Legalismo

Legalismo: o refúgio da perversidade

Por Gutierres Fernandes Siqueira

De vez em quando surge um escândalo sexual no meio cristão, seja católico ou evangélico, que provoca expectação e ansiedade entre os membros das igrejas e alvoroço nas mídias tradicionais e nas redes sociais. É muito comum ver como protagonistas dessas notícias chocantes pessoas que militavam em grupos temáticos especializados em família, homossexualidade, castidade etc. Não é que esses movimentos produzam pervertidos sexuais, vale lembrar que este autor abomina qualquer pensamento “determinista/reducionista” [1], mas os pervertidos encontram nesses espaços um refúgio para a própria dissimulação.

O problema de programas de militância pela castidade ou contra outros pecados sexuais é porque o enfoque sai da graça de Deus para técnicas humanas. Isso nunca dará certo. A santidade, assim como a salvação, é recebida pela graça de Deus. O legalismo é o refúgio natural dos pervertidos, pois esses tentam esconder o tamanho e a força de seu pecado. Só a graciosa misericórdia de Cristo pela ação santificadora do Espírito Santo nos ajuda a vencer o pecado ofensivo a Deus e ao próximo. Os teólogos Ana Márcia Guilhermina de Jesus e José Lisboa Moreira de Oliveira definem bem as três marcas progressivas do legalista:

A primeira é a falta de sensibilidade e de humanidade. A pessoa se torna um monstro guiado pela lei do dever, não tendo misericórdia e compaixão diante da fragilidade alheia. A segunda é o despertar dos instintos mais baixos que o sujeito acreditava controlar. Sufocado e reprimido pela lei e pelo dever, o prazer se transforma em bestialidade ou em conflitos interiores contra os quais a pessoa não tem solução a não ser deixar que extravasem. Disso resulta uma terceira atitude, que é a hipocrisia. Vivendo de forma animalesca, o sujeito tende a ser moralista e cruel para esconder, sob tal aparência, a sua ambiguidade. Vivendo no inferno, a pessoa, mesmo inconscientemente, tende a transformar a vida dos outros num inferno. Vivendo sem prazer de viver, odeia quem vive prazerosamente e tudo fará para desmanchar o prazer de viver dos outros.[2]

Este texto é uma análise do legalismo. A minha tentação como autor e como leitor é escrevê-lo e lê-lo pensando em referências midiáticas ou da minha própria comunidade. João Calvino certa vez escreveu: “Dificilmente há uma pessoa que não se sinta encantada com o desejo de investigar as faltas das outras pessoas”[3]. Logo, o nosso desafio é escrever e ler um texto como este pensando em nossas próprias vidas. Será que eu não estou me refugiando numa cortina de “santidade” e represando o meu pecado sem buscar a santificação do Senhor?


[1] O determinismo/reducionismo é a crença que uma ação individual é fruto direto de um contexto social, biológico, econômico etc. O marxismo é um exemplo de pensamento determinista. “Em termos gerais, determinismo é um modo de pensar que supõe que tudo é, de modo previsível, causado por alguma coisa. Mais especificamente, determinismo descreve qualquer teoria que explique o mundo em termos de alguns fatores estreitamente definidos, como exclusão de todos os demais”. Veja: JOHNSON, Allan G. Dicionário de Sociologia: Guia prático da Linguagem Sociológica. 1 ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1997. p 71-72.
[2] JESUS, Ana Márcia Guilhermina e OLIVEIRA, José Lisboa Moreira de. Teologia do Prazer. 1 ed. São Paulo: Editora Paulus, 2014. p 49.
[3] Citado em: KULIGIN, Victor. Dez Coisas que Eu Gostaria Que Jesus Nunca Tivesse Dito. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2014. pos. 3557.

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