Joseph Ratzinger

Por que lamento o fim da era Ratzinger?

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Minha atitude perante o progresso passou do antagonismo ao tédio. Parei, há muito tempo, de discutir com as pessoas que preferem quinta-feira à quarta-feira porque é quinta-feira . [G. K. Chesterton, polemista católico].


Como vocês já sabem, hoje foi anunciada a renúncia de Joseph Ratzinger do papado como Bento XVI. Até o final do mês, o cardeal alemão deixará o exercício que vem desempenhando desde 2005. Ratzinger já tem 85 anos e não desfruta de uma boa saúde. Além disso, o líder católico sempre deixou claro que poderia renunciar caso não tivesse mais condições para liderar a denominação.

Bom, como protestante, eu simplesmente discordo de inúmeras doutrinas, tradições e costumes católicos, aí incluído a própria instituição do papado. Fazendo essa óbvia ressalva, reconheço em Ratzinger um dos melhores teólogos das últimas décadas. Nesse sentido, tenho inúmeros motivos para lamentar a saída de Ratzinger. Cito duas dessas causas.:

1. Ceticismo com a modernidade. Ratzinger é um cético para com a promessa de progresso apregoada pela modernidade. Não é à toa para quem cresceu na Alemanha nazista. O país progrediu cientificamente como nunca sob um regime totalitário, e a população pacífica diante do horror era uma das mais bem educadas do mundo. Os crentes do progresso dirão que Ratzinger é apenas um reacionário com medo do novo, mas numa análise atenta veremos no alemão a lucidez conversadora diante de qualquer promessa utópica que, imbuída de esperanças, desbanca para tentações totalizantes. O conservadorismo de Ratzinger não é a defesa boçal do status quo, mas a saudável desconfiança para soluções políticas mágicas e messianicas, logo porque o mundo não é um jardim de infância.

E Ratzinger, comentando sobre o assunto, nos lembra de obviedades esquecidas pelas “mentes iluminadas”:


A modernidade procurou o próprio caminho guiada pela ideia de progresso e de liberdade. Mas o que é progresso? Hoje, vemos que o progresso pode ser também destrutivo. Por isso, devemos refletir sobre os critérios a serem adotados, a fim de que o progresso seja verdadeiramente progresso. […] É progresso quando posso destruir? É progresso quando posso criar, selecionar e eliminar seres humanos? Como é possível dominar o progresso do ponto de vista humano e ético? [1]

Quando falo em “progressismo” como ideologia lembro das palavras de C. S. Lewis:

Essa desconsideração pela autoridade humana pode ter duas origens. Pode brotar da convicção de que a história humana é um simples movimento unilinear do pior para o melhor- o que se chama de crença no Progresso- de modo que qualquer geração é em todos os aspectos mais sábia que as gerações anteriores. Para os que pensam assim, nossos antecessores estão superados e parece não haver nada de improvável na afirmação de que o mundo inteiro estava errado até anteontem e agora ficou certo, de repente. Com essas pessoas, confesso, não consigo discutir, pois não participo de seus pressupostos básicos. Os que creem no progresso notam corretamente que no mundo das máquinas o novo modelo supera o antigo; disso infere falsamente uma espécie de superação em elementos como virtude e sabedoria [2].  

Ratzinger nos mostra que o “progresso” pode ser a vanguarda do atraso.

2. Defesa da verdade diante do dogmático relativismo pós-moderno. Ratzinger tem sido um profeta diante do mal que o relativismo ético, moral e epistemológico pode causar ao ser humano. Ora, se não existe verdade, logo tudo é permitido. A Declaração Universal dos Direitos Humanos não poderia ter sido escrita por quem dogmaticamente acredita que a única verdade absoluta é a inexistência de verdade absoluta.  Ratzinger escreveu:

As teorias relativistas desembocam geralmente no descompromisso, tornando-se, assim, supérfluas, ou acabam alegando que na práxis residem normas absolutas e, então, impõem o absolutismo, exatamente aonde ninguém queria chegar”. E continua: “Onde o ministério já não conta, a política se converte em religião [3].


E comentando o Evangelho, o teólogo católico lembra a pobreza da exegese liberal, que é contaminada pela leitura pós-moderna e, outrora, iluminista:

A exegese liberal disse que Jesus teria substituído a concepção ritual da pureza [da lei mosaica] pela moral: no lugar do culto e do seu mundo, entraria a moral. Então o cristianismo seria essencialmente uma moral, uma espécie de “rearmamento” ético. Mas desse modo não se faz justiça à novidade do Novo Testamento. [4]

O relativismo não é, portanto, apenas uma ideia com consequências perigosas, mas também, uma tese que em sua aplicação é uma antítese.
———————————

Bom, é lamentável receber a notícia dessa renúncia, pois a voz de Ratzinger fará falta para a cristandade como um todo. Estranho ler isso de um protestante? Bom, se você achou, por favor, experimente ler a obra do cardeal alemão.

PS: Seria bom que alguns “papas evangélicos” – que abraçam o poder com afinco- seguissem o exemplo de Ratzinger.


