Dons Espirituais

Será que o Novo Testamento ensina “profecia de morte”?

agabus
“Ágabo prevê a prisão de Paulo em Jerusalém”. Pintura de Louis Cheron na Catedral de Notre Dame em Paris, França.

Por Gutierres Fernandes Siqueira

E falem dois ou três profetas, e os outros julguem (1 Coríntios 14.29)

“Existem graves problemas sendo levantados pelo hábito de dar e receber ‘mensagens’ pessoais de orientação por meio dos dons do Espírito […] A Bíblia dá lugar para tal direção vinda do Espírito Santo […] Tudo isso, porém, deve ser mantido na devida proporção. O exame das Escrituras mostrará que, de fato, os primeiros cristãos não recebiam continuamente tais vozes do céu. Na maioria dos casos, eles tomavam suas decisões pelo uso do que normalmente chamamos ‘senso comum santificado’ e viviam normalmente. Muitos de nossos erros na área dos dons espirituais surgem quando queremos que o extraordinário e o excepcional sejam transformados no frequente e no habitual. Que todos os que desenvolvem desejo excessivo pelas ‘mensagens’ possam aprender com os enormes desastres de gerações passadas e com nossos contemporâneos […] As Sagradas Escrituras é que são a lâmpada dos nossos passos e a luz que clareia o nosso caminho”. Donald Gee (1891 – 1966), teólogo e pioneiro do pentecostalismo na Inglaterra.

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O meu último texto sobre “profecia de morte” deixou alguns leitores com dúvidas sinceras. Vou tentar, espero que com sucesso, esclarecer pontos do artigo Profecia de Morte? Uma Ideia Antibíblica. Caso você ainda não tenha lido a postagem anterior, faça-o agora para que a leitura a seguir tenha sentido.

  1. A continuidade e descontinuidade do ministério profético entre o Antigo e o Novo Testamento

O profeta neotestamentário tem a mesma autoridade do profeta veterotestamentário? A resposta é não. O teólogo Antonio Gilberto, referência nas Assembleias de Deus, escreve que a profecia na igreja deve ser julgada porque “o seu grau não é o mesmo das profecias bíblicas (…) a profecia da igreja está sujeita a falhas por parte do profeta”[1]. Embora houvesse no Antigo Testamento mecanismos para diferenciar o verdadeiro e o falso profeta (cf. Deuteronômio 13), em momento algum a Bíblia Hebraica ensina a congregação de Israel a examinar a própria profecia separando o que era a palavra humana da palavra divina. Isso porque a palavra profética no Antigo Testamento tinha autoridade definitiva, escriturística e canônica. Ela não admitia mistura, nem uma pequena falha. Ou o profeta agia como a voz pura e imaculada de Deus ou ele era totalmente falso.

Já no Novo Testamento, o apóstolo Paulo, que é um que detém a autoridade apostólica, ensina a igreja a examinar ou julgar cada profecia ouvida (1 Coríntios 14.29). Ou seja, se admite que numa profecia seja possível ouvir totalmente ou parcialmente uma orientação equivoca e errada. No Antigo Testamento, jamais se julgaria uma parte de uma profecia do profeta autêntico. Duvidar da profecia no Antigo Testamento sempre acarretou inúmeros prejuízos ao povo de Israel (2 Cr 2.20).

O teólogo continuísta Wayne Grudem escreve no ótimo livro O Dom de Profecia:

Assim, o que encontramos no AT é que todo profeta é avaliado ou julgado, mas não as várias partes de todas as profecias. O povo pergunta: “Ele é um verdadeiro profeta ou não? Está falando as palavras de Deus ou não?”, mas nunca fazem esta pergunta: “Quais partes da profecia são verdadeiras e quais partes são falsas? Que partes são boas e que partes são ruins?”. Isso acontecia porque a menor presença de falsidade desqualificaria toda a profecia e mostraria que o profeta era falso. O verdadeiro profeta que invocasse a autoridade divina de palavras verdadeiras jamais poderia falar algumas palavras suas e outras de Deus- ou todas eram de Deus ou ele era um falso profeta.[2] [grifo dele]

Preste bem atenção ao que diz um texto oficial do Concílio Geral das Assembleias de Deus dos Estados Unidos. No artigo que pode ser lido em inglês neste link você observa a mesma tônica apresentada pelo Grudem:

