Fé e Razão · Filosofia Contemporânea · Teologia Contemporânea · Violência

A propósito de violência e religião: uma aproximação filosófico-teológica ao problema do mal

Por André Gomes Quirino


Basta que eclodam casos sanguinolentos de extremismo religioso para que os cruzadistas antirreligião denunciem o caráter supostamente homicida da fé. Há quem diga que nela está a causa de toda a intolerância que há no mundo. Que as instituições religiosas apontem geralmente para a vocação humana à violência, não se pode negar. A mais antiga delas é o sacrifício, um ato de violência adotado universalmente como meio de se neutralizar a própria violência pulverizada na comunidade. A se desdobrar de instituição tão grave, entranhavelmente implicada das paixões mais instintivas ao ser humano, a religião tem mesmo muito a dizer sobre a violência. Sendo o sacrifício um disfarce para a culpa pessoal, a religião pode, de um lado, engendrar a terceirização da responsabilidade, a caça a inimigos externos que precisem ser exterminados – este é o caso de certa interpretação jihádica do islamismo –, ou, de outro lado, estimular a admissão da culpa, revelar que a violência está em nós – e este é o escândalo característico do cristianismo.


É porque a mensagem cristã traçou o contorno disso a que chamamos civilização ocidental que a nossa sensibilidade não pode admitir algo como uma jihad. Se o que digo é verdadeiro, então os cruzadistas antirreligião erram ao associar inexoravelmente fé e violência. A religião, por sua abrangência, tem obviamente algo a dizer sobre a violência, mas tal mensagem pode ser exatamente a de subordiná-la a um princípio de tolerância – o que foi a cirurgia operada pela pregação cristã (negá-lo não passaria de falsa modéstia) –, e por isso imputar-lhe a culpa pelas tragédias é uma atitude duplamente contraditória: porque se vinga injustificadamente, em nome de um ideal abstrato de tolerância, contra aquilo mesmo que nos permite ser concretamente tolerantes, e porque imita precisamente a atitude da religião que lida mal com a violência, terceirizando a culpa.


Tudo isso está solidamente corroborado pela história. Aqui, para demonstrar a clareza do cristianismo em revelar a vocação humana à violência, quero breve e primeiramente me aproximar do texto bíblico, especialmente de sua porção que norteia também a religião judaica e que funda a antropologia de que partem os primeiros pensadores cristãos – a Bíblia Hebraica –, e em seguida tecer algumas curtas reflexões filosófico-teológicas que possam ilustrar a cosmovisão ancorada por esse texto e a tradição fundada por ele.


O relato de Gênesis expõe sem rodeios: Caim, o primeiro irmão, foi também o primeiro fratricida, assassinando seu irmão Abel. Desde que o pecado entrou na criação, somos em princípio rivais uns dos outros, prontos a eliminar indivíduos que constituam obstáculos à realização de nossos desejos. Nesse sentido, a pergunta feita por Caim a Deus quando questionado sobre o paradeiro de Abel é precisa: “Acaso sou eu guardião de meu irmão?”.


Temos naturalmente a crença firme em que realizar as nossas ambições individuais é a mais urgente das tarefas. Se não pedimos para nascer, tampouco – ou muito menos – pedimos para ter semelhantes, próximos, irmãos. Por acaso tenho alguma responsabilidade sobre meu vizinho? Por acaso devo zelar por uma casualidade, me preocupar com uma contingência?


Se a dúvida de Caim nos alcança, é porque em algum sentido ele venceu. Não é difícil perceber que sentido é esse: Abel não deixou herdeiros; descendemos de Caim, ele é quem tem posteridade. Ainda que reduzíssemos o quadro idealmente até o estágio em que só há um homem, as perspectivas não seriam melhores: havendo apenas Adão, ele peca e seu triunfo é perpetuar o pecado, transmiti-lo à sua prole, que coincide com toda a humanidade. Assim chegamos à doutrina do pecado original por um caminho retroativo.


O pessimismo cínico, à la Brás Cubas, concluiria disso que gerar descendência é contagiar outrem com uma indizível miséria, que, portanto, a existência não faz sentido, viver é uma catástrofe e – à la Camus – o suicídio é o ato humano supremo.


Com efeito, a doutrina do pecado original e o senso de responsabilidade que ela pressupõe implicam não apenas que somos todos pecadores antes mesmo que tenhamos consciência do que é o pecado, mas também que os filhos da prostituição cultual estão equiparados em impureza a quaisquer outros recém-nascidos. Perante tão trágico cenário, a pergunta retórica de Caim se transforma insensivelmente na pergunta retórica dos gnósticos: não será a criação intrinsecamente má, realização de um deus ruim?