Referências Bibliográficas:

[1] RATZINGER, Joseph. Luz do Mundo. O Papa, a Igreja e os sinais dos tempos. Uma conversa com Peter Seewald. 1 ed. São Paulo: Edições Paulinas, 2011. pp 62,63.

[2] LEWIS, C. S. O Peso de Glória. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2009. p 82-83.

[3]  RATZINGER, Joseph. Fé, Verdade, Tolerância: O Cristianismo e as Grandes Religiões do Mundo. 1 ed. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência Raimundo Lúlio, 2007.  p 119.

[4] RATZINGER, Joseph. Jesus de Nazaré: Da entrada em Jerusalém até a Ressurreição. 1 ed. São Paulo: Editora Planeta, 2011. p 63.

14 comentários em “Por que lamento o fim da era Ratzinger?

  1. Concordo plenamente.

    O Ratzinger e um dos melhores teólogos da atualidade e o que ele diz merece ser ouvido.

    Da minha parte, já faz algum tempo que tenho muito interesse em adquirir a trilogia dele sobre Jesus. Prestarei minha homenagem a ele comprando o livro. Tenho certeza de que não irei me arrepender.

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  2. Creio que o motivo da renuncia não seja por problemas de saude ou por ter idade avançada, outros fatores, por nós desconhecidos, foram predominantes para que o Sr. Ratzinger abdicasse de um tão poderoso cargo. Porém tenho certeza que nunca saberemos o real motivo!

    Andry Bastos

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  3. Ratzinger, a meu ver, abre um precedente novo e perigoso no Catolicismo Romano. Pois, como haverá na Igreja um ex-rei vivo e com o munus de infalibilidade tão vital para romanistas? Será curioso ver nos próximos anos a chamada colegialidade em Roma onde um de seus membros é um ex-Papa, ou seja, um Papa emérito? O próximo papado romano parece-me que será um monstro de duas cabeças.

    Ora, é como se em nossos arraiais protestantes as edições ortodoxas da Bíblia sofressem uma fadiga de material: fossem aposentadas e daí passássemos a adotar aquelas horríveis “bíblias” gays ou ecofascistas.

    JOÃO EMILIANO MARTINS NETO

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  4. II CRÔNICAS 19.1 E JEOSAFÁ, rei de Judá, voltou em paz à sua casa em Jerusalém.
    2 E Jeú, filho de Hanani, o vidente, saiu ao encontro do rei Jeosafá e lhe disse: Devias tu ajudar ao ímpio, e amar aqueles que odeiam ao SENHOR? Por isso virá sobre ti grande ira da parte do SENHOR.

    Não consigo entender! Vocês estão louvo a obra de um homem que liderou uma religião morta , que conduz milhares para inferno. E, o mesmo que eu nesse momento como cristão louvasse a obra do Edir macedo ou Veldemiro santiago. Sei que são falsos Apóstolos pois por seus frutos o conhecereis.
    Penso o que Martinho Lutero ou os santos frutos da reforma protestante sentiriam ao ler essas linhas, é lamentável. Não conheço os livros que esse o papa escreveu, porém como está escrito em TITO 1.16 Confessam que conhecem a Deus, mas negam-no com as obras, sendo abomináveis, e desobedientes, e reprovados para toda a boa obra.

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  5. Concordo com você, não só pela área teológica, mas também por sua seriedade. Logo quando estourou todo o escândalo das informações que vazarão no vaticano nada consegui ser provado contra ele, mas em compensação aqueles que estavam ao seu redor…

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  6. Emerson,

    Indubtavelmente esse rei Jeosafá de Judá é Bento XVI no Catolicismo. Os ímpios e os odientos estão sendo ajudados e amados, em detrimento dos santos. Ora, a Igreja Romana pode ter seus erros e crimes, não nos esqueçamos dos odientos anátemas de Roma contra nós, os protestantes quando do Concílio de Trento. Não nos esqueçamos, outrossim, da chamada Noite de São Bartolomeu quando milhares de irmãos protestantes foram assassinados por soberanos papistas. Mas, o próximo Papa quem poderá ser? E se for um liberal? E tudo indica que será um modernoso liberal, pelas palavras para ele auspiciosas por uma suposta modernização em Roma da parte do líder da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). O que já era ruim, herético, teologicamente e dialogicamente amorfo no romanismo, tornar-se-á insuportável com a agendinha vermelha em plena vigência em Roma e que em pouco tempo contaminará toda a cristandade.

    JOÃO EMILIANO MARTINS NETO

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  7. Considerando que o tema ora em comento seja uma certa “era” (não alguma “pessoa”, “grupo de pessoas” nem “institução”) pergunto se – para a Igreja de Cristo na Terra – a “importância” (da tal era) não poderia ser expressa por “deixa aos mortos o sepultar os seus mortos”.

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  8. Será que após a renúncia do mesmo as famílias de crianças que foram vítimas de estupros poderão ajuizar ação contra o ex-papa? O autor do texto esqueceu desses detalhes.

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