Subsídio da EDB

O Propósito da Tentação

Por Gutierres Fernandes Siqueira


Com o objetivo da auxiliá-lo para a aula do próximo domingo faço aqui um breve comentário exegético da Leitura Bíblica em Classe (Tiago 1. 2-4, 12-15). Só lembrando que esse texto bíblico é a base da lição exposta.  O comentário é especialmente sobre os versículos 2,3 e 4 do primeiro capítulo.


2. Meus irmãos, tende grande gozo quando cairdes em várias tentações,


Meus irmãos (adelphoi) é gênero inclusivo, ou seja, aborda tanto homens como mulheres. Na linguagem contemporânea há uma tendência de valorizar ambos os gêneros. No contexto da literatura do Novo Testamento- como até pouco tempo atrás- não se dava tanta importância para essa pequena questão. A expressão significa o dirigir-se a “um membro da mesma comunidade religiosa, especialmente um companheiro cristão” [Strongs]. A igreja é uma “comunidade de irmãos” na compreensão neotestamentária (Cf. Mateus 23.8; 25.40 e Tiago 1.9, 16). Essa linguagem afetuosa, que é característica em Tiago, contrasta com o tom imperativo da epístola e é repetida 15 vezes na epístola, enquanto há entre 54 a 58 verbos no imperativo nos “108 versos” [1]. Não há nessa epístola a colocação de Tiago como hierarquicamente superior aos demais irmãos, seja em espiritualidade seja em cargos eclesiásticos.


Tende grande gozo quando cairdes (ēgēsasthe pasan charan otan peripesēte) . Tiago fala sobre a qualidade da nossa alegria, mas do que uma emoção espontânea e passageira. “Grande tem o sentido de integral” [2]. É a alegria em estado bruto, uma alegria sem mistura de outros sentimentos negativos. A ideia aqui não é um sorriso diante da tragédia, mas expressa o sentido da paz e equilíbrio diante das adversidades, ainda que se viva a adversidade com intensidade (cf. 2 Coríntios 4.9). O sentido dessa alegria é escatológico e perfeitamente baseado na confiança em Deus e não na espectativa pelas circunstâncias. “Esta é uma sentença de pensamento ao invés de emoção. Tiago não está comandando como se deve sentir, mas sim como se deve pensar sobre cada circunstância adversa” [3]. Assim, a comunidade é convidada a olhar além do problema e das provações, portanto, essa alegria envolve um ato de fé. Há o debate se o verbo “ter” ou “considerar” é indicativo ou imperativo, mas na maior parte das traduções o imperativo impera justamente pelo contexto de toda a carta. O verbo grego cair tem a preposição peri que denota “ao redor” ou “em torno de”, ou seja, é ser literalmente sitiado ou englobado. “É a imagem de estar cercado por provações” [Robertson’s].


Quando a filosofia moderna- especialmente através do filósofo prussiano Friedrich Nietzsche- critica a “passividade cristã” diante do sofrimento, logo falha em perceber que o cristianismo não encara o sofrimento como criador de virtude. É na reação ao sofrimento que a virtude brota. O mal é realidade presente, inevitável e contingente, mas na teologia cristã ele pode ser vencido pela maturação do caráter. Não há escapismo na teologia cristã e nem o sofrimento é visto como purificação para salvação, mas sim um processo natural da vida humana onde é possível encará-lo como oportunidade.


Em várias tentações (poikilois peirasmois). A palavra não indica o sentido limitado de atração para o pecado, mas a adversidade que testa e matura o caráter. A palavra-chave aqui é teste. No português o termo tentação é quase sinônimo de sedução para o erro, por isso, para melhor expressão da ideia presente, a tradução mais adequada nesse versículo é provação. No grego, o verbo peirasmos tem sentido positivo e negativo, a depender do contexto, mas tanto a adversidade do dia mal (“várias”- tragédia, fome, privação, perseguição etc.) quanto o pecado do homem mal não deixam de ser “testes” para a fé do cristão. Por isso, Jesus ressoando Deuteronômio 6.16 advertiu que não se pode “tentar a Deus”, ou seja, a Deus ninguém testa porque isso denota falta de confiança no seu caráter- e todo desconfiado demanda provas (cf. Mateus 4.7).


3.  sabendo que a prova da vossa fé produz a paciência.


Sabendo (ginōskontes). É um particípio presente ativo de ginōskō que significa “conhecimento experimentado”. Isso mostra que a ação (saber) indicada pelo particípio está ocorrendo ao mesmo tempo que a ação indicada pelo verbo principal. Ou seja, a fé é “a única maneira de conseguir a visão das ‘provações’ como motivo para a ‘alegria’” [Robertson’s].


