Cristologia

"Quem vocês dizem que eu sou?"


Por Gutierres Fernandes Siqueira

Acorda e desperta para o meu julgamento, para a minha causa, Deus meu e Senhor meu. (Salmos 35.23 TB)

Disse-lhe Tomé (a Jesus): “Senhor meu e Deus meu!” (João 20.28)

Jesus não foi um Deus disfarçado de homem e, nem muitos menos, um homem com poderes divinos. Jesus foi plenamente Deus e plenamente homem- e ainda o é. Isso mesmo: numa mesma pessoa havia duas naturezas – e ainda há.  Jesus não é um semideus – como na mitologia grega- nem um mutante – como nas histórias em quadrinhos dos X-Men – nem um homem muito espiritualizado – como nas teologias orientalistas. Ele é o Homem-Deus. O Concílio da Calcedônia em 451 d. C. sintetizou essa verdade tremenda: Jesus é verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem. Diz o documento:

Um só e mesmo Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, perfeito na Sua divindade e perfeito na Sua humanidade (…) que se deve reconhecer um só e mesmo Cristo Senhor, Filho Unigênito, em duas naturezas, sem confusão, imutáveis, indivisíveis, inseparáveis, de nenhum modo suprimida a diferença das naturezas por causa de sua união, mas salvaguardada a propriedade de cada natureza e confluindo numa só Pessoa e hipóstase, não separado ou dividido em duas pessoas, mas um só e mesmo Filho Unigênito, Deus-Verbo, Senhor Jesus Cristo, como outrora nos ensinaram sobre Ele os profetas e depois o próprio Jesus Cristo….

Não será difícil achar um teólogo moderno que apontará nesses conceitos um resquício de helenismo. Desde Adolf von Harnack (1851 – 1930) há uma campanha para a des-helenização da fé. Tudo o que lembra a Grécia precisa ser expurgado para que cheguemos verdadeiramente ao pensamento hebraísta do Novo Testamento. Não podemos desprezar esses esforços de “purificação”, mas as doutrinas cristológicas de Niceia e Calcedônia também entravam em choque com a cosmovisão grega. Haja vista que o conceito do homoousios (do grego: da mesma substância, consubstancial ou de igual substância) contradizia a cosmologia triádica dos gregos[1]. Naquela mentalidade era inconcebível a mesma substância em duas pessoas diferentes (Deus Pai e Deus Filho), porém, como está no Credo, o cristianismo prosseguiu com essa ideia à revelia dos gregos. Portanto, essa abordagem que tenta desqualificar a cristologia ortodoxa pelo suposto excesso de helenismo costuma pecar no exagero, especialmente sobre como entende essa influência. O historiador Christopher Dawson faz uma rápida e importante observação sobre esse assunto:

Parece paradoxal que a literatura cristã latina e toda a tradição teológica da Igreja Ocidental tenham-se originado não na Europa, mas na África, nos países que hoje são conhecidos como Tunísia e Argélia.  […] Isso não significa, entretanto, que a nova literatura latina fosse um pálido reflexo da dominante cultura helenística do Oriente. Longe disso: era profunda e desconcertantemente original….[2]

Bem, embora Jesus seja esse Ser paradoxalmente divino e humano em plenitude, ao mesmo tempo, Ele é ontologicamente irritante. Jesus Cristo é profundamente um incômodo, ao ponto que o crucificamos. E o crucificaríamos mais uma vez se necessário fosse. Não é possível condenar nem os judeus nem os romanos, pois se ali estivéssemos estaríamos entre aqueles que gritavam “crucifica-o”. Ou seja, a Sua natureza não relevou apenas Deus, mas revelou profundamente o homem, o nosso coração pecaminoso. O homem que foi capaz de pedir a morte do único homem sem pecado, o único Ser perfeito, o único Ser que era a própria encarnação de Deus, o único cuja substância era a mesma de Deus pai. Ele era a própria misericórdia e amor em pessoa, logo, uma repugnância que precisava ser eliminada.

Essa é a maravilha da cristologia. Quando eu encontro Cristo, na experiência ou na doutrina, eu sou confrontado como homem ao mesmo tempo em que conheço Deus melhor. A cristologia precisa ser proclamada, ensinada e digerida em nossos púlpitos. A Igreja cristã que não é essencialmente cristocêntrica jaz na teologia da vacuidade humana.

Não faz muito tempo um teólogo assembleiano escreveu que a expressão “Jesus, 100% homem e 100% Deus” estava errada. Agora, mais recentemente, um teólogo batista afirmou que Jesus não tem o pleno conhecimento de Deus pai e, também, um teólogo presbiteriano declarou que Jesus até hoje sente sono e fome. Não escrevo isso na base da chacota, pois reconheço nessas pessoas a seriedade e o compromisso com a fé, ainda que eu discorde de muitos pontos ensinados por eles. Todavia, é necessário dizer que precisamos resgatar a cristologia urgentemente. Parece que o protestantismo brasileiro se preocupou tanto em entender a teologia soteriológica paulina ou mesmo em combater o neopentecostalismo que se esqueceu do propósito maior de qualquer teologia bíblica: glorificar a Cristo.


[1]KASPER, Walter e SCHILSON, Arno. Cristologia: abordagens contemporâneas. 1 ed. São Paulo: Edições Loyola, 1990. p 14.
[2]DAWSON, Christopher. A Formação da Cristandade: Das Origens da Tradição Judaico-cristã à Ascensão e Queda da Unidade Medieval. 1 ed. São Paulo: É Realizações, 2014. p 202. 

2 comentários em “"Quem vocês dizem que eu sou?"

  1. Parece que o protestantismo brasileiro se preocupou tanto em entender a teologia soteriológica paulina ou mesmo em combater o neopentecostalismo que se esqueceu do propósito maior de qualquer teologia bíblica: glorificar a Cristo.

    Perfeito! Excelente reflexão, irmão.

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  2. Olá, uma frase de seu texto me deu um nó nos pensamentos: “Jesus foi plenamente Deus e plenamente homem – e ainda o é”.

    Pergunto: em Cristo, atualmente, ainda há a natureza humana? Reafirmando o que escreveu no texto, com quais versículos embasaria?

    Questiono não para confrontá-lo, mas por ignorância minha referente a esse assunto.

    Um abraço fraterno.

    Andry Bastos

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