Igreja norte-americana · Redeemer Presbyterian Church · Times Square Church · Timothy Keller

Minhas impressões sobre a Times Square Church e a Redeemer Presbyterian Church

Por Gutierres Fernandes Siqueira

No último domingo tive a oportunidade de visitar duas igrejas que há muito eu desejava conhecê-las. A primeira é a Redeemer Presbyterian Church liderada pelo teólogo e pastor Timothy Keller. A outra é a Times Square Church, uma igreja pentecostal independente fundada pelo Rev. David Wilkerson, morto em 2012 num acidente de carro. Os pastores Keller e Wilkerson influenciaram e influenciam a forma como penso a fé cristã hoje, mesmo que ambos sejam de ministérios tão distintos. E creio que influencie muitos dos que estão lendo este texto. O que quero compartilhar como vocês são as minhas impressões, pois uma coisa é você ler e ouvir falar dessas igrejas, mas outra coisa completamente diferente é participar dessas igrejas, mesmo que seja apenas de um culto.

Times  Square Church

Arquitetura. A congregação fica no coração de Nova York. É locada em um antigo e lindo teatro na esquina com a famosa praça cheia de telões de LED e propagandas chamada Times Square. Apesar dos prédios pós-modernos ao redor, o antigo teatro é de arquitetura clássica. A típica iconoclastia protestante não afetou Wilkerson que manteve os belos desenhos de cenas religiosas no teto da igreja. Aliás, isso em si já diferencia algumas igrejas em São Paulo que usam prédios históricos (antigos cinemas e teatros, por exemplo) e normalmente redesenham segundo um péssimo gosto arquitetônico. E, também, supera o medo que existe em nossas igrejas pentecostais brasileiras de colocarem símbolos tradicionais como a cruz ou desenhos que representam cenas bíblicas. Na tradição cristã sempre houve a consciência que a arquitetura de um templo é mais uma forma de comunicação e didática. Não é à toa que o Templo de Salomão de Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) seja uma réplica do antigo templo de Israel, pois tal fato mostra muito da mensagem que aquela igreja quer passar. No caso da IURD é o reforço da hermenêutica dependente fortemente do Antigo Testamento sem a mediação do Novo Testamento. Assim, fica mais fácil em falar tanto em sacrifícios, ofertas, prosperidade e desenvolver uma teologia da retribuição.

Na Times Square Church diante do
quadro “nossos fundadores”
Louvor e diversidade étnica. A música é contagiante e fortemente influenciada pelo tradicional black gospel. Isso mesmo, uma igreja fundada por um casal branco, mas como forte conotação do soul (ou spirituals) gospel. Pra mim foi uma experiência nova cantar empolgadamente esse tipo maravilhoso de som. Fiquei feliz de ver essa diversidade de “povos”. Inclusive, o tema da igreja é Apocalipse 7.9: “Depois disso olhei, e diante de mim estava uma grande multidão que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, de pé, diante do trono e do Cordeiro, com vestes brancas e segurando palmas”. Sabemos que a história americana é marcada pela segregação e ainda hoje é raro ver um casal “misturado”. Além disso, há inúmeras igrejas que são majoritariamente negras e outras brancas e ainda outras latinas. No coral da Times Square Church cantam negros, brancos, hispânicos e sino-americanos. Os pastores também refletem essa diversidade étnica. É um exemplo para a igreja norte-americana. 

Bom, esse comentário pode parecer bobo para você que conhece apenas a nossa realidade brasileira. Aqui não houve segregação institucionalizada como nos Estados Unidos e na África do Sul logo após o fim da escravidão. O que houve e há são casos de preconceitos individualizados, mas isso é bem diferente de uma prática institucionalizada que até separava igrejas, o bebedouro, o lugar no ônibus etc. de brancos e negros.

Pregação. Gostei especialmente da pregação. A retórica do pastor David Ham era agradável de ouvir, ou seja, nem escandalosa e nem como quem fala a um grupo de freiras. Agora, o conteúdo da mensagem, que é o mais importante, veio muito bem. No começo até fiquei preocupado pois o tema era “sobre ter coragem” e na hora pensei que pudesse ser mais uma pregação terapêutica e de autoajuda. Não era nada disso. De fato, era uma exortação para ser corajoso na vida diante da tentação da covardia, mas o tempo todo o pregador destacava que a base de nossa coragem não era a nossa própria vontade, mas a cruz de Cristo. Ou seja, era mensagem prática, mas cristocêntrica. Assim, vi que o legado de Wilkerson acabou por deixar uma congregação bem discipulada onde é possível associar uma mensagem para encorajamento sem cair no moralismo terapêutico de autoajuda. Na verdade, o tema do sermão que era Take Courage In Jesus (algo como “tome coragem em Jesus”) já destacava o papel central de Cristo.


