Dons Espirituais · Subsídio da EDB

Dons de Poder

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Os dons de poder, assim classificados para facilitar a didática, certamente são a expressão mais espetacular e visível dos carismas. E, assim como os demais dons, visam a edificação mútua da Igreja ainda que o receptor do milagre seja apenas um indivíduo. E, também, há um ônus, pois na visibilidade da cura e do milagre nasce a tentação, pois o poder de Deus pode ser confundido com poder sobre os homens. É necessário resistir à ideia que o dom seja propriedade própria ou fruto da meritocracia.

Fé e Operações de Milagres. Na prática qual seria a diferença substancial entre os dons de curar, operação de maravilhas e o dom de fé? O resultado é exatamente o mesmo: o milagre. Mas a fé, diferente da cura, não está restrita aos males do corpo ou da mente. Assim como “as maravilhas ou milagres”. Não seriam todos o mesmo dom? Eis que surge novamente a velha questão. Há alguma sobreposição, pois a cura de uma doença pode ser operações de maravilhas, dons de curar ou até dom da fé. Mas há alguma diferença? Ora, nem todo milagre é cura de doença. O exorcismo é um milagre, assim como a influência sobre o clima no pedido de uma chuva ou ausência dela. Estêvam Ângêlo de Souza observava que o dom da fé é um milagre, mas normalmente está disperso no tempo; não é instantâneo. Agora, a operação de maravilhas já seria um milagre imediato [1]. A pluralidade no grego da expressão “operações de milagres ou maravilhas” indica, assim como veremos a seguir com os dons de curar(s), a diversidade na manifestação e aplicação do mesmo.
Dons de curas. Por que as palavras “dons” e “curas” estão no plural no original grego? É possível especular bastante, mas o plural nos traz a ideia de, obviamente, pluralidade, isto é, algo composto de muitos. Muitos subdons? Um dom para cada tipo de doença e necessidade? Formas diversas para a manifestação do mesmo dom? Dom para cura do corpo e outra para a cura da mente? Ou tudo isso junto? Difícil saber, pois a Bíblia se cala sobre esse detalhamento. Provavelmente, como afirma Gordon D. Fee, a pluralidade indica que o dom não é permanente, ou seja, ao próprio do portador, mas o dom surge segundo cada necessidade específica [2]. 

Gottfried Brakemeier comenta que os dons de poder- cura e fé- é a igreja cumprindo “seu mandato terapêutico mediante oração, imposição de mãos, bênção e solidariedade, mostrando a seu modo que Deus faz maravilhas” [3]. Certamente que Paulo não é tão evasivo quando Brakemeier. O Novo Testamento mostra claramente que, ao falar de cura, se fala de milagres espetaculares e espantosos e não mero exercício terapêutico e solidário, logo porque há outros dons- misericórdia e exortação (Rm 12.3-8)- que já cumprem essa missão do conforto. Interpretar o dom de poder como mero exercício de capelania é exegese afetada ideologicamente, pois não era isso que o apóstolo Paulo, o autor primário, tinha em mente. 

Equívocos no uso dos dons de poder

a) É importante observar: quem é usado na cura divina não é dono do carisma, mas mordomo do dom. É um transmissor dessa graça. Nenhum verdadeiro cristão é curandeiro, ou seja, ninguém tem o poder de determinar o momento da ação desse dom ou manipulá-lo a seu bel-prazer. Os curandeiros são sacerdotes do paganismo e não do cristianismo. Portanto, só gente com mentalidade animista e pagã poderia marcar um culto nominado à cura divina. 

b) Outra questão importante e que nasce nesse debate é: por que Deus não cura em nossos dias como na primitiva Igreja? Há duas formas de responder essa pergunta: 1) Resposta negativa. A Igreja tem falhado em sua missão de buscar o poder do Alto. Sobra incredulidade, imaturidade, fé morta, legalismo e até apostasia [4]. 2) Resposta positiva. A Igreja de hoje jamais será como a Igreja primitiva em poder e maravilhas. Isso porque a Igreja passada cumpria uma missão apostólica, ou seja, estava a firmar as primeiras bases da fé cristã e, logo, precisava de mais milagres como chancela. Assim, não há como repetir a mesma trajetória do início da Igreja. 

c) Nem toda doença é fruto de um espírito maligno. Muitas doenças são frutos do espaço, período e ambiente, outras da idade e algumas, em casos bem específicos, uma opressão demoníaca. Mas o mito neopentecostal difundido por Fred Francis Bosworth (1877-1958) é que toda doença é um espírito maligno que precisa de exorcismo. Os seguidores de F.F. Bosworth, como o próprio heresiarca William Branham, sempre oravam da seguinte maneira: “Sai dele/sai agora/demônio da doença tal, sai agora!”. Esse tipo de pensamento e oração é ainda possível de ser vista em muitas igrejas pentecostais e carismáticas. Bosworth foi um pioneiro pentecostal nos EUA e contrariando a doutrina da “evidência inicial” se desligou das Assembleias de Deus em 1918. Nesse período se filiou a Christian and Missionary Alliance e desenvolveu um ativo “ministério” de cura. Teologicamente foi grandemente influenciado por E. W. Kenyon, o guru dos neopentecostais norte-americanos. Bosworth, no início dos anos 50, ainda se uniu com o controvertido William Branham [5]. F. F. Bosworth escreveu o livro Cristo, Aquele que cura, publicado no Brasil pela Graça Editorial. Esse livro influenciou uma geração de pregadores carismáticos como Kenneth Hagin e Tommy Lee Osborn. O missionário T. L. Osborn, baseado no livro de Bosworth, escreveu sua famosa obra Curai Enfermos e Expulsai Demônios. No Brasil, o principal divulgador dessas ideias erráticas é o missionário R. R. Soares. 

