Usos e Costumes

Por que a imposição oficializada dos “usos e costumes” é um grave erro?

Eis um ato pecaminoso para muitos.
Sinal claro de uma leitura bíblica fraca!

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Em primeiro lugar, toda instituição tem costumes, usos e tradições. Mesmo aquelas instituições religiosas mais, digamos, liberais em matéria de usos. Agora, algumas denominações evangélicas tornam os “usos e costumes” como regra oficial. As Assembleias de Deus, por exemplo, não possuem nenhum documento formal especificando costumes [1], enquanto a Igreja Pentecostal Deus é Amor tem um detalhamento em seu “Regulamento Interno (RI)”. Mas ambas possuem uma clara caracterização desses costumes. Por que isso é um grave erro?

1. Os usos e costumes oficializados não produzem santificação. A tendência natural para a institucionalização dos costumes é apenas o velho e perigoso legalismo. O legalismo é um cuspe na Cruz, logo porque prega uma salvação baseada em obras. Há quem ache que o legalismo é um problema menor, mas quem pensa assim precisa ler urgentemente Colossenses e Gálatas. Como lembra Augustus Nicodemus, a imposição dos costumes não mortifica o velho homem. É um engodo, pura vaidade. É autopiedade vazia:

Ser santo não é guardar uma série de regras e normas concernentes ao vestuário e tamanho do cabelo. Não é ser contra piercing, tatuagem, filmes da Disney, a Bíblia na Linguagem de Hoje. Não é só ouvir música evangélica, nunca ir à praia ou ao campo de futebol e nunca tomar um copo de vinho ou uma cerveja. Não é viver jejuando e orando, isolado dos outros, andar de paletó e gravata. Para muitos pentecostais no Brasil, santidade está ligada a esse tipo de coisas. Duvido que estas coisas funcionem. Elas não mortificam a inveja, a cobiça, a ganância, os pensamentos impuros, a raiva, a incredulidade, o temor dos homens, a preguiça, a mentira. Nenhuma dessas abstinências e regras conseguem, de fato, crucificar o velho homem com seus feitos. Elas têm aparência de piedade, mas não tem poder algum contra a carne. Foi o que Paulo tentou explicar aos colossenses, muito tempo atrás: “Tais coisas, com efeito, têm aparência de sabedoria, como culto de si mesmo, e de falsa humildade, e de rigor ascético; todavia, não têm valor algum contra a sensualidade” (Colossenses 2.23). [2]


2. Os usos e costumes oficializados, ao contrário, atrapalham o processo da santificação. Ora, quando eu me importo mais com a regra oficial do que com o espírito da lei estarei mais longe da santificação. E outra, passarei a acreditar que a santificação é uma obra exclusivamente humana, quando a mesma é igualmente dependente da graça divina. Parafraseando Paulo: “Pela graça sois santificados, isso não vem de vós, é dom de Deus”!

3. Os usos e costumes oficializados são como o assistencialismo, ou seja, dão o peixe sem ensinar a pescá-lo. O importante é ensinar princípios gerais. Por exemplo: eu devo ensinar a todos o princípio do pudor e da modéstia (cf. I Tm 2.9). Assim, ensinando o princípio teremos o guia para qualquer atitude, estilo e uso. Não é necessário especificar regrinhas – como se tivéssemos com crianças- mas diretrizes para a vida. Oficializar a regra quando deveríamos ensinar princípios simplesmente entorpece a mente, como bem escreveu J. I. Packer:

Esse ascetismo reacionário ainda sobrevive em alguns círculos na forma de tabus comunais sobre álcool, tabaco, teatro, dança, jogos, roupas elegantes, cosméticos e itens similares. Talvez tenha havido, e haja, boas razões para tais abstinências, em se tratando de decisão pessoa, mas tabus comunais tendem a entorpecer a consciência, em vez de avivá-la… O mundanismo foi definido em termos de quebras de tabus, e identificações de consequências mais amplas com os pecados da sociedade passaram despercebidas… O pietismo separa o mundo em vez de estudá-lo e procurar mudá-lo; é hostil ao prazer, em vez de agradecido por ele, temeroso de que o mundo adentre nossos corações montado nas costas do prazer.  [3]


Conclusão

Costumes ordeiros são bons em si, mas não devem ser colocados no patamar de “tabu comunal”. Não deveria haver uma imposição de determinados costumes em uma denominação. O que deveria existir? O ensinamento gradual e consistente das Escrituras, pois só por Ela podemos ser santificados:  “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 17.17) e “para santificá-la, tendo-a purificado pelo lavar da água mediante a palavra” (Ef 5.26).

