Tradição

Igreja: a grata surpresa da racionalidade

Por André Gomes Quirino


A tradição mostra que a racionalidade
é uma herança bendita da cristandade.
Por envolver necessariamente momentos de solidão, a vida intelectual pode nos levar a gostar do afastamento, a preferi-lo em comparação à comunidade, e por extensão, a gostar da polêmica barata, supostamente válida per si, sem intenção de ser construtiva, meramente movida pelo desejo de parecer subversivo (seja a um público externo, seja a si mesmo). Isso é comum na maioria das ciências. Deveria ser comum na teologia? Bem, considerando que os teólogos (de todas as religiões) são quase unânimes em dizer que Deus é aquele que pode em si fazer comungar os indivíduos porque é o Uno de quem deriva toda a diversidade da criação, a resposta a essa pergunta é “não”. Mas, se a pergunta fosse “isso é comum na teologia?”, a resposta seria “sim” – e pior: principalmente na teologia cristã.


Não é raro ver um teólogo ou um jovem estudante de teologia cristão asseverando lemas do tipo “Eu não sou da igreja, eu sou a igreja” e apregoando as vantagens de ser um desigrejado. Acostumado às horas de leitura solitária em seu quarto e às discordâncias que recebe de sua tia anti-intelectual quando está fora do quarto, o jovem estudante resolve resumir a vida cristã à sua biblioteca (ou, quando não tem uma, aos grupos de que participa no Facebook), e mais tarde se torna um teólogo em pé de guerra com a igreja (toda e qualquer igreja), ou um discípulo dos teólogos que se consideram pós-eclesiásticos. Percebo nessa postura pelo menos dois problemas graves e o desconhecimento de uma boa notícia:


O primeiro problema: a fundação de uma sub-igreja contrária à igreja. Tais estudantes, ao constatarem as muitas falhas de suas igrejas e serem desprezados em suas tentativas de correção, chegam à conclusão de que suas igrejas não têm solução e não são dignas de sua grande inteligência, e que o seu papel, ora vejam, é se unir a pessoas movidas pela mesma indignação a fim de fundarem… uma sub-igreja. Esse processo não é inteiramente consciente, é verdade, mas nem por isso deixa de ser frequente. A comunidade de jovens revoltados age como uma verdadeira sub-igreja, com reuniões (conversas) periódicas para renovarem sua revolta, apoio interno mútuo contra as críticas dos de fora e rituais sagrados como a execração da igreja de que são originários. Devem partir do pressuposto de que o problema não está exatamente na instituição que é a igreja, mas em não serem eles os líderes naquele templo…


O segundo problema: o flerte com pseudo-igrejas contrárias à Igreja. Concomitantemente ou não à sub-igreja, ainda mais frequentemente vê-se surgir o fenômeno da pseudo-igreja: não um grupo interno a uma igreja revoltado contra a mesma instituição, mas um grupo externo à religião revoltado contra toda e qualquer organização religiosa, que recebe o apoio de cristãos cansados de suas igrejas para militarem em agendas estranhas à teologia. São grupos de militância política ou ideológica, ansiosos por receber jovens carentes de ativismo, de causas, de alvo, de esperança. E estes? Também não devem achar que o problema está nas igrejas em si, mas na suposta “alienação” que as igrejas causam, encantadas que estão com os assuntos Deus e céu, e que uma igreja com pautas reivindicatórias de cunho social seria o próprio Reino dos céus na Terra. Ops…


A boa notícia desconhecida: a Igreja. Tanto a sub-igreja quanto a pseudo-igreja revelam a verdade de que formar igrejas, viver em comunidade, obedecer (em alguma medida, e é claro que não irrefletidamente) a líderes (declarados ou não), seguir a liturgias e rituais é uma tendência natural ao ser humano. Costuma-se iniciar a vida intelectual para se negar essa tendência, para se dizer um “livre pensador” – e não digo que não haja ninguém digno do título, mas digo que não é preciso declarar guerra às igrejas para tal, e que não me lembro de até hoje ter conhecido alguém que, em algum ponto da vida, não tenha se tornado membro (ativo ou inativo, proselitista ou discreto) de uma igreja (real ou imaginária, declarada ou inconsciente, gigante ou nanica, milenar ou recém-fundada).


