger os membros do Poder Executivo.

Em 2008 fui em um culto onde defendiam abertamente o voto no então candidato e prefeito Gilberto Kassab. O culto era composto em sua maioria de jovens, mas ao final eu ouvi um grupo deles comentando: “Eu não vou votar no Kassab. Eu vou votar na Marta (Suplicy) porque ela vai colocar internet de graça em toda a cidade”. Dias depois vi uma cena parecida, mas as palavras foram de uma senhora bem idosa. Naquele dia percebi que não existe voto de cabresto em igrejas evangélicas. As pessoas votam conforme a sua própria cabeça.

É claro que alguns ouvirão os seus pastores inescrupulosos. E repito: tais pastores envergonham o Evangelho, pois a missão pastoral é a exposição bíblica e o discipulado. Mas não é a maioria. A maioria vota com autonomia. Portanto, o “pastor” que vende apoio a um candidato está enganando aquele político. Aliás, um pastor que vende apoio deveria pedir sua demissão, pois traz desgraça sobre o seu ministério.

Deveriam aprender com Paulo, o apóstolo, que era tão preocupado com a credibilidade de seu testemunho diante do mundo. “Não damos motivo de escândalo a ninguém, em circunstância alguma, para que o nosso ministério não caia em descrédito”, disse ele aos coríntios [2 Coríntios 6.3].

Os evangélicos em sua maioria, repito, não são ovelhas mansas levadas a qualquer voto. A decisão é bem pessoal, mesmo que baseada em promessas populistas. A qualidade do voto não é melhor e nem pior que a média geral da população brasileira. Portanto, os evangélicos são mais manipuláveis do que os não-evangélicos? É claro que não. Para o bem ou para o mal, o nível é o mesmo!

Leia mais:

A professora Magali Nascimento Cunha escreveu o texto Rebanho não tão unânime no jornal O Estado de S. Paulo onde contesta essa visão tradicional sobre o voto evangélico. Leia aqui.

6 comentários em “O “voto dos evangélicos”, o voto de cabresto e o preconceito velado nas análises jornalísticas e sociológicas!

  1. Na penúltima eleição ao governo de Goiás, lembro-me que todos os membros da AD Madureira receberam panfleto do “Mané” Ferreira pedindo voto pra um candidato. Eu achei absurda aquela extensão de comitê eleitoral na igreja, em pleno culto destinado ao ensino da Palavra. Fui questionado por alguém e tive que ouvir que se não votasse no candidato do Mané eu estaria desobedecendo meu líder.

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  2. Caro Gutierrez,

    Ministrando uma palestra numa determinada comunidade de fé, interrogaram-me sobre Igreja e Política. Expus a minha opinião. Disse que a igreja exerce um papel não-partidário e que, portanto, não tem o direito de interferir na consciência de qualquer membro.
    No entanto, o vice-presidente daquela igreja local discordou de minha assertiva e disparou: a igreja tem um líder maior e, por isso, devemos obedecê-lo diligentemente. Segundo ele, “após obedecer ao líder maior e votarmos em quem ele orientou; não teremos quaisquer responsabilidades com as falcatruas que o candidato indicado praticar”. É claro que os irmãos estavam incomodados com o comportamento daquele vice-líder. Mas ao ouvirem essa pérola, não titubearam; eles o contraditaram em uníssono: “temos responsabilidade sim, pois depositamos a nossa confiança naquele candidato”.
    Esta cena é verídica e ocorreu neste último final de semana. Isto muito preocupou-me, pois tenho visto cada vez mais líderes religiosos envolvendo-se ativamente no processo eleitoral brasileiro. Mas vi, em contrapartida, e tamanha esperança, uma comunidade de pessoas enfastiadas desse comportamento eclesiástico. Ao ponto de manifestarem-se conscientemente contra a orientação de seu líder maior e em público. As pessoas, de fato, não são tão ingênuas assim! Se engana quem pensa que podem manipulá-las sempre!

    Marcelo de Oliveira e Oliveira
    Rio de Janeiro, RJ.
    agracadateologia.blogspot.com.br

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