Devocional

O túmulo vazio e a Páscoa

Cordeiro Pascoal. 1660-1670. Pela artista portuguesa Josefa de Óbidos
Por André Gomes Quirino
José de Arimateia deu-Lhe onde cair morto e, nesse ato, proporcionou-nos a indizível honra de que Deus visitasse o seio de nossa civilização. A kenósis e a encarnação do Verbo não estariam completas se Ele não tivesse descido à sepultura, mas não fariam sentido e seriam desprezíveis se se encerrassem ali.
A mais sofisticada construção da arte e da ciência humanas — o túmulo — alcançou o ápice da utilidade quando hospedou a Deus. Mas só alcançou o ápice do sentido quando dela Deus se despediu e anjos rolaram a pedra da entrada, escancarando o túmulo, que estava vazio.
Foi respeitosamente que naquele domingo Cristo deixou intactos os lençóis em que estivera envolto. Foi respeitosamente que o anjo perguntou às mulheres: “Por que buscais entre os mortos aquele que vive?” — e continuou: “Não vos assusteis; buscais a Jesus Nazareno, que foi crucificado; mas já ressuscitou, não está aqui. Vinde, vede o lugar onde o Senhor jazia”.
Dentro do túmulo fechado, antes que a ação dos anjos o expusesse à luz, se deu o ponto de torção na história da arte, da técnica, do trabalho, da religião, do homem enquanto ser inventivo: a morte, que desde sempre nos espreita, de cujo horror estamos em fuga, em função da qual toda a nossa cultura se desenvolveu, foi derrotada naquele cubículo insalubre.
Cristo conheceu a morada que Lhe fizemos, e agora prepara-nos moradas eternas, que não falam de morte, mas transbordam de vida. Cemitérios lembram a nossa efemeridade, mas a Páscoa lembra a efemeridade dos cemitérios.

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