A nós, cristãos, é oferecida uma boa notícia: não precisamos fingir distanciamento de toda e qualquer igreja para sermos inteligentes, racionalmente rigorosos e intelectualmente honestos; podemos e devemos, para isso e como efeito da nossa salvação, nos declarar parte da Igreja, e amá-la. Isso não implica evitar a crítica. Pelo contrário, implica não cessar de fazer críticas e, por isso mesmo, não se esquecer da mais elementar e indispensável delas: como somos miseráveis e carentes de fraternidade! Não nos falta ativismo, nem causas, nem alvo, nem esperança: somos juntos a Igreja que Cristo fundou, da qual se declarou Noivo, à qual confiou a responsabilidade de disseminar Sua mensagem e a qual prometeu um dia resgatar.


A cada vez que um cristão se aplica à leitura, ele está dando continuidade ao que se faz desde Paulo de Tarso, homem que, há dois mil anos, foi acusado de louco por tanto ler e que, estando preso e perto de morrer, pediu a Timóteo, seu amigo, que enviasse seus livros à prisão onde estava. A cada vez que um cristão percebe erros em sua igreja e os denuncia, ele está dando continuidade ao que se faz desde Tiago, irmão de Jesus, que denunciou o preconceito das igrejas de sua época para com os pobres e definiu o que seria “a religião pura e imaculada para com Deus, o Pai” – e é esta: guardar-se da corrupção do mundo e lembrar-se dos órfãos e das viúvas. A cada vez que um cristão se propõe a fazer contribuições à ciência política, ele está dando continuidade ao que se faz desde Agostinho de Hipona, que há cerca de 1600 anos escreveu De Civitate Dei, obra monumental e de enorme influência em todas as esferas da sociedade de então e de hoje.


O cristianismo é o maior responsável pela preservação da intelectualidade no Ocidente e, quando um jovem cristão descobre o mundo da racionalidade, ele não deve se sentir solitário, mas herdeiro de uma tradição que data de, pelo menos, dois mil anos. Não deve, também, se sentir o inventor da roda, mas um discípulo de milhares e milhares de gênios que viveram antes dele – e acima de tudo um discípulo de Jesus de Nazaré, o mestre de todos estes mestres. Ao se permitir fazer questionamentos complexos, ele repete o exercício que a Igreja já fez e continua a fazer em concílios, assembleias e variados debates, e muito dificilmente cogitará algo que ainda não tenha sido cogitado no seio do Corpo de Cristo. Se os cristãos fossem, desde a era primitiva, ingênuos e simplistas como somos nós, iniciantes, talvez a Igreja não houvesse sobrevivido, e não a estaríamos debatendo agora, nem poderíamos hoje dizer que “somos a Igreja”. Definitivamente, jamais acumularemos sozinhos um conhecimento maior do que o dela, o qual, embora imperfeito, é milenar e universal.


Se as igrejas locais tivessem esta consciência e a transmitissem aos seus jovens, muitos problemas seriam evitados – e aqui já faço a crítica às igrejas que disse ser necessária. Não conhecer eclesiologia é um suicídio para as nossas denominações. Mas, ainda que elas não nos ensinem porque não sabem, em nossa solitária trajetória racional teremos a grata surpresa de descobrir que, durante todo esse tempo de autocrítica e de pensamento árduo, e mesmo antes dele, muitíssimo antes e depois dele, o que estávamos procurando, o que estávamos conhecendo, o que estava se nos apresentando era a Igreja de Cristo. Um mistério inesgotável habita em sua igreja – por mais defeituosa que ela seja. Liberte-se de tão grande fardo que é fundar uma nova igreja. Cristo já fundou uma, que ainda prevalece. Atribuamo-nos, antes, como cristãos racionais que nos pretendemos, esta missão: fazer as nossas igrejas saberem que também elas são parte da Igreja universal, e que esta é depositária do que há de mais caro à alma e à razão humanas.

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André Gomes Quirino é colunista deste blog. Graduando em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP) e membro da Igreja Evangélica Assembleia de Deus- Ipiranga.

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