Redeemer Presbyterian Church


O nível de organização dessa igreja me deixou impressionado. Primeiro, diferente das igrejas presbiterianas no Brasil que estão cada vez mais influenciadas pela ideia de liturgia puritana, essa igreja sabe discernir o público e não sacraliza a liturgia sob o engessamento de um “princípio regulador”, mesmo sabendo que toda liturgia cristã deve ter uma regulação central, ou seja, a glorificação exclusiva de Cristo Jesus. 

Há dois cultos no domingo. No primeiro chamado “clássico”, logo cedo, o louvor é “antigo”, os instrumentos idem e a música predominante é dos hinários. O pastor prega de terno e gravata. Logo, o público costuma ser mais velho. Eu, porém, participei do segundo culto que é chamado de “contemporâneo”. Nele, o louvor está mais para Hillsong (não confunda Hillsong United, que são grupos diferentes) e, também, são cantadas músicas clássicas, mas com nova roupagem musical. Inclusive, realizei o desejo de cantar com a congregação a clássica canção Amazing Grace (Maravilhosa Graça). 

Outro fato interessante: a estrutura da liturgia, incluindo inclusive trechos do sermão, são disponibilizados no site da igreja e muitos dos membros já levam o boletim impresso ou nos tablets e smartphones. Aliás, os jovens faziam inúmeras anotações de um sermão que era exposto com aula de universidade americana, ou seja, lido em muitas partes para o público. 

Apesar de sempre ouvir que a Redeemer Presbyterian Church é um exemplo de inclusivismo étnico, na verdade, como disse acima, vi isso melhor na Times Square Church. Agora, há sim uma tentativa de diversidade e como exemplo um dos hinos cantados foi em espanhol por um hispânico. 

A pregação foi boa. Era sobre a alegria de Cristo em meio ao sofrimento. Quem acompanha os neocalvinistas sabe que é uma mensagem recorrente e fortemente influenciada pela obra de John Piper com “A Teologia da Alegria”.  A pregação ficou a cargo do Rev. John Lin, um jovem líder e pastor da igreja no centro de Nova York. 

Conclusão

Ainda me impressiona o poder de renovação da igreja norte-americana e, por isso mesmo, essa não deixará tão cedo de ser uma inspiração para o nosso ministério no Brasil. Além disso, é mais uma prova que a riqueza econômica de uma nação não matará a sede espiritual de nenhuma pessoa. Felizmente, nem só de mazelas teológicas e decadência vivem nossos irmãos do norte.

8 comentários em “Minhas impressões sobre a Times Square Church e a Redeemer Presbyterian Church

  1. Não confundir “novo calvinista” com “neocalvinista”. Os neocalvinistas são a tradição holandesa inaugurada por Kuyper e seguida por Francis Shaeffer. Os novos calvinistas são esse fenômeno moderno de interesse pelo calvinismo (com Piper, Washer, Driscoll, Keller, etc), que foram chamadas assim depois do artigo da revista Time em 2008.

    by Robson Cota

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  2. Reflexão equilibrada, mostrando de fato a realidade. Esse “fenômeno” se repete hoje em muitas igrejas nos EUA. Não é só aquele “oba-oba” da confissão positiva etc., etc., que, aliás, por lá está em decadência e não demora muito para entrar em decadência por aqui também. Abraços!

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  3. Espero um dia conhecer a Times Square Church do saudoso Rev. David Wilkerson. Achei duas coisas interessantes nesta igreja. O fato de ser uma igreja independente, e possuir o respeito e admiração das demais denominações.
    E ainda o fato da valorização do Rev. Wilkerson pela arte, o que não infelizmente muito apreciada em terras tupiniquins.
    Wilkerson deixou um legado incomparável tantos de mensagens quanto dos Desafios Jovens espalhados pelo mundo.
    Oro que Deus continue a levantar verdadeiros profetas em nossa geração que possam aplicar a mensagem de Deus ao tempo que vivemos.

    Thiago Mendes

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  4. Sempre me pergunto: por que igrejas pentecostais nos EUA tem maior facilidade de integração? Vi isto na Times Square (onde todos povos, tribos, raças, classes sociais reúnem-se)e pelo jeito a Lakeland do Joel Osteen também é bem sucedida nesta questão. Também no Brasil não vejo sucesso na integração (a não ser na Universal?)
    Abraço Matias

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