A prova (a dokimion). A provação faz com que a “fé seja como o ouro que resiste ao teste do fogo e é aprovado como padrão” [Robertson’s]. Tiago aqui como 1.6, 2.1 e 5.15 considera a (pistis) como “a base da religião prefeita”. A provação, portanto, não é vista como destrutiva ou avassaladora, mas como o processo de certificação de um padrão de excelência. A prova, portanto, não é em si produtora de excelência, mas o seu processo certificará a excelência. Assim como uma prova na escola não produz conhecimento, mas certifica o conhecimento existente. “O sofrimento é o meio através do qual a fé, testada no fogo da adversidade, pode ser purificada e então fortalecida. Desta forma, a ideia não é a de que provações determinam se uma pessoa tem fé ou não. Em vez disso, elas fortalecem a fé que já existe” [4]. Achar que a provação é em si capaz de transformar o homem é subestimar o trabalho redentor de Cristo, pois assim a salvação do homem estaria baseada no sofrimento do próprio homem e não no sofrimento de Cristo. É um espécie estranha de legalismo do moribundo. Vamos lembrar sempre que este texto, assim como outras listas de virtudes trabalhadas na provação, é cristianismo de fato e não estoicismo tardio.


Produz (katergazetai). O verbo, segundo Vincent [5], indica realização.


Paciência (hupomonēn). Palavra antiga e comum para permanecer sob (hupomenō). “A paciência para Tiago difere marcadamente do sentido estóico de calma absorção passiva porque deriva da confiança na justiça divina final (cf. 5.11)” e a paciência “não é uma meta, como acontece com os estóicos, mas um meio para um objetivo” [6] maior que é redenção final.


4.  Tenha, porém, a paciência a sua obra perfeita, para que sejais perfeitos e completos, sem faltar em coisa alguma.


Tenha (echetō). Está no imperativo presente ativo de echō e significa “continue a ter”. Como próprio nome diz o imperativo é o modo da ordem. O imperativo presente dá a ideia de uma ação contínua e repetida. Como dito acima, a epístola de Tiago é marcada pelo tom imperativo, mas ao mesmo tempo fraternal.


Obra perfeita (ergon teleion). “Significa continuar o trabalho para (e até) o fim ou conclusão (telos) como em João 17.4 (a teleiōsas ergon, ‘tendo consumado a obra’)” [Robertson’s]. “É o resultado consumado da paciência na purificação moral e enobrecimento”, escreve Marvin Vincent [7].


Para que sejais (ēte hina). O verbo eimi indica que o objetivo da paciência.


Perfeita e inteira (teleioi kai holoklēroi). Tiago está a falar de maturidade. É a maturidade que é fruto dos “teste de fé”. E maturidade nas Escrituras não significa ausência completa de pecado. O próprio Tiago reconhece isso em 3.2 quando diz: “todos tropeçamos de muitas maneiras”. A perfeição cristã normalmente está associada ao pensamento escatológico (cf. 1 Co 13.10; Ef 4.13 e Cl 1.28), mas em Tiago também é perspectiva presente com o domínio dos pecados da língua, por exemplo (cf. 3.2). Ou seja, em Tiago há “formas particulares de pecado que não se manifestam na comunidade cristã, pois a moralidade desta deriva de um Deus perfeito que dá dons perfeitos” [8].


Sem falta coisa alguma (en mēdeni leipomenoi). Essa expressão “descreve a natureza de um cristão maduro que chegou com sucesso por meio de provações” [9].


Boa aula!


Referências Bibliográficas:


[1] CARGAL,  Timothy B. Tiago. em: ARRINGTON, French L. & STRONSTAD, Roger. (ed.) Comentário Bíblico Pentecostal: Novo Testamento. 4 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p 1661.


[2] VINCENT, Marvin R. Vincent: Estudo no Vocabulário Grego do Novo Testamento (Vol. 1). 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2012. p 509.


[3] ARNOLD, Clinton E. (ed.), BLOMBERG, Craig L. e KAMELL, Mariam J. James, Zondervan Exegetical Commentary on the New Testament. 1 ed. Grand Rapids: Zondervan, 2008. pos. 766.


[4] MOO, Douglas J. Tiago: Introdução e Comentário. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 1990. p 60.


[5] VINCENT, Marvin R. Idem. p 510.


[6] MCKNIGHT, Scot. The New International Commentary on The New Testament: The Letter of James. 1 ed. Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Publishing, 2011. pos 1036.


[7] VINCENT, Marvin R. Idem. p 510.


[8] MCKNIGHT, Scot. The New International Commentary on The New Testament: The Letter of James. 1 ed. Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Publishing, 2011. pos 1036.

[9] ARNOLD, Clinton E. (ed.), BLOMBERG, Craig L. e KAMELL, Mariam J. James, Zondervan Exegetical Commentary on the New Testament. 1 ed. Grand Rapids: Zondervan, 2008. pos. 811.

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