Referências Bibliográficas:

[1] O documento da ELAD 1999 é bem genérico.

[2] NICODEMUS, Augustus. O que estão fazendo com a Igreja. 1 ed. São Paulo: Mundo Cristão, 2008. p. 152.

[3] PACKER, James Ian. Os Planos de Deus para Você. 1 ed. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2005. p. 67.

15 comentários em “Por que a imposição oficializada dos “usos e costumes” é um grave erro?

  1. A questão é mais complexa do que parece. Todo pastor sério sabe que ensinar “princípios gerais” às vezes não é suficiente. Modéstia é um exemplo. Alguns entenderão perfeitamente o que isto significa, outros não. Em algum momento a igreja terá que dizer se roupas curtas e transparentes, por exemplo, estão dentro do princípio geral “modéstia e pudor”. Neste momento serão acusadas de legalismo, quando na verdade estarão tentando enquadrar-se em um princípio bíblico. Quanto à frase de Nicodemus, devemos atinar para duas coisas: 1) focar somente em regras ao invés de princípios é legalismo; 2) focar somente em princípios sem estabelecer nenhum exemplo é se acovardar diante dos pecados que nos assediam.

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  2. Além de endossar o comentário do George Gonsalves, gostaria de acrescentar o seguinte: em nosso Estado as AD já foram bem legalistas com relação aos usos e costumes. Imaginava-se que retirando-os teríamos crentes mais maduros. Eu nasci na AD, tenho 42 anos. Nos últimos anos tais proibições foram sendo levantadas, mas a imaturidade espiritual permanece. Os crentes são menos afeitos aos trabalhos, menos compromissados com os orgãos e a espiritualidade de maneira geral é problemática. Entenda: estou apenas constatando que esse não é o problema principal da Igreja hoje.

    Abraços!

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  3. Deixa ver se entendi!?

    -Posso usar sunga e minha esposa fio dental, afinal podemos sim aproveitar da praia que é criação de Deus!

    -Posso eu ir de bermuda e minha esposa de mini-saia na igreja.

    -Posso bater uma bola de bermuda e sem camisa…o que é que tem de mais nisso ??

    -Minha esposa e também minha filha podem tranquilamente usar uma calsa leg e uma blusa mais decotada para irem passear ou mesmo ao irem ao Banco, afinal de contas o que é bonito é para ser mostrado!!!

    Chega desse legalismo arcaico !!
    O que importa é o que está no coração, e não na aparência exterior !!

    ansadriano@hotmail.com

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  4. Caros George e Daladier, a paz!

    O texto é contra a institucionalização dos costumes, seja oficial ou de uma tradição oral. Isso não quer dizer que o aconselhamento pastoral deva inexistir em casos específicos e necessários. Exemplo, seria interessante que a esposa do pastor fizesse palestras de conscientização para que as garotas aproveitarem a juventude com sabedoria, modéstia e pudor. Orientação é a palavra, mas não a imposição de um padrão. Logo porque o que é padrão hoje não será amanhã. Não devemos esquecer que os “usos e costumes” são servos de seu tempo. Por mais conservadora que seja uma igreja, nenhuma mantém o padrão do século XIX.

    Concordo plenamente que a abertura nos “usos e costumes” não torna uma igreja madura e/ou mais espiritual, mas a manutenção dos”tabus comunais” tampouco ajuda nesse processo. Basta analisar os inúmeros escândalos envolvendo a tríade “dinheiro, poder e sexo” nos ambientes mais legalistas. Aliás, tal imposição é infantilizante e, assim, agrava o processo da “meninice espiritual”.

    E discordo que esse não seja um dos maiores problemas atuais. Basta ver, por exemplo, a vergonhosa posição da Igreja em Recife quanto a uma revista de adolescentes foi publicada e a convenção proibiu sua comercialização. E ainda há pessoas sendo excluídas de suas igrejas porque comentem ‘graves pecados” como corta o cabelo (mulher) ou jogar bola (homens). Isso precisa acabar urgentemente.

    Abraço!