d) Outro mito neopentecostal sobre a cura divina e doenças/infortúnios é a afirmação que qualquer doença pode ser vencida pelos “segredos da fé”, como se existisse uma fórmula mágica de manipular o sagrado. O apóstolo Paulo conviveu com vários doentes como Epafrodito (Fp 2.27), Timóteo (1 Tm 5.23) e Trófimo (2 Tm 4.20). Ele próprio era provavelmente doente (2 Co 12. 1-9). Se houvesse um “segredo” para nunca mais ficar doente o apóstolo não usaria para os seus amigos e para si? Tal crença é fruto de paganização e influência da seita Ciência Cristã sobre o Movimento da Fé.

e) Não existe “Ministério de Cura”. Cura sobrenatural existe, mas não ministério sobre cura. Os dons de curar, como já dito, não é do portador. O dom é dado para necessidades específicas de pessoas doentes na congregação. O dom não pode ser possuído como um ministério. “Uma das coisas que nossa geração precisa evitar é a institucionalização dos dons”, escreve acertadamente D. A. Carson [6]. Portanto, qualquer atividade que faça do dons de curar uma rotina ministerial o distorce e envolve a manipulação humana. 

Portanto, vamos buscar os dons de poder na ciência que eles não serão nossa propriedade.

Referências Bibliográficas:

[1] SOUZA, Estêvam Ângelo de. Nos Domínios do Espírito. 2 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1987. p 185. 

[2] FEE, Gordon D. The First Epistle to the Corinthians. 1 ed. Grand Rapids: Eedmans Publishing, 1987. p 594.

[3] BRAKEMEIER, Gottfried. A Primeira Carta do Apóstolo Paulo à Comunidade de Corinto: um comentário exegético-teológico. 1 ed. São Leopoldo: Sinodal/EST, 2008. p 161.

[4] Para uma crítica negativa leia: DEERE, Jack. Surpreendido pelo Poder do Espírito. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1995. pp 145-157. Para uma crítica positiva do mesmo fenômeno leia o artigo Por Que Não Ocorrem nos Dias de Hoje os Milagres da Igreja Primitiva? [Neste link]. 

[5] ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2007, p 135-136.

[6] CARSON, D. A. A Manifestação do Espírito. A contemporaneidade dos dons à luz de I Corintios 12-14. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2013. p 42.

8 comentários em “Dons de Poder

  1. Absurda a afirmação da não necessidade de dons hoje, pelo contrário, hoje necessitamos mais dos dons do que na época dos apóstolos. veja, por exemplo o discernimento de espíritos: Dom necessário e urgente à igreja brasileira, principalmente a estudantes da Universidade Presbiteriana Mackenzie e outras universidades onde se aprende o cessacionismo, doutrina diabólica e tendenciosa arquitetada por satanás para frear o crescimento da Igreja de JESUS CRISTO na Terra. JESUS disse a seus discípulos: “E eis que sobre vós envio a promessa de meu Pai; ficai, porém, na cidade de Jerusalém, até que do alto sejais revestidos de poder. Lucas 24:49” e Mas recebereis a virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunhas, tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria, e até aos confins da terra.Atos 1:8- Nesse princípio é que se baseia quem é Igreja de JESUS CRISTO ou não. JESUS disse que só deveriam pregar o evangelho após receberem o batismo no ESPÍRITO SANTO, o que não é o caso dessas denominações que estão debaixo de um espírito de engano. Infelizmente até pentecostais da Assembleia de DEUS estão sendo enganados por esse espírito maligno com sua teologia de missão integral que de integral só tem o nome. Acorda igreja!

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  2. A Paz irmão,

    EM I CORÍNTIOS 12. 31, LEMOS QUE DEVEMOS PROCURAR COM ZELO OS MELHORES DONS, MAS O APÓSTOLO IRIA MOSTRAR-NOS UM CAMINHO AINDA MAIS EXCELENTE. QUAL É ESSE CAMINHO AINDA MAIS EXCELENTE?
    Buscar o amor de Deus em primeiro lugar e desejar os dons do Espírito a fim de que possamos servir melhor a Deus. A resposta na realidade é dada no capítulo 14, versículo 1 (ARA):
    Segui o amor e procurai, com zelo, os dons espirituais, mas principalmente que profetizeis. Se colocarmos os dons espirituais antes do amor de Deus, cometeremos um erro sério; primeiro e mais importante é o amor de Deus. Aqueles que amam o Senhor procurarão normalmente os dons espirituais, visto que são manifestações do Seu Espírito, concedidos para a Sua glória e engrandecimento de Sua Igreja.