O gnosticismo, o caimismo e toda heterodoxia iniciam seu processo de apostasia com uma imprecisão amadora, uma precipitação pueril. A ortodoxia fornece sempre a resposta que, por ser a mais óbvia, é a mais refinada e ultrajante. É um fato cheio de significado que a heresia primeva se defina por um mau juízo da criação, que por sua vez impõe um mau juízo do caráter do Criador. Aquele que concebeu a provavelmente mais profunda e consistente defesa da ortodoxia já escrita, G. K. Chesterton, não poderia deixar de enfrentar essa questão.


Numa passagem (compreensivelmente?) pouco citada de Ortodoxia, o pensador inglês desbrava a questão “obscura e terrível” que “os maiores santos e pensadores com razão recearam abordar”. Referindo-se aos eventos de nascimento e morte de Cristo, ele propõe que, para o cristianismo, surpreendentemente, consta das virtudes do Criador também a coragem, a qual consiste em passar por um ponto de ruptura sem se partir. O ponto crucial da História é aquele do Eli, Eli, lamá sabactâni?, aquele em que “Deus foi abandonado por Deus”.


E agora deixemos que os revolucionários escolham um credo dentre todos os credos e um deus entre todos os deuses do mundo […]. Eles não encontrarão um outro deus que tenha ele mesmo passado pela revolta. Não (a questão torna-se difícil demais para a fala humana), mas deixemos que os próprios ateus escolham um deus. Eles encontrarão apenas uma divindade que chegou a expressar a desolação deles; apenas uma religião em que Deus por um instante deixou a impressão de ser ateu (Ortodoxia. São Paulo: Mundo Cristão, 2008, pp. 227-8).


Voltemos à criação antes de nos atermos à cristologia chestertoniana. Dum ponto de vista estritamente metafísico, não vejo como se possa declarar a impossibilidade do mal uma vez consumada a criação: se o mundo é contingente, não pode não haver o mal. Aproximando-me da linguagem teológica, mas ainda falando do campo metafísico: ou Deus é tudo o que há, ou há o mal; ou não há nada além de Deus, ou há o mal. Isto é o princípio da criação, numa perspectiva teísta: Deus criar espaço para haver algo que não Ele.


Por isso a criação do mundo por Deus não é como a criação de um prédio por um arquiteto. A criação do mundo vem acompanhada de lágrimas, implica um engajamento pessoal, um envolvimento afetivo, é um ato de doação. Por isso o retrato pintado por Michelangelo da criação de Adão dá já à cena uma áurea melancólica, de um afastamento indesejado que o próprio ato criativo requer. A criação dói.

A Criação de Adão de Michelangelo Buonarotti em 1511

Mas então não será a obra de Deus intrinsecamente má, como reivindicam os gnósticos, não será o ato criativo uma perversidade, como questionou certa vez com muita sinceridade um colega de faculdade, numa dessas conversas sobre metafísica? A pergunta já não é metafísica, mas teológica, e deve ser respondida teologicamente.

Para Paulo, o mundo foi criado para Cristo (Cl 1.16). Vale dizer: o mundo é um presente de Deus-Pai para Deus-Filho. Muito antes que Adão pecasse, a Santíssima Trindade dispusera-se ao sacrifício. O mundo, portanto, manifesta o poder de Deus, que incide até sobre si mesmo: Deus é poderoso até sobre Seu próprio poder – por isso é corajoso, e por isso doa, esvazia-se, encarna-se. A beleza da criação aponta para a beleza da Trindade que a precede, sustenta e supera. O mundo é um palco para a relação profunda, verdadeira e eterna de amor que há na Trindade – e essa relação chega até nós!


Semelhantemente ao Gênesis, a nova criação inaugurada por Cristo, por meio da fé em Seu poder, funda-se em dor e lágrimas. Um dos sinais visíveis, comunitários e recorrentes dessa fé, que a renovam – falo dos sacramentos –, é a Ceia: o partilhar do corpo ferido de Cristo e do cálice de Seu sangue. A Igreja, como Corpo de Cristo, como comunidade das novas criaturas que descendem do segundo Adão, compartilha das lágrimas de Deus, exercita-se em sofrimento. Assim, a resposta ao gnosticismo transforma-se na resposta ao caimismo: sou guardião de meu irmão, responsável por meu vizinho, porque a razão e o modelo da nossa existência não é a pura contingência, mas a Trindade, em que jamais faltará amor e que jamais o negará à Sua criação.

Para retomar o fio que nos trouxe até aqui: nada será mais eficaz para a disseminação da tolerância do que a pregação do Cristo crucificado. E se nós, que nos dignamos chamar cristãos, não o anunciarmos, a mula profetizará, as pedras clamarão: vocês, descendentes de Caim, crucificaram o único Santo.

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