Liturgia

O tempo de chorar chegou! Ou, por que sempre queremos um culto “animado”?

Por Gutierres Fernandes Siqueira


Certa vez eu estava quieto e sentado no banco da igreja enquanto o pregador- sem nenhum conteúdo substancial- gritava sob “o poder de Deus”. Uma pessoa ao meu lado ficou visivelmente incomodada com a minha “frieza”. Então, não demorou muito para que ele me puxasse pelos braços e começasse a orar por mim invocando o “poder de Deus” em minha vida. Como alguém poderia ficar quieto mediante a suposta manifestação divina? [1]

Bom, na Igreja Pentecostal é quase um pecado não se envolver na empolgação. A importância não está na mensagem, ou seja, na substância, mas sim em um tipo de forma. O culto só é bom se for “animado”. E essa animação se resume às gritarias, línguas sem interpretação e pulos. “Assim, se toda a igreja se reunir e todos falarem em línguas, e entrarem alguns não instruídos ou descrentes não dirão que vocês estão loucos?” [1 Coríntios 14.23]. O questionamento paulino é simplesmente ignorado. 

A Igreja: Exército ou Orquestra?
A liturgia do culto precisa refletir o seu objeto, ou seja,  o ordenamento do culto necessita transparecer a Pessoa e Glória de Deus. Como Deus é Aquele que espanta e fascina, traz alívio e terror, da mesma forma a liturgia nem sempre será única, mas sim uma mistura de sentimentos e ações. A ordem cúltica, longe de uma postura monolítica ou monotemática, reflete o pluralismo das manifestações de Deus. “Há diversidade”[2], é a exclamação de Paulo aos coríntios (cf. 1 Coríntios 12.6). É o Deus que distribui o Seus dons e talentos para pessoas distintas. Ele que é em si plural, o Deus trino. Esse Deus que fascina e causa temor é apenas um exemplo da multiforme manifestação de Deus.

Na diversidade do culto que reflete a diversidade de manifestações de Deus há cultos para refletir e celebrar. Há cultos para chorar e outros para dançar etc. Sendo que o objeto não muda, mas a manifestação dEle certamente é mutável.  A liturgia assembleiana, apesar de gloriar-se de uma pentecostalidade, lembra mais uma pequena banda do exército. Aliás, os assembleianos gostam de se comparar aos militares. Bom, mas a diversidade que Paulo traz a tona lembra uma orquestra. O ordenamento é visto de longe, a unidade também, mas cada instrumento é diferente, contraditório e ao mesmo tempo complementar. A sinfonia é a linha que liga toda a orquestra plural.


Portanto, nesse contexto de diversidade é importante entender que o culto não precisa ser sempre “animado”. E no outro extremo, é necessário lembrar que nem toda mensagem precisa ser “chocante”. Alguns, querendo reagir ao estado festivo da Igreja Evangélica contemporânea fazem de seu ministério uma constante do “choque” e das “mensagens de impacto”. É outra forma monolítica.

Repito, o culto que reflete a natureza de Deus revelada nas Escrituras nunca será monolítico.


Nota:

[1] Este texto é parte de um artigo maior a ser publicado em data futura sobre a liturgia pentecostal.

[2] Há quem defenda a tradução de διαιρέσεις (diaireseis) por “diferentes distribuições”. Assim, a “diversidade dos dons está fundamentada em sua distribuição de dons” [CARSON, D. A. A Manifestação do Espírito: A Contemporaneidade dos Dons à Luz de 1 Coríntios 12-14. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2013. p 34].

4 comentários em “O tempo de chorar chegou! Ou, por que sempre queremos um culto “animado”?

  1. Na minha humilde opinião, sequer se pode dizer que os cultos na Assembleia de Deus tenha uma liturgia. A não ser que se entenda a ordem costumeira em que o culto normalmente segue (dois ou três hinos da harpa, apresentação dos conjuntos, os avisos gerais e a mensagem ao final) seja liturgia. Para mim não é. É uma forma costumeira de administrar o tempo da reunião, mas não vejo isso como uma liturgia pois a ordem em que as coisas acontecem parecem ser totalmente aleatórias, sem uma ordem ou objetivo de fundo.

    No mais, penso que seria excelente se encaixassemos um momento na liturgia assembleiana (quando ela existir) um momento para a leitura do Credo Apostólico. Seria um excelente momento de reafirmarmos (e relembrarmos) em que cremos. Mas enquanto a ignorância (ou o medo) da história reinar entre os evangélicos em geral, e nos assembleianos em particular, isso não acontecerá. Infelizmente.

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  2. Lamentavelmente as assembleias de Deus estão caminhando a passos largos para uma situação que ela propria pregou contra, sou assembleiano há quase trinta anos e o que vejo hoje em nossas igrejas me deixam um tanto quanto desconfortavel, culto abençoado é medido de acordo com o grau de emocinalismo que as pessoas sentiram pregadores são cotratados a peso de ouro para as nossas festas, e os resultados sempre são negativos, é muito barulho e pouco coteudo, muito chpro muito pula pula, muitas profetadas, e almas salvas que deveria ser o alvo principal de um verdadero pregador do Evangelho nada.

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  3. Acho muito interessante o comentário que o Pr. Caio Fábio faz a respeito dos assembleianos clássicos: “O típico assembleiano é um cara sério, de Deus, comprometido, amante da Palavra, zeloso, às vezes extremamente ignorante (isso em alguns casos é verdade), mas sempre sincero no que está fazendo. Esse comentário pode ser conferido aqui: http://www.youtube.com/watch?v=SlHCE6wpPNU

    Louvo a Deus, porque a Revista da Escola Dominical tem tentado resgatar as doutrinas fundamentais do pentecostalismo clássico. Por exemplo, a revista desse trimestre trata de Hermenêutica, ou seja, um grande passo na evolução de nossa igreja na atualidade.

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