Assembleias de Deus · Liturgia

Quem disse que todo mundo fala em línguas no culto pentecostal?

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Eis um dado interessante e pouco conhecido: 50% dos pentecostais brasileiros e 49% dos pentecostais norte-americanos afirmam que nunca falaram em línguas, segundo pesquisa realizada em 2006 pelo respeitado instituto Pew Research Center. Creio, sem muita dúvida, que dez anos depois esse número deve ser ainda maior. Quem não fica surpreso com esses dados?

Se, de um lado o dado é preocupante e fortalece a tese que vivemos um crescente pós-pentecostalismo entre os próprios pentecostais, do outro lado mostra como há uma série de estereótipos que nada informam sobre a vivência do pentecostalismo histórico no Brasil, especialmente o experimentado nas Assembleias de Deus.

Quem olha de fora parece contemplar um grupo homogêneo onde em cada culto há sempre manifestações abundantes de glossolalias e outros carismas espetaculares. Não é assim. Sou membro das Assembleias de Deus há 15 anos e posso afirmar que muitos ficaram surpresos como quão formal e previsível é o culto assembleiano. E, também, como a maioria dos membros sequer abre a boca durante o culto.  

É claro que desejo que todo pentecostal fale em línguas, pois isso é bíblico. É claro que desejo um culto com o verdadeiro fervor e vida do Espírito. Mas o que quero enfatizar nesse texto é que o pentecostalismo não pode ser estereotipado por uma ou outra experiência. O conhecido barulho sempre foi produzido por uma minoria. O chamado “reteté”, que é uma distorção do verdadeiro fervor, é também uma invenção dos anos 1990 e sempre teve a aderência de membros bem agitados e de destaque, mas minoritários. Ouça e veja os pastores mais antigos das Assembleias de Deus e você poderá observar que a moda de impostar a voz é outra invenção dos anos 1990.

A antiga liturgia assembleiana é ordeira. É uma liturgia, especialmente nas igrejas maiores, com corais, orquestras e hinos clássicos da Harpa Cristã. Mas não é assim que somos conhecidos, infelizmente. Somos conhecidos quase que como anárquicos. Somos conhecidos pelo o que aparece na mídia ou entre pregadores famosos. É estranho para quem vive há muito tempo numa Assembleia de Deus ver que a sua igreja é retratada como um lugar onde só há pessoas do “manto” e do “sapatinho de fogo”. Eu sempre vi que o povo do “manto” era e é uma minoria no nosso meio. Mas, infelizmente, eles conseguiram associar a imagem da denominação a esse movimento bizarro do “reteté”. Ora, se fosse pelo menos dons espirituais, estaríamos de acordo, mas na maioria das vezes não passa de emoção produzida pelo homem.

Lembro a primeira vez que entrei numa Assembleia de Deus, talvez ainda com seis ou sete anos de idade, e me deparei com uma cena um tanto formal.  Ali tinha um grupo de pessoas vestidas socialmente com hinários nas mãos. Estavam todos acompanhando o ritmo ditado por uma pequena orquestra. O templo era médio e talvez tivesse mais de 150 pessoas naquele espaço. Havia uma empolgação, uma alegria, mas ninguém pulava e ninguém dava cambalhotas; ninguém fazia aviãozinho. Lembro-me do rosto do pastor até hoje. Era o rosto de um homem sisudo, de meia idade, muito sério. Acho que ele não contava piadas no púlpito e nem dava pulos. E havia muita oração. E, como criança que era, saí dali com sono diante da formalidade típica e clássica do culto assembleiano. Por outro lado, há quem nunca tenha entrado numa Assembleia de Deus, mas é capaz de sempre divulgar na internet que o nosso culto é manto pra lá e sapatinho de fogo pra cá.

Veja um exemplo abaixo da liturgia clássica assembleiana. O vídeo é da Assembleia de Deus no bairro Vila Carrão, São Paulo (SP).

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