A experiência da igreja de Corinto fornece evidências de que o abuso e o mau uso podem se infiltrar na operação dos dons do Espírito se os vasos não são totalmente submissos à orientação e ao controle do Espírito Santo. É por isso que Paulo disse que a mensagem do profeta falado na igreja do Novo Testamento deveria ser julgada por todos os que estavam ouvindo a mensagem. O julgamento mais provável era perguntar como a profecia se conformou com toda a Escritura. Esta foi uma mudança na função do profeta do Antigo Testamento. Não há nenhuma indicação de que a mensagem do profeta do Antigo Testamento deveria ser julgada. No entanto, se a profecia não chegou a acontecer, ou instou o povo a seguir outros deuses, o profeta foi declarado um falso profeta e, logo, morto.[3] [grifo meu]

Cabe aqui outra citação importante dentro do contexto denominacional. O teólogo Esequias Soares, que é pastor assembleiano e presidente da Comissão de Apologética Cristã da CGADB (Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil) e atual presidente da comissão que elabora da Declaração de Fé das Assembleias de Deus, afirma sobre esse mesmo assunto:

O Novo Testamento deixa claro que seu objetivo (da profecia) é para “edificação, exortação e consolação” (1 Co 14.3), e não é infalível: “E falem dois ou três profetas, e os outros julguem” (1 Co 14.29). Esse tipo de julgamento não existe nos oráculos dos profetas do Antigo Testamento e nem nas profecias dos apóstolos registradas nas Escrituras neotestamentárias. Ninguém está autorizado a julgar a Palavra de Deus, pois isso exigiria de tal pessoa um juízo crítico perfeito. Mas o dom de profecia é diferente, ninguém está obrigado a obedecer a essa mensagem. Isso acontece porque é perfeitamente possível alguém se exceder entregando algo a mais daquilo que o Espírito Santo mandou. A chancela de autoridade divina como “assim diz o Senhor”, era muito comum no ministério profético do antigo Israel, mas não se aplica aqui. Quando alguém profetiza usando essa expressão, ou dando ordem para o seu ouvinte, está demonstrando claramente que pretende manipular os irmãos, isso revela estar fora da direção de Deus.[4] (grifo meu)

O equivalente ao profeta da Antiga Aliança não é o profeta da Nova Aliança, mas sim o Colégio Apostólico. Portanto, quem detinha a autoridade canônica em o Novo Testamento era o grupo dos apóstolos. Como lembra um documento oficial do concílio assembleiano norte-americano:

Os apóstolos eram os professores autoritativos da Igreja Primitiva, tanto na crença como na prática. A doutrina apostólica tornou-se o conteúdo do cânon do Novo Testamento. (…) Os apóstolos foram compreendidos, quer tenham escrito os livros canônicos ou quer tenham sido as fontes primárias, como a garantia pelas suas personagens inspiradas.[5]

James D. G. Duun, um erudito especializado em Novo Testamento, faz uma observação pertinente:

(No contexto neotestamentário) Os profetas não profetizavam porque eram profetas; eram profetas porque profetizavam. A autoridade profética não era limitada aos profetas. Só um apóstolo podia exercer autoridade apostólica. Mas qualquer podia profetizar. Paulo claramente esperava que outros membros da assembleia que não os profetas reconhecidos pudessem receber um carisma profético, isto é, uma palavra de profecia (1 Co 14. 1,5, 24,31).[6]

Portanto, que fique claro para todos que alguns casos de mortes no Novo Testamento (especialmente Herodes, Ananias, Safira e Elimas) sofreram o mal de seus pecados porque, também, enfrentaram a autoridade apostólica. Que eu saiba ninguém hoje pode reivindicar tal autoridade. Assim como a autoridade profética não podia ser diminuída ou enfrentada na Antiga Aliança, a autoridade apostólica teve demonstração de força por parte do Senhor para confirmar a autoridade de seus apóstolos.

  1. A profecia de Ágabo chancela a chamada “profecia de morte ou juízo”?

Há quem se proclame especialista em pentecostalismo sem conhecer o que os estudiosos pentecostais falam sobre temas sensíveis das Escrituras. Ora, será mesmo que a profecia de Ágabo em Atos 21. 7-14 transmite a ideia de que a profecia de morte/juízo é possível hoje? É claro que não! Em primeiro lugar a profecia de Ágabo não é de juízo. A prisão de Paulo não era por causa de um pecado; o encarceramento não era um castigo de Deus. Ele seria preso justamente porque anunciava o Evangelho (v.13). Ou seja, a cadeia era fruto da obediência. A profecia, longe de ser juízo, servia de consolo para Paulo ao mostrar que Deus está no controle de qualquer situação. Outro ponto: Paulo simplesmente ignora a profecia e continua determinado a viajar (v. 14). Isso será impossível no contexto de autoridade profética veterotestamentária. O próprio fato de ignorar a profecia e os apelos para não viajar faria de Paulo um obstinado pecador.

