Dons Espirituais · Série Estudos Pentecostais

A teologia dos carismas: uma contribuição intelectual dos pentecostais

Por Gutierres Fernandes Siqueira


Nós nem ainda ouvimos que haja Espírito Santo. [Atos dos Apóstolos 19.2]

 A teologia deixa de ser espiritual onde se deixa afastar do ar fresco e movimentado do Espírito do Senhor, que é o único ambiente em que poderá vingar, e se deixar atrair e impelir para dentro de recintos em cujo ar viciado está automática e radicalmente impedida de ser e de realizar o que poderia e deveria.  [Karl Barth] [1]

Os pentecostais são constantemente vítimas de um fenômeno que apelido como o “elogio esnobe”.  Já ouvi e li diversos não-pentecostais exaltando o pentecostalismo pela espontaneidade, o fervor evangelístico, a liturgia empolgante e pelo trabalho social entre os mais pobres. Mas, no meio de tantas observações positivas, nunca vi -até o presente momento- um observador fora dos arraiais pentecostais falando sobre a contribuição teológica desse movimento. Para alguns só se fez teologia clássica em Genebra, Londres, Nova Inglaterra, Wittenberg, mas nada em  Los Angeles, especialmente em Azuza Street. O máximo que Azuza nos teria dado seria a alegria empolgante, mas nada em termos doutrinários. Será? [2]

O pentecostalismo contribui e muito para a teologia cristã. Não só na doutrina dos carismas, mas também pelo resgate da pessoa e obra do Espírito Santo. A terceira pessoa da Trindade, mesmo com o papel na economia divina de revelar o Filho, foi renegado a um esquecimento estrondoso. Era o “Deus esquecido” [3]  como escreveu recentemente Francis Chan e antes já nos alertava os neo-ortodoxos como Karl Barth e Emil Brunner. 

A doutrina do Espírito Santo fora tão renegada que há ainda em nossos dias crentes com dúvida se podem se dirigir diretamente ao Espírito Santo em oração. Já ouvi de alguns um estranhamento ao cantar a famosa canção Espírito Santo da cantora neopentecostal Fernanda Brum, pois a música é uma oração ao Espírito Santo. Muitos cristãos “ignoram que ele (o Espírito Santo) exista, que desempenha determinado papel e que possa até mesmo ser experimentado”[4].

Os pentecostais também contribuíram para diminuir ou praticamente acabar com a divisão entre leigos e clérigos.  No pentecostalismo a doutrina reformada do sacerdócio universal de todos os crentes teve um forte impulso. Agora todos tem a “oportunidade” de ser um ministro do Evangelho ao exercer determinado talento. 

Os dons espirituais

Não é no Batismo no Espírito Santo como uma “segunda bênção” pós-conversão e nem na evidência “física inicial” do falar em novas línguas, mas a maior contribuição dos pentecostais na teologia cristã está no termo grego charismata. É na doutrina dos dons espirituais que a teologia pentecostal mais contribuiu. 

Talvez a obra mais importante seja um livro curto, mas profundo do teólogo Donald Gee, pioneiro das Assembleias de Deus na Inglaterra. Na obra Concerning Spiritual Gifts ele expõe os pontos que depois são destacados e popularizados por autores evangelicais. Quem foi edificado com livros de John Stott sobre o Fruto do Espírito poderia ter lido, muito antes, a mesma tônica com Gee. 

Em um próximo texto quero aprofundar a teologia do dons, mas que fique bem claro: Não haveria doutrina dos carismas sem o pentecostalismo. Não só porque os pentecostais provocaram a reflexão, mas construíram a própria reflexão.

Referências Bibliográficas:

[1] BARTH, Karl. Introdução à Teologia Evangélica. 9 ed. São Leopoldo: Sinodal, 2007. p 39

[2] Mesmo autores simpáticos ao pentecostalismo tendem a ver o grupo como movimento e não como doutrina ou teologia.  Exemplo é o livro de James K. A. Smith que tenta dialogar o pentecostalismo com a filosofia. Veja: SMITH, James. Thinking in Tongues: Pentecostal Contributions to Christian Philosophy. 1 ed. Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Publishing, 2010. p 17.

[3] CHAN, Francis e YANKOSKI, Danae. O Deus Esquecido: Revertendo Nossa Trágica Negligência. 1 ed. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 2010. p 144. 

[4] WILLIAMS, J. Rodman. Teologia Sistemática: Uma Perspetiva Pentecostal. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2011. p 472. 

[5] GEE, Donald. Concerning Spiritual Gifts. s/d. Springfield: Gospel Publishing House, 1980. p 143.

4 comentários em “A teologia dos carismas: uma contribuição intelectual dos pentecostais

  1. Caro Gutierres,

    Ainda acho a ênfase no Espírito Santo como a maior contribuição do pentecostalismo à teologia cristã, haja vista alguns tratados de teologia sistemática nem sequer trazerem um capítulo sobre a terceira pessoa da Trindade em toda a obra.

    Quanto ao mais, gostaria de lhe perguntar a diferença entre teologia carismática e teologia pentecostal. Sempre vi os dois termos como sinônimos, mas num livro que li o autor tratou os dois de uma forma diferente, afirmando que devemos ser pentecostais e não carismáticos. Enfim, não entendi nada (risos).

    Um abraço,

    Gilmar

    Curtir

  2. Muito boa a iniciativa, Gutierres. Aguardo o próximo texto.

    Neste artigo, Robert P. Menzies define pentecostal, neopentecostal e carismático.

    Pentecostal: Um cristão que acredita que o livro de Atos fornece um modelo para a igreja contemporânea e, com base nisso, encoraja todos os crentes a experimentarem o batismo no Espírito Santo (Atos 2.4), entendido como um revestimento de poder para a missão, distinto da regeneração, que é evidenciado por falar em línguas, e afirma que “sinais e maravilhas”, incluindo todos os dons listados em 1 Coríntios 12.8-10, devem caracterizar a vida da igreja de hoje.
    Neopentecostal: Um cristão que concorda e age de acordo com todos os princípios listados acima, exceto a afirmação de que o falar em línguas serve como um sinal normativo para o batismo do Espírito.
    Carismático: Um cristão que acredita que todos os dons listados em 1 Coríntios 12.8-10, incluindo profecia, línguas, cura, estão disponíveis para a igreja hoje, mas rejeita a afirmação de que o batismo no Espírito Santo (Atos 2.4) é um revestimento de poder para a missão distinto da regeneração.

    Curtir

  3. PRezado Gutierres, já te disse, mais de uma vez, que sua mente é uma lufada de ar no meio dos replicantes blogs evangélicos, não com esses termos talvez. Tenho discordado aqui e acolá, mas no geral é isso.

    A contribuição teológica pentecostal tem sido renegada até mesmo pelos pentecostais. Felizmente, uma nova geração tenta nivelar o atraso.

    Abraços!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s