Escatologia

Os sinais dos tempos

Por Gutierres Fernandes Siqueira

O sermão escatológico de Jesus envolve uma sequência de sinais que aponta para um desfecho histórico importante. A leitura de Mateus 24. 1-14 é intrigante, pois algumas perguntas nascem: os sinais dos tempos estão no pretérito ou no futuro? Quando Jesus fala em falsos cristos, terremotos, guerras e rumores de guerras, esfriamento do amor etc., Ele se refere a um passado imediato ou ao futuro que seria o nosso próprio presente? Os sinais são para Israel ou para o mundo todo?

Este blogueiro é de tradição pentecostal e a minha denominação é fortemente influenciada pelo pré-milenismo dispensacionalista clássico[1]. Apesar disso, deste cedo questionei uma interpretação meramente futurista da passagem em apreço, pois sempre houve guerras, terremotos, falsos profetas e especialmente esfriamento do amor no decorrer dos tempos. Por exemplo, o número espantoso de vítimas no terremoto do Haiti em 2010 com aproximadamente 150 mil mortos é enorme, mas perto de algumas tragédias é relativamente menor. Por incrível que pareça, mas para um chinês do passado recente viver no Haiti contemporâneo seria um grande privilégio.

Estamos vivendo hoje as maiores tragédias já acontecidas? Bem, é comum você ouvir isso por aí. Embora nada esteja garantido e ainda hoje, do nada, a Terceira Guerra Mundial possa estourar ou um terremoto devastador mate milhões de pessoas, não é bem verdade que a nossa geração tem sido marcada especialmente pelas grandes tragédias naturais mais do que outras gerações. O mundo hoje é violento, temeroso e instável, mas sempre foi assim. Guerras e rumores de guerras são tão presentes como o próprio ar que respiramos.

A história de tragédias

No primeiro dia de novembro de 1755, a população de Portugal enchia as igrejas no Dia de Todos os Santos e, de repente, um forte terremoto destruiu a cidade de Lisboa que estava em peso rezando nas grandes catedrais ou nas pequenas paróquias. Aliás, não só um sismo destruiu Lisboa, como também um forte tsunami, que ocorreu horas depois, enquanto as pessoas aguardavam os barcos para fugirem da cidade. Enquanto uns estavam mortos pelos escombros, outros pela inundação do tsunami e ainda havia as vítimas dos grandes incêndios que se seguiram no mesmo dia como consequência dos abalos sísmicos. No apocalipse português aproximadamente 30 mil pessoas morreram no que mais parecia uma personificação das primeiras estrofes do hino Dies Irae.

O fato de a tragédia acontecer justamente em um feriado religioso levou muitos a refletirem.  Os católicos começaram a acusar que a minoria dos “hereges protestantes” estava atraindo a ira divina sobre o povo português. Os anglicanos na Inglaterra acusavam o papismo e a Inquisição de atraírem o juízo do Senhor sobre parte da Europa católica. O filósofo francês Voltaire (1694-1778) aproveitou o abalo sísmico para escrever um romance satírico contra o teísmo cristão e contra a ideia de providência divina onde o personagem principal é um ingênuo religioso otimista que explica o evento como o Juízo Final.

A China tem em sua história a marca das grandes tragédias. Em 23 de janeiro de 1556 um terremoto devastou o norte do país e aproximadamente 830 mil pessoas morreram. É de longe o sismo mais mortífero que se tem notícia. Há ainda outra tragédia natural impressionante na China: a grande inundação do Rio Amarelo em 1931 que matou diretamente ou indiretamente (por doenças e fome) três milhões de chineses. Mas nada se compara a outra máquina mortífera: a ditadura totalitária de Mao Tsé-Tung entre os anos de 1949 e 1976. As estimativas mais conservadoras dizem que pelo menos 40 milhões de chineses morreram nas mãos desse regime comunista. Agora, chama a atenção que a Conquista dos Mongóis no século 13 matou aproximadamente 40 milhões de pessoas na Ásia, mas com uma população muito menor. E a Rebelião de An Lushan acontecida durante a dinastia Tang, de 756 a 763, matou aproximadamente 25 milhões de chineses, o que em número atualizados para hoje na base de morte per capita seria como se hoje 429 milhões de chineses morressem numa guerra civil.

Esses só são exemplos de como a história está fortemente marcada pelos sinais que Jesus apontou. Agora, exegeticamente o texto de Mateus 24. 1-14 se refere a nosso tempo ou, preteritamente, ao período da destruição de Jerusalém no ano 70 A. D.? Há fortes evidências no texto bíblico para apontar que o principal destinatário do sermão de Jesus é o evento que se daria quase quatro décadas depois.

Antes que você fique escandalizado com essa conclusão, já que a mesma vai diretamente contra a tradição assembleiana que eu faço parte, quero citar uma bela reflexão do teólogo James B. Shelton, pentecostal como eu e um dos autores do ótimo Comentário Bíblico Pentecostal publicado pela CPAD. Shelton diz:

Não devemos nos surpreender de que até as profecias de Jesus apresentadas em trajes apocalípticos tenham um cumprimento mais imediato na história e cumprimentos posteriores no tempo do fim, no julgamento final e no estabelecimento do reinado de Deus. Precisamos olhar duas vezes em interpretações que reduzem o mistério da consumação de todas as coisas a diagramas lineares e fórmulas rígidas e frágeis. Apocalipse significa “mistério revelado”, e não necessariamente “mistério explicado”. Deve levar o leitor ao arrependimento, adoração e espanto, e não à exclamação: “Oh, consegui!” O tema central desta passagem (Mateus 24-25) é o julgamento que lida com a destruição de Jerusalém e a vida do Filho do Homem.[2] 

Mas calma. Não estou querendo dizer que o sermão escatológico de Jesus se resuma à destruição de Jerusalém. Não sou adepto de um preterismo puro. Embora essa seja a mensagem central da trama escatológica, sabemos muito bem que há um conceito importante na profecia: a dupla referência. Ou seja, “a primeira e direta referência da profecia encontra expressão numa linguagem que não deixa, entretanto, de ser passível de uma aplicação mais ampla”[3]. A mensagem nem é meramente passado nem meramente futuro. Há elementos de preterismo e futurismo.

PS: Este texto continua.


[1] É sempre necessário qualificar o dispensacionalismo entre clássico e progressista, pois ambas as escolas apresentam uma base comum, mas com as respectivas diferenças.
[2] SHELTON, James B. Mateus em: ARRINGTON, French L; STRONSTAD, Roger. Comentário Bíblico Pentecostal do Novo Testamento. 4 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p 130.
[3] ANGUS, Joseph. História e Doutrina e Interpretação da Bíblia. 1 ed. São Paulo: Editora Hagnos, 2004. p n/e.

3 comentários em “Os sinais dos tempos

  1. A PAZ DO SENHOR, HÁ ALGUM TEMPO ACOMPANHO O SEU BLOG E TENHO SIDO ALIMENTADO PELOS TEXTOS AQUI PUBLICADO. QUE DEUS CONTINUE O ABENÇOANDO, DANDO-LHE SABEDORIA E O INSTRUINDO NA SUA SANTA PALAVRA.
    FORTE ABRAÇO

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  2. apenas uma duvida o James Shelton é amilenista ? porque eu possuo o comentario biblico pentecostal e achei o metodo de interpretação dele muito diferente do nosso tradicional dispensacionalista .

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