Donald Stamps, em sua famosa Bíblia de Estudo Pentecostal, ao comentar esse texto escreve:

Note que, em nenhum incidente registrado no NT, o dom de profecia foi usado para dirigir pessoas em casos que pudessem ser resolvidos pelos princípios bíblicos. As decisões no tocante à moralidade, compra e venda, ao casamento, ao lar e à família devem ser tomadas mediante a aplicação e obediência aos princípios bíblicos da Palavra de Deus e não meramente à base de uma “profecia”.[7]

O teólogo assembleiano Esequias Soares vai mais longe e acredita que Ágabo não soube lidar bem com o dom de profecia. Isso porque, por exemplo, Ágabo disse que Paulo seria amarrado nas mãos e nos pés e isso não aconteceu (v. 11; cf. v 33). E, também, Paulo não foi entregue nas mãos dos gentios como dizia a profecia, mas foi tomado das mãos dos judeus (v. 31, 35). Assim Soares conclui:

Ágabo é um exemplo clássico do caráter impreciso do dom de profecia. […] O apóstolo (Paulo) não obedeceu à palavra do profeta, o que jamais aconteceria no contexto profético do Antigo Testamento. Sua profecia se cumpriu em termos gerais, pois apesar de o apóstolo Paulo ser preso em Jerusalém, os detalhes dessa prisão não aconteceram como Ágabo havia predito. (…) Tudo parece mostrar que Ágabo desconhecia a natureza do dom que possuía e por isso teria tentado imitar de maneira inadequada os antigos profetas do Antigo Testamento. [8]

French L. Arrington, um dos maiores teólogos pentecostais vivos, concorda que essa narrativa de Atos 21 mostra o conflito entre duas visões sobre a vontade de Deus, onde prevaleceu o bom senso de Paulo:

Entre os crentes estão indubitavelmente os profetas cheios do Espírito. Eles e Paulo discordavam quanto à questão de se ele deve ir a Jerusalém. Ambos reivindicam a inspiração do Espírito Santo. Este incidente mostra claramente que crentes cheios do Espírito podem discordar sobre o que é a vontade do Senhor. Quando aparece uma contradição na direção divina, é imperativo que a Igreja exercite o discernimento espiritual. Raramente é fácil distinguir a revelação divina da interpretação humana. Um apelo para a direção divina não proporciona escape fácil das incertezas e ambiguidades da vida humana. O que soluciona a questão é o apelo de Paulo ao exemplo de Jesus e dos profetas que só vão a Jerusalém para sofrer e morrer. Isto convence os crentes. Este exemplo poderoso reúne novamente os dois lados da comunidade. Os amigos cristãos de Paulo deixam de tentar persuadi-lo a não ir para Jerusalém. Convencido da mão orientadora do Senhor, eles exclamam: “Faça-se a vontade do Senhor”. O Espírito ainda está guiando Paulo. É da vontade de Deus que ele vá a Jerusalém, e o que lá acontecerá está de acordo com o plano divino.[9]

Assim, fica claro que o exemplo de Ágabo jamais pode justificar uma profecia de juízo de morte hoje na igreja contemporânea. Outros exemplos em Atos, como já dito, sofreram o mal ao desafiaram a autoridade apostólica. Ao menos que você acredite na antibíblica renovação apostólica, algo que os pioneiros pentecostais sempre rejeitaram com força, você então poderá reivindicar a mesma “autoridade”.

  1. O dom de profecia não deve ser usado para dirigir a vida comum e a vida da Igreja

Acima já foi citada uma frase de Donald Stamps que é clara: a profecia não deve servir de guia pessoal ou eclesiástico. Ora, para isso já temos a Palavra de Deus. Outros pentecostais já fizeram afirmações parecidas. O britânico Gordon Chown, hebraísta e membro da Assembleia de Deus em Jundiaí (SP), escreveu:

Hoje temos o Novo Testamento e, por isso, deve-se evitar o erro, até certo ponto comum entre muitas pessoas, de crer que o dom de profecia visa dirigir o homem em decisão além das contidas na Palavra de Deