Liberdade de Expressão · Liberdade Religiosa

Não existe meia liberdade, caro Francisco!

Por Gutierres Fernandes Siqueira


Leonardo Boff, teólogo adjetivado como “progressista”, defendeu em recente artigo a censura para expressões que firam “a sensibilidade religiosa”. Sim, ele abertamente fala em censura. Ora, não há nada mais retrógrado, é necessário logo apontar. O papa Francisco, outro senhor que nos faz refletir sobre a decadência da teologia latino-americana, também expressou que não deve existir “insulto contra a religião alheia”. E,  curiosamente ou não, essa é a mesma opinião dos líderes do Talibã no Afeganistão, dos assassinos do Boko Haram na Nigéria e dos terroristas do Estado Islâmico no norte da Síria. Ainda que a preocupação desses últimos seja apenas com o profeta Maomé.  


É muito perigoso para o Cristianismo uma onda da censura sobre discursos que “atinjam sensibilidades”. A sensibilidade no indivíduo é o ponto máximo do relativo, e um mundo que absolutiza na coletividade os valores relativos ao indivíduo cria uma tirania ao avesso. Você quer viver em um mundo onde cada ser humano sensível proíba uma expressão? Esse mundo seria terrível. Ou talvez o mundo caminha para a distopia do livro “O Doador” de Lois Lowry onde não existe a liberdade e, no fim, nem mesmo os sentimentos. Um mundo dominado pelo medo de ferir sensibilidades acabará por matar os próprios sentimentos.


Eu quero a minha liberdade para afirmar e reafirmar o que eu creio, mesmo que isso deixe alguém ou um grupo chateado. Assim como devo aceitar uma sociedade onde eu também seja objeto de um discurso ofensivo a minha própria sensibilidade. A liberdade é uma via de mão dupla. Quando ouço um ateísta de linha marxista dizendo que a fé é alienação das classes subdesenvolvidas, logo fico extremamente chateado. Acho esse discurso fortemente preconceituoso e simplista. Todavia, espero em Deus nunca defender a censura de quem pensa assim na grande arena do discurso público. Espero, apenas, convencê-lo pela apologia.


Então serei uma ameba diante das ofensas? De certa forma sim, pois a constituição de uma civilização é o conjunto de renúncias dos indivíduos no exercício da força e da violência. A barbárie é onde cada um impõe o seu próprio princípio.


Os cristãos que diante das charges satíricas dizem “a liberdade de expressão tem limites” estão cometendo suicídio intelectual. Eu sei, algumas charges são ofensivas contra aquilo que cremos? Podemos reclamar, boicotar (medida quase sempre ineficaz) e até processar, mas nunca e em hipótese alguma deveríamos levantar a bandeira da limitação da liberdade de expressão. Paulo, o apóstolo, escreveu aos coríntios que “nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus e loucura para os gregos” [1.23]. Vamos lembrar que a nossa pregação evangelical é ofensiva para muitos e loucura para outros… Se defendemos a limitação da liberdade para “mensagens ofensivas” isso um dia se voltará contra nós. Aliás, isso já começou em alguma medida. O cristão sábio é o primeiro a levantar a bandeira da liberdade de expressão sem restrições de qualquer natureza.

Portanto, caro Francisco, ao comparar a ofensa às religiões com um xingamento à mãe você acabou por ajudar a lógica jihadista. Não se compara as relações e a cortesia pessoal com a liberdade de expressão, da liberdade das ideologias e da própria liberdade religiosa. É, como dito acima, tomar valores relativos com valores absolutos. Não existe meia verdade, caro Francisco, quando falamos da liberdade para expressar ideias.

5 comentários em “Não existe meia liberdade, caro Francisco!

  1. Pelo que venho acompanhando o Papa Francisco é um grande relativista e progressista, é claro que ele não se auto-denomina assim, mas suas opiniões em muitas vezes tem agradado muito a esquerda, e isso não é bom, rsrs.
    Ou na verdade, ele apenas quer se sair bem com todo mundo, um 'multicultarista'. O que é uma grande possibilidade, todo tipo de opinião que ele dá é para agradar a todos,Tá parecendo o Obama católico, rsrs.
    Abç.

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  2. Caro irmão Gutierres, com todo respeito a sua opinião, concordo que a sensibilidade individual é bastante relativa, mas acredito sim que podemos pensar nos limites da liberdade de expressão, não como um sistema institucional de censura, mas limites que venham do bom senso e do respeito, se nós cristãos não podemos abdicar da liberdade de expressão tão pouco acredito que possamos defender que seu uso seja irrestrito, pois se determinadas expressões possibilitam ações judiciais, talvez fosse melhor nem utilizá-las, acho que não podemos transformar a liberdade de expressão num dogma do mundo secularizado. Evidentemente não quero afirmar que ceifar vidas seria a forma correta de dizer que foi ofendido.

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  3. Você fala em liberdade irrestrita, e eu até tendo a concordar mais com esta postura que com a de que deve haver algum nível de censura.
    Mas o que me deixa incomodada é que sabemos que expressar o que pensamos influencia outras pessoas; e um site, jornal… que fala abertamente sobre antissemitismo, racismo, xenofobia como fica?
    Pergunto, porque isto pode incitar a violência, nestes casos não seria aceitável algum controle?
    Porque zombarem da minha fé, pode até me incomodar mas não a ponto de eu desejar censura, posso no máximo ficar magoada, mas é o que aquela pessoa pensa e eu posso conviver com isso; mas e em casos extremos como os que falei acima? Vamos contar apenas com o bom senso?
    As vezes me parece uma equação sem resposta.

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  4. Cara Izabel, racismo já é crime. E com a graça de Nosso Senhor espero que continue sendo. Vejamos outros dois casos: 1) Um pastor pode pregar que os “atos homossexuais” devem ser evitados pelos cristãos, que devem pedir a Deus o dom da castidade, que aliás, até não cristãos muitas vezes o possui. 2) Um cara posta uma mensagem dizendo que as homossexuais deveriam sofrer violências, serem presas e começa a xingá-las,etc,etc. Percebe que são dois casos bem distintos? O pessoal da censura, geralmente esquerdistas, querem colocar tudo no mesmo saco, e impor uma linha de pensamento que o Estado julga correto em todos os assuntos. Precisamos ter muito cuidado com essa coisa de achar que o “Estado” tem que ser o regulador do bom senso individual. Isso pode ser um tiro no pé e, normalmente, quando o Estado passa a ter poder sobre o que a mídia escreve ou deixa de escrever, então esse Estado já não é mais democrático. Temo que o Brasil esteja caminhando para isso. Paz em Cristo.

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