glossolalia

Quando a antropologia determina a exegese: um exemplo visível

Teologia: a louca da casa?
Por Gutierres Fernandes Siqueira


Faço aqui uma pequena nota à margem para além do debate desta semana. Não é uma resposta a nada e nem a ninguém. Só escrevo agora porque nesses dias estou me dedicando ao assunto e, assim, naturalmente venho descobrindo algumas coisas interessantes. 

Quando escrevo que os estudos científicos não podem determinar a nossa teologia faço isso por causa de uma tentação latente. É a tentação de uma ciência (e a antropologia pode ser um exemplo) que determina e controla a teologia (ou uma exegese). Assim, como dizem na academia, a teologia se torna a “louca da casa”, o patinho feio das ciências humanas incapaz de viver com propriedade. 

Há inúmeros estudos (eg. Goodman, 1972; Samarin, 1972; Carlson, 1967; Jaquith, 1967; Nida, 1965), como vocês sabem, que desqualificam a glossolalia contemporânea como linguagem. Um cessacionista mal orientado poderia amar esses estudos pois, assim, ele provaria sua tese teológica pela ciência. Porém, em alguns casos esse casamento pode ceder tanto espaço para a ciência que essa passa a determinar a exegese. Exagero? Não! Quer um exemplo?

Alguns especialistas preferem traduzir o grego glossais lalein pela expressão “elocuções estáticas” (ecstatic utterances, no inglês). Você sabia? Essa tradução está presente na New Study Bible (NEB). Veja:


And another miraculous powers; another has the gift of prophecy, and another ability to distinguish true spirits from false; yet another has the gift of ecstatic utterance of different kinds, and another the ability to interpret it. (I Coríntios 12.10).

Within our community God has appointed, in the first place apostles, in the second place prophets, thirdly teachers; then miracle-workers, then those who have gifts of healing, or ability to help others or power to guide them, or the gift of ecstatic utterance of various kinds. (I Coríntios 12.28).


É uma clara influência dos estudos antropológicos acima mencionados nessa tradução (ou paráfrase) bíblica e, consequentemente, na teologia de quem adota essa tradução. Ou eles escolheriam essa expressão infeliz se não levassem tão a sério esses estudos?

Evidente que o diálogo com a ciência é imprescindível, mas há limites. E a exegese é um limite.

8 comentários em “Quando a antropologia determina a exegese: um exemplo visível

  1. Parabéns pelo texto e pelo debate. já participei do movimento pentecostal e fico pensando que o don de linguas é uma atividade religiosa valida. entretanto, as ciências interferem na teologia porque a igreja sempre(desde o seculo XVIII) tentou justificar suas práticas como lógicas e ciêntificas. entretanto, o problema estaria entre o limite disso, ou seja, até que ponto a igreja é cientifica e até que ponto ela é fideista. até que ponto ela gosta de usar a ciencia para se justificar quendo convém e nega-la quando não convém…boa sorte.

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  2. Nem vou entrar no terreno da ciência pois nem dela entendo e nem nela me embaso.

    Só entendo que este ímpeto em defender o Pentecostalismo é, apesar de uma atitude heroica, quase que indiferente para a grande massa pentecostal.

    Certa vez conversava com uma irmã que é membro (ou “membra”. pois desde 2009 essa palavra existe) de uma igreja pentecostal, a qual entende que o Pentecostalismo significa um viver mais santo, com mais oração, e mais intensidade nela, e a admissão da contemporaneidade dos dons.

    Mas, quando eu expunha os excessos do referido movimento, ela desqualificava aquilo como não pertencendo à essência do que ela entendia como o que significa ser pentecostal.

    Na verdade ela assim pensa e age por entender que as igrejas históricas não prezam tanto por um viver mais abnegado quanto se vê nas igrejas pentecostais.

    Nisso você pode entender que o que se pode chamar de um bom pentecostal já nem está tão interessado em defender aquela visão estereotipada do que se supõe ser o Pentecostalismo.

    Então, podemos dizer que o que se pinta como uma boa versão de pentecostal hoje em dia é o que muitos chamam de pentecostal moderado, visto que o extravagante já representa algo que não condiz com a essência e a realidade.

    Mas, retomando ao raciocínio, deve ser complicado para o irmão ter que ir tão profundo para tentar defender o movimento pentecostal como válido, verossímil e igualmente rico teologicamente do que teologias mais antigas (como a fé reformada, por exemplo) enquanto o que vale, pra muitos de seus “colegas” é “reteté”, “repleplé”, “vaso”, “manto”, “canela de fogo”, “varão de branco”, “mistério” e afins…

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  3. Fabio, sou pentecostal e concordo ipsis litteris contigo. O Pentecostalismo possui sim seus vícios e defeitos. Agora, no meu entendimento, a experiência pentecostal legitima é aquela que guarda estrita relação com a Palavra de Deus sem, no entanto, sobrepujá-la. A Bíblia é a nossa unica e exclusiva regra de fé, são os seus preceitos que conduz o homem à salvação e não a experiência mística de intimidade com Deus. A Palavra de Deus é soberana em nossas vidas e nada pode tomar o seu lugar, inclusive o carisma.

    Lembro-me, ainda menino, na igreja em que cresci, que existia uma campainha no púlpito que servia, pasmem, para o pastor interromper qualquer manifestação espiritual pentecostal no momento em que a palavra estava sendo ministrada. Isto me marcou profundamente e me incutiu a importância de se reverenciar àquele momento.

    Infelizmente, o dito movimento pentecostal se desvirtuou, se imiscuiu com os ventos de novas doutrinas e tornou-se multifacetado, muitas vezes desconectado com a realidade. No entanto, acredito no resgate da essência do movimento e cabe a pessoas como o irmão Gutierres lutar para que isto aconteça.

    Não existe pentecostal moderado, extravagante, etc. As distorções que existem são frutos do desconhecimento da Palavra, são pessoas que trocaram uma das mais ricas experiências com Deus pelo que há de mais vil e deturpante que são esses costumes bizarros.

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  4. Obrigado irmão Gutierres pelo artigo.
    Obrigao irmão fábio pelo comentário.
    Obrigado irmão Marco pela rica contribuição. Lembro-me dessa campainha. Já foi tão criticada, nunca pensei que a louvaríamos ou sentiríamos sua falta.
    O irmão cresceu na AD? Continua nela?

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  5. Irmão Marcos,

    Eu entendo que o triunfalismo está impregnado na cultura assembleiana, a teologia da prosperidade não está tão agravado na AD quanto o triunfalismo do reteté. Acho que ambos os problemas podem ser resolvidos com ensino da doutrina arminiana.
    Eu também já fui da AD e hoje estou na Batista CBN que está sendo saqueada pelo MDA(a convenção não se posicionou ainda). To voltando para a AD depois de ter sido consagrado pastor na numa igreja local da CBN. Obviamente vou procurar uma AD local isenta das mazelas citadas. Estou neste processo, falta confirmar algumas coisas. Você foi para qual denominação?

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  6. Erick, hoje sou membro da Igreja Crista da Trindade. Fico feliz em saber que existem pessoas comprometidas com a palavra de Deus e a salvação dos homens dentro da comunidade cristã, da qual fazemos parte. E o debate que aqui neste blog se propugna, contribui imensamente para nosso crescimento espiritual.

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