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  5. Caro Adriano,

    Você escreve “deixa ver se eu entendi”, mas na verdade você não entendeu nada. Numa mentalidade maniqueísta você só consegue enxergar dois mundos possíveis, ou seja, o mundo legalista e o mundo libertino. Sinceramente, eu tenho pena dessa mentalidade, pois tal visão de mundo certamente não é bíblica. Repito, você nada entendeu do texto. Portanto, recomendo aulas de interpretação e, também, aproveite para desfrutar a praia em família.

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  6. Nobres irmãos- estão sendo valiosas para mim, cada uma das contribuições até aqui compartilhadas. Particularmente, chamou-me a atenção o aspecto trazido pelo Ir. Daladier de que “esse não é o problema principal” que deva consumir o tempo, a oração e o esforço dos filhos de Deus. Concordo “em gênero, número e grau” (embora esteja sendo citado um rebanho específico a título de exemplo, e eu não me refira a denominação “A” nem “B”) com esta afirmação do irmão, por entender que a existência de “imposição oficializada de usos e costumes” na Casa de Deus é apenas um sintoma (não a fonte) de um problema mais central: o ser humano tendo preeminência, em detrimento do poder de Deus, na congregação. É, por exemplo, “moralização” sendo ministrada em lugar de “santificação”; ou palha que enche a barriga sem nutrir, oferecida em lugar de ração celestial que alimenta e vivifica. Meu particular entendimento sobre o assunto foi expresso aqui pelo Ir. George quando afirma: “a igreja terá que dizer se roupas curtas e transparentes estão dentro do princípio geral”. Vejo assim; acho que o Espírito dá tudo e qualquer coisa de que a Igreja necessite.

    A questão me parece ser: do ensino e disciplina que estão sendo praticados em minha congregação (sobre, por exemplo, usos e costumes) quanto é “santidade ao Senhor” e quanto é apenas “imposição oficializada”? Como posso socorrer a (impositores e vítimas) irmãos necessitados?

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  7. O negócio aqui em pe, GUTTIERRES, é tão sério, que em algumas congregações (principalmente da ad Recife), em determinados cultos semanais (culto de portas fechadas) mulheres que estiverem usando calça e/ou homens que estiverem de bermuda, são proibidos e entrar. Isso mesmo, na cara dura o porteiro ou quem tiver na porta simplesmente diz a pessoa que ela não pode entrar!. Aí eu pergunto: se essa pessoa que foi barrada estava indo se entregar a Jesus, como é que vai ficar o ser dela ?

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  8. O Ir. Pedro nos trouxe oportuna observação. (Pelo menos para mim, foi oportuna. Só não me referirei a nome de rebanho “A” nem “B”, por não achar necessário nem edificante). E a boa pergunta do Ir. Pedro me fez lembrar de que, enquanto na obra do Senhor, só nos é possível servir COLETIVAMENTE, dependendo uns dos outros, mas no dia do galardão somente poderemos ser julgados INDIVIDUALMENTE- “cada um dará conta de si mesmo a Deus”, “o fogo provará qual seja a obra de cada um”, “para que CADA UM receba o que tiver feito de bem ou de mal por meio do C(c)orpo”, garante a Escritura.

    Em meu fraco pensar (mas é o único que tenho, e ainda por cima, é 'emprestado') entendo que se impeço um pecador trazido pelo Espirito de Deus para entregar-se ao Senhor, de entrar na congregação, pecarei diante de Deus tanto quanto se não impeço a entrada de um instrumento do adversário para investigar, passar o tempo, bisbilhotar, roubar ou perturbar os santos e o trabalho do Senhor no templo. Lembro do Ir. que assina “ansadriano” sendo firme neste assunto: “Posso eu ir de bermuda e minha esposa de mini-saia na igreja”? (Estamos falando de Igreja de Cristo no início do século XXI e no Nordeste do Brasil, como entendo serem os santos que ora estão colaborando aqui. E a única resposta que tenho para o questionamento do ansadriano é de que “Só se for numa ardente prova em que lhes falte até a roupa, meu irmão (e explique aos santos ali reunidos o motivo de suas vestes, para que estes não se escandalizem)”.

    P.S.: Se sou um(a) salvo(a) que desejo servir a Deus no Evangelho de Cristo com minha sunga, fio dental, bermuda, mini-saia, bola de futebol calça leg, blusa mais decotada), o que me cabe – como filho de Deus que sou – é respeitar o rebanho do Senhor que não adota esses meus usos e costumes, e procurar um arraial que me seja adequado. Ou eu mudar – se entender que devo – de idéia sobre o assunto. (O que eu não devo é perturbar – seja lá onde for – a Obra de Deus).

