Dons Espirituais · Liturgia

Profecia de Morte? Uma ideia antibíblica!

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Os lábios de Isaías tocados pelo fogo. Quadro de Benjamin West. 

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Em Março de 2007, eu preguei um sermão sobre o “amor como regulador dos dons espirituais” baseado em 1 Coríntios 13. Naquele culto havia um rapaz que ouviu toda a minha mensagem com bastante atenção, mas ele estava visivelmente irado – o olhar fulminante denunciava a grande raiva. Quando eu acabei de falar, essa pessoa se levantou e foi até ao púlpito onde “profetizou” a minha brevíssima morte e deu uma sentença crua e definitiva: eu iria morar eternamente no inferno por causa das minhas “heresias”. Ora, meus amigos, eu continuo vivo e não sou um ghost writer nem literal nem figurado.

Há vários relatos bíblicos sobre profecias de juízo e morte na Bíblia. Por exemplo, o profeta Micaías (cf. 1 Reis 22) e o profeta Isaías (Isaías 38) foram usados por Deus para falar sobre a morte de reis. Isso é um fato na Velha Aliança. Então, a Bíblia dá suporte para a chamada “profecia de morte” em nossos dias? É claro que não. Eis os motivos:

  1. Quando um assunto está exclusivamente no Antigo Testamento devemos observar o “princípio do continuísmo” entre as duas Alianças. Ora, por que em o Novo Testamento não se usa a profecia como juízo diretivo? Há continuidade nessa forma profética entre as duas alianças? Vemos claramente que não.
  2. A profecia entre o Antigo e o Novo Testamento apresenta semelhanças e diferenças. O Ministério Profético acabou em João Batista, o último profeta da Antiga Aliança (cf. Mateus 11.13). A profecia no Antigo Testamento começava com uma autoridade incontestável. A expressão “assim diz o Senhor” não se repete na profecia do Novo Testamento, pois essa não tem autoridade escriturística ou canônica, ou seja, não é Palavra de Deus como fala definitiva ou oficial. Ágabo, por exemplo, utiliza a expressão “isto diz o Espírito Santo” em lugar do tradicional “assim diz o Senhor” (cf. Atos 21.11). A mudança é sutil, quase imperceptível, mas mostra claramente a continuidade e descontinuidade do Ministério Profético entre Antigo e Novo Pacto.
  3. É claro para o apóstolo Paulo que a profecia tem um tríplice propósito. “Mas quem profetiza o faz para a edificação, encorajamento e consolação dos homens”, escreveu o apóstolo em 1 Coríntios 14.3. Todos esses propósitos são consoantes com as profecias no Antigo Testamento, mas Paulo não menciona outro aspecto comum da mensagem veterotestamentária: o juízo. O teólogo Craig Kenner acredita que essa omissão se dá porque ele espera que as predições de juízo “sejam menos relevantes para a igreja”[1]. Stanley M. Horton escreveu: “suas palavras (proféticas)trazem edificação (que constrói espiritualmente e desenvolve ou confirma a fé), exortação (que encoraja e desperta, e desafia todos a avançarem em fidelidade e amor), e consolação (que anima, revivifica, e encoraja a esperança e a expectativa).” [2] Ora, a profecia de morte não obedece a nenhum desses propósitos. A edificação comunitária da igreja pelos dons, o grande tema de Coríntios, passa necessariamente por uma profecia que edifica, encoraja e consola. Como a profecia de morte pode ajudar na edificação comunitária? E esses aspectos falam tanto da mensagem como da forma. O objetivo da profecia neotestementária é o crescimento da igreja[3] e não a sua destruição.
  4. E outro ponto importante: rejeite qualquer profecia fora do ambiente congregacional. A profecia não é um dom para manifestações em redes sociais, podcasts, programas de rádio e TV, sites de conteúdo, reuniões místicas em montes etc. A profecia se dá no culto para o culto visando unicamente à edificação do corpo de Cristo, isto é, a Igreja enquanto comunidade reunida no nome de Jesus. A profecia, embora carismática e livre, não entra em choque com outros dons dados por Deus à igreja, tais como o próprio ofício pastoral e de ensino. A profecia precisa estar sob a supervisão da congregação reunida para julgá-la segundo os critérios doutrinários das Escrituras. Basta ler atentamente 1 Coríntios 14 para essa simples conclusão. Donald Gee, o maior teólogo pentecostal da primeira metade do século XX, escreveu que “os dons não são expressos ‘na cozinha da irmã Maria’, mas na igreja. (…) A garantia da profecia na igreja é o fato de podermos examinar uns aos outros”[4].

Ora, o que um pastor deve fazer diante de um “profeta de morte” na igreja que causa alvoroço na congregação? Cabe aqui o sábio conselho geral do pastor pentecostal Jerry McCamey:

Algumas igrejas experimentam conflitos e divisões acerca do que constitui espiritualidade e o mover do Espírito Santo. Os membros da congregação e, por vezes, o líder espiritual são atraídos por ministérios altamente visíveis de evangelistas proeminentes. As manifestações incomuns são elevadas como evidências de espiritualidade ou condenadas como exibições de carnalidade impulsionadas por autossugestão. O que é que o pastor consciencioso deve fazer? Nós realmente desejamos o mover do Espírito na congregação, mas também queremos que o avivamento seja autêntico e duradouro, e não uma moda passageira (…). Quando a congregação se divide sobre a legitimidade das manifestações, o pastor deve, mais do que nunca, pregar a Palavra- e só a Palavra.[5]

E foi isso que o meu pastor em 2007 fez. Ele chamou o “profeta” de morte e pediu que ele mostrasse nas Escrituras onde eu havia pregado heresias. O “profeta” se limitou a dizer: “pergunte pra Jesus”.

Referências:

[1] WALTON, John H. e KEENER, Craig. NIV Cultural Backgrounds Study Bible. 1 ed. Grand Rapids: Zodervan, 2016. pos 260959.

[2] HORTON, Stanley M. A Doutrina do Espírito Santo. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1993. p 244.

[3] FEE, Gordon Donald. The First Epistle to The Corithians. 1 ed. Grand Rapids: Eerdmans Publishing, 1987. p 657.

[4] GEE, Donald. Pentecostes. Como Receber o Batismo com o Espírito Santo. 6 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2000. p 76.

[5] TRASK, Thomas (ed). Pastor Pentecostal: Teologia e Práticas Pastorais. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1999. p 637.

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