Esboço · Sermão

O vento que sopra e a vontade de Deus

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Sermão pregado na Igreja Evangélica Assembleia de Deus no Jardim das Pedras, São Paulo (SP).

“O vento assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito”. [João 3.8]

Introdução
A vida é previsível? Existe destino? Posso “construir” a minha própria história, ou seja, sou eu “dono” do meu futuro? Ou será que o propósito do homem não é jogar o próprio futuro sob a guardar do vento de Deus?

1. Deus é Soberano. “O vento assopra onde quer”
O “vento” (gr. pneuma) é uma analogia do Espírito Santo. No hebraico e grego a mesma palavra era usada para designar essas expressões. O que não acontece no português. A palavra vento é a mais adequada para a presente tradução levando em conta o contexto (“assopra”) e a linguagem de metáfora [1]. Essa verdade quer dizer muitas coisas:
a) O vento é incontrolável, mas ao mesmo tempo é capaz de transtornar e transformar. Não é possível controlá-lo. Quem pode segurá-lo com a mão? Sendo Deus soberano, logo não o sou. Não é possível a soberania de dois seres. Somente um é superior por sua autoridade. Mas tenho eu agido como súdito ou soberano da “minha própria vida”? Como posso falar em controle próprio diante do vento?
b) O vento não é previsível [2]. Deus usa quem nós jamais usaríamos, seja porque nos consideramos mais sábios ou mais santos que o sujeito usado. O homem sempre tem uma imagem mais elevada de si do que realmente corresponde aos fatos. O vento não é previsível. Não é tradicionalista. É arrebatador, muitas vezes violento. O vento é – por que não dizer?- terrível. “Pois Iahweh Altíssimo é terrível, é o grande rei sobre a terra inteira” (Sl 47. 2 [3] Bíblia de Jerusalém). “Assim como você não conhece o caminho do vento, nem como o corpo é formado no ventre de uma mulher, também não pode compreender as obras de Deus, o Criador de todas as coisas” [Eclesiastes 11.5]. E o profeta nos diz: “Pois os meus pensamentos não são os pensamentos de vocês, nem os seus caminhos são os meus caminhos”, declara o Senhor”. [Isaías 55.8].
c) O vento não pode ser entendido, mas os seus efeitos podem ser conhecidos. Um deus que pode ser totalmente explicado e compreendido não é do Deus da revelação bíblica. Deus está além da razão humana. O racionalismo quando coloca a razão como uma deusa acabada dissecando Deus como um sapo de laboratório. Deus se revelou o suficiente para a nossa salvação, mas não em Sua totalidade pelas limitações dos seres humanos. Apesar desse mistério, não é possível negar os efeitos da presença de Deus. O teólogo puritano J. C. Ryle escreveu:

Muitas coisas a respeito do vento são misteriosas e inexplicáveis. “Não sabes donde vem, nem para onde vai”, disse o Senhor. Não podemos vê-lo ou segurá-lo em nossas mãos. Quando o vento sopra não somos capazes de apontar o lugar exato onde seu primeiro fôlego foi percebido bem prever a que distância se estenderá. Mas, apesar de tudo isso, não negamos sua presença. O mesmo acontece quanto à obra realizada pelo Espírito no homem, na ocasião do novo nascimento. É uma operação misteriosa, soberana e incompreensível a nós, em muitos aspectos. Mas é tolice tropeçarmos neste assunto por haver nele muitas coisas que não podemos entender. [3]


2. Deus é o Nosso Guia. “e ouves a sua voz”. O cristão guiado pelo Espírito Santo ouve a voz dEle. E isso se dá por intermédio das Sagradas Escrituras e, em uma escala bem inferior, pelas experiências carismáticas dos dons revelacionais, das visões e dos sonhos. Sempre, é claro, qualquer experiência é inferior e submissa em autoridade à Escritura Sagrada, pois enquanto esta é infalível, o dom carismático está sujeito às impurezas e imperfeições dos homens. Ou seja, é possível ser movido genuinamente para uma profecia e misturá-la com pensamentos próprios. Por esse motivo, a Sagrada Escritura não está sujeita ao juízo, enquanto os dons carismáticos estão. E, também, o carisma não é parâmetro doutrinário ou escritural, logo porque o cânon está encerrado.

Conclusão. Deus, em sua soberania, age de uma forma misteriosa, mas reconfortante na vida do cristão nascido de novo. A doutrina do novo nascimento é intimamente relacionada a convicção de uma vida pautada pela vontade de Deus.  Não é possível conhecer essa vontade sem passar pelo milagre da regeneração.

Referências Bibliográficas:

[1] VINCENT, Marvin. Vincent: Estudo no Vocabulário Grego do Novo Testamento. Volume 2. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2013. p 76. E também, como certo consenso nessa preferência de “vento” por “espírito”, veja: CARSON, D. A. O Comentário de João. 1 ed. São Paulo: Shedd Publicações, 2007. p 198. BRUCE, F. F. João: Introdução e Comentário. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 1987. p 83. 
[2] Vamos lembrar o óbvio: a Bíblia foi escrita bem antes da moderna meteorologia. Por isso, naquele contexto, o vento era imprevisível ou não poderia ser entendido. Mas mesmo hoje, em pleno Século XXI, não é possível, por exemplo, precisar um tornado (horário, direção e potência).
[3] RYLE, J. C. Meditações no Evangelho de João. 1 ed. São José dos Campos: Editora Fiel, 2000. p 33,34.

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