    Mais detalhes, acesse o link abaixo:
    CLASSIFICAÇÃO DOS DONS ESPIRITUAIS

    Em Cristo,
    ***Lucy***

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  3. Exatamente – Quem ama busca os dons para ajudar os irmãos. O amor é que move os dons. Imagine o tanto de crentes que estão doentes precisando de um irmão que tenha o dom de curar. O tanto de crentes que precisam de um milagre, etc… Os dons não são para nosso proveito, mas sim para o proveito dos outros. Segui o amor e procurai, com zelo, os dons espirituais, mas principalmente o de profetizar – para edificar o corpo de CRISTO na Terra que é a igreja. Paulo diz: Desejai ardentemente os dons.

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  4. Milagres devem ascender às forças da natureza e da física. Muitas das coisas que vemos nos templos é maravilhoso, mas não um milagre, que é enormemente superior.
    Tenho algumas reclamações, especialmente da parte (D, vou tentar por em poucas linhas:
    >Ora, se Paulo curasse qualquer enfermo, então ele passaria a dominar o dom. Logo o fato de Trófimo, entre outros, estar enfermo ao lado de Paulo não significa que Deus não queria curá-los

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  5. > O argumento de que seja provável que Paulo estivesse enfermo, acho muito pequena esta possibilidade, por que? Possibilidade depende de informação, então quanto maior a informação que temos a respeito de algo, mais provável será. Logo, não vemos nenhum registro significativo de Paulo enfermo, que atenda as condições de 2Co 12, mas vemos ele sofrendo açoites, privações etc, concordando com o verso 10 de 2Co 12, facilmente interpretado no contexto. Alguém já parou para ler o verso 10?
    Texto muito bom, alias o blog é excelente parabéns. Esse é um resumo grosseiro, tenho coisas aqui interessantes para reflexão. Sou leigo também na área de teologia, sou da área das exatas. Shalon, Deus nos abençoe.

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  6. PRIMEIRO – O que é perfeito só alcançaremos na glória, após o arrebatamento, ai não haverá mais necessidade de dons. Estarão todos sem doenças, sem problemas, num corpo glorificado, corpo celeste, incorruptível. O amor é uma das qualidades do fruto do ESPÍRITO a desenvolvermos em nossa vida cristã, ainda há as outras 8 qualidades a serem desenvolvidas. O amor de DEUS que é o principal é derramado em nossos corações pelo ESPÍRITO SANTO, não é mérito nosso.
    SEGUNDO – Em meus estudos sobre dons explico que nos dons de curar recebemos dons para curar certos tipos de enfermidades e não todas, isso explica a não cura de certos amigos e companheiros de Paulo, é claro que ele orou por eles, mas eles não foram curados.
    TERCEIRO – Paulo sofria sim de uma enfermidade – Tinha sérios problemas de visão – Disse aos Gálatas que se possível arrancariam seus próprios olhos e lhe dariam, mandava sempre alguém escrever para ele e assinava com grandes letras, o que indicava sua cegueira, talvez devido aos vários espancamentos que sofreu e ao excesso de estudos à luz de lamparinas.

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  7. A paz do Senhor!

    Sou pastor da Igreja Assembléia de Deus Ministério plenitude do Evangelho.

    Em relação aos dons de cura discordo parcialmente do colunista dessa matéria.

    Ao classificar cultos de cura divina como algo animista e pagã, isso gera conflito e até divisão na igreja do Senhor. É um precedende perigoso.

    Quando um homem de coloca nas mãos de Deus e busca a unção do Espiríto Santo ele será muito usado por Deus.

    No ministério de Jesus ele mandou os discípulos curarem os enfermos e nunca orar pelos enfermos, como fazemos atualmente em nossas igrejas.

    Antes do dia de pentecostes, eles já operavam milagres em nome de Jesus. Usando a autoridade do nome de Jesus.

    Depois do dia de pentecostes e´que foi doado à igreja os dons de cura.

    Temos hoje a autoridade do nome de Jesus e os dons do Espiríto Santo.

    A humanidade nunca esteve tão doente e cético, somente um evangelho que apresenta Jesus e acompanhado de sinais e maravilhas arrebatará multidões de mãos de satanás.

    Pergunte aos missionários em nações muçulmanas de milagres são importantes ou não.

    A igreja ainda está realizando um ministério apostólico em muitas nações da face da terra.

    O evangelho é o mesmo que jesus e a igreja primitiva pregaram.

    Tenho vista Deus operar milagres poderosos em nome de Jesus e via dons e cura, por que creio no poder de Deus e uso a autoridade que o Senhor me deu.

    Pessoas tem sido curadas de cegueira, cancer, surdez, paralisia…

    Tudo para glória de Deus.

    Para maiores esclarecimentos recomendo o livro “Jesus ensina cura os enfermos” de Willian Lau
    Editora Vale da Benção.

    O seu ministério nunca mais será o mesmo.

    Um abraço,

    E Cristo, Pr Zenilton Gomes

    http://www.plenitudedoevangelho.com.br

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