Escatologia

A escatologia do medo

Por Gutierres Fernandes Siqueira

“Consolem-se uns aos outros com essas palavras”. [Apóstolo Paulo em 1 Tessalonicenses 4.18]


Vale a pena expressar, antes de começar, que este artigo não é uma análise teológica (e crítica) do dispensacionalismo em si. Então, se você é um militante dessa corrente, saiba que não vou debater sobre a melhor ou a pior escola escatológica. Mas, é inegável que a “escatologia do medo” é um subproduto do dispensacionalismo.

O dispensacionalista pode alegar que a escaterrorismo é uma interpretação equivocada da corrente. E talvez seja verdade. Mas é interessante o quanto de tempo e espaço um pré-tribulacionista dispensacionalista gasta com o tema “grande tribulação”. Ora, por que um espaço equivalente não é usado para falar do milênio (que no dispensacionalismo é literal)?

No versículo que abre este artigo o apóstolo Paulo fala sobre a vinda de Cristo (cf. 1 Tessalonicenses 4.18. Independente da interpretação, é fato que o propósito da escrita está no versículo 18: o “consolo”. A escatologia deve ser motivo de celebração e não de atemorização. Ora, ninguém é realmente convertido pelo medo.

O verbo “consolar” (gr. parakaleite de parakaleó)  está no presente do indicativo e na voz ativa[1], ou seja, isso indica que Paulo está incentivando uma ação continuada por parte dos leitores (e ouvintes) daquela carta. É a função de confortar, consolar e encorajar a comunidade cristã com ensinos sobre a vinda do Senhor. E todos vocês sabem que parakaleó é uma das funções do Espírito Santo, o Consolador por excelência (cf. João 14.16).  Um dos significados da palavra grega é “chamar para perto”[2] ou “chamar ao próprio lado” [3]. Portanto, a função do escatólogo é a consolação do ouvinte. Sim, mesmo que a mensagem seja de juízo e advertência, mas o propósito consolador não deve ser esquecido.

Tal alegria e consolação com a vinda de Cristo lembra o maravilhoso hino O Rei Está Voltando da Harpa Cristã. A letra transpira aquela espectativa joanina do “Ora vem, Senhor Jesus”. [Apocalipse 22.20]. Se perdemos essa beleza da espera pelo Pai perdemos um pouco da beleza do Evangelho.

O Rei Está Voltando
1
Os fiéis são trasladados; seu trabalho aqui findou. A carreira desses santos, nesta vida já cessou. Do Senhor os bons ceifeiros, terminaram seu labor; A colheita completou-se: é a vinda do Senhor!
Coro
O Rei está voltando! o Rei está voltando! A trombeta está soando, para os santos trasladar. Sim, o Rei está voltando! o Rei está voltando! Aleluia! Ele vem nos buscar!
2
Desta Terra estão subindo os remidos para o céu, Ao encontro do Deus Filho, que aparece além do véu. E o templo está deserto; sua pregação cessou. É noticia em toda parte: “Jesus Cristo já voltou!”

3Os remidos vão subindo: é a festa celestial: Todo o Céu está se abrindo, num “Bem-vindo!” sem igual, Qual o som de muitas águas, nós ouvimos entoar Aleluias ao Cordeiro! – vamos indo para o Lar!



Referências Bibliográficas:

[1] RIENECKER, Fritz e ROGER, Cleon. Chave Linguística do Novo Testamento Grego. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 1995. p 444.

[2] STRONG, James. Dicionário Grego do Novo Testamento. em: BENTHO, Esdras Costa (ed.). Bíblia de Estudo Palavra-Chave: Hebraico e Grego. 4 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2009. p. 2339.

[3] ROBINSON, Edward. Léxico Grego do Novo Testamento. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2012. p. 690.

4 comentários em “A escatologia do medo

  1. Concordo com o Blogueiro.

    Este tema é muito explorado em demasia aos demais.

    Independente da linha escatológica seguida, não há motivos claros para se explorar o ruim ao invés do bom.

    No meu entendimento o pensamento daqueles que defendem esta posição, é justificar os meios pelo fim (“O Fim justifica os Meios”), isto é, querer “arrebanhar” os fiéis para Cristo aterrorizando-os, ao invés de abrir os olhos deles para a grandeza da vida celestial com Cristo.

    Por curiosidade o blogueiro poderia dizer qual a linha escatológica que segue?

    A Paz de Cristo seja com todos.

    Felipe

    Curtir

  2. Gutierres,
    Me parece que tanto no Antigo como o Novo Testamento existem mais referências a respeito da “tribulação” do que do milênio. Talvez isso motive maior atenção ao tema da “grande tribulação”.
    Se por um lado a alegria e o consolo da volta de Cristo deve nos encorajar em nosso viver, não menos encorajados devemos ser em temer o juízo de Deus.

    Curtir

  3. Ótima observação. O mais contraditório dos adeptos da linha dispensacionalista é que eles fazem este terrorismo e dão esta ênfase demasiada na grande tribulação enquanto pregam que a igreja não estará aqui neste período. Não deveria gerar uma postura contrária?

    O que acontecerá quando eles descobrirem que, conforme Daniel 7:21 o anticristo faz guerra contra os santos e prevalece contra eles?

    A linha de Paulo em tessalonicesses é baseada em Daniel. O consolo, que o Gutierres notou, é por “saber que iremos padecer por um momento” (ou tempo, tempos e metade de um tempo) ATÉ que VEM (PAROUSIA, presença) o Ancião de Dias e assim o reino é tomado por Ele e pelos santos (Dn 7:22).

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s