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  9. Alexsandro Silva
    O problema antigamente era a idéia de santidade estabelecida sobre uma noção errada de separação do mundo,o que levava as pessoas a evitarem “tudo quanto era do mundo” independente se algo era prejudicial ou não. Hoje em dia, visto que não há nenhuma preocupação com santidade, o que sobra é o costume praticado, sem reflexão nenhuma sobre os possíveis significados, apenas segue-se o costume.

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  10. Realmente ir. Ivo, seu pensamento é fraquíssimo. Dizer que se vc barrar um pecador arrependido é pecado tanto quanto permitir que um secretário de satanás entre na congregação é pura ignorância. Até porque você não sabe quem é quem, e a bíblia diz que você é inocente até que conheça a verdade, portanto o senhor não iria pecar se deixar entrar. E outra: quem foi que disse que o diabo manda os seus de qualquer jeito ? Quando ele manda, manda com a melhor CAPA possível ( com o melhor disfarse ). Ou acaso o senhor não sabe que tem muitos lobos com cargos altos dentro das igrejas ? Vá orar irmão pra ver se Jesus fortalece essa sua mentalidade fraca. A paz!

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  11. Não consigo formular um pensamento definitivo sobre isso.

    Sou mulher então posso falar com propriedade, pois este assunto afeta muito as mulheres.

    Nasci e permaneço em uma igreja que embora não seja AD possuía/possui usos e costumes muito parecidos.

    Pois bem. Anos atras, a coisa era preto no branco, pode não pode. E as polêmicas e legalismos existiam aos montes, depois chegou-se ao entendimento que muita coisa não era bíblica de fato, e essa imposição não era saudável, hj em dia a coisa é mais no campo do aconselhamento mesmo, mas fica meio implícito ainda, enfim não se esquece, se abstrai anos de imposições assim da noite para o dia.

    Ou seja não sei se daqui 15 anos, os membros serão equilibrados, pois poucos saberão sobre esse tema.

    Enfim essa embromação toda rs! para falar que algumas igrejas hoje não impõem mais nada, mas também não ensinam, esse tema foi lançado em um limbo, não se fala por medo de más interpretações, ou medo de ofender, medo de regredir, enfim N temores.

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  12. ” portanto o senhor não iria pecar se deixar entrar.”

    O Ir. Pedro está sendo excessivamente benevolente comigo, dizendo-me que eu não iria pecar. Mas, irmão: minha consciência não ficaria tranquila diante de Deus, quer se eu houvesse barrado um pecador de entrar na congregação para entregar a vida a Jesus, quer se eu – sendo de minha responsabilidade permitir ou impedir – houvesse permitido a entrada de algum instrumento de perturbação e de escândalo para os irmãos menos instruídos na Escritura.

    Na minha situação – de “não sei quem é quem” – me compete não assumir responsabilidade de barrar nem de autorizar entrada de gente no templo, como também de não criticar irmãos que barram (e que autorizam) quem não deveriam. E o irmão está certíssimo quanto a “capas”- já vi pregação, ensino e coleta de oferta em culto ministrado por ladrão; houve salvação (com permanência) de perdidos, mas o “pregador” foi preso pela polícia logo depois. (Estou orando para o Senhor me dar sabedoria e graça; e espero que o irmão não se aborreça comigo e possa me orientar aqui).

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  13. Nobre Ir. Pedro- o irmão não foi grosseiro comigo; foi honesto; nem se preocupe. (E sinceridade é coisa muito boa, e que eu não desprezo. Peço que o irmão continue sincero comigo, como tem sido. Como sei que o irmão, em suas orações, deposita nos pés do Senhor todos os santos necessitados da sabedoria que vem do Céu, sei também que estou incluído nessas orações, e confio que o Senhor irá me ajudar a aprender como devo andar na Casa de Deus e também como preciso me comportar diante dos que estão de fora.) Apenas, além de suas orações em meu favor, conto também com qualquer orientação que o irmão sinta que precisa me dar aqui neste espaço. Estou aqui (enquanto o bondoso irmão proprietário do blog me conceder essa oportunidade que eu prezo), não para orientar nenhum santo, mas para ouvir os irmãos e receber do Espírito de Deus.

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  14. O que acontece que tem um grande numeros de pessoas que dizem que serve a Deus, mas querem andar conforme os mordes do mundo.O verdadeiro cristão tem que ser diferente em tudo que o mundo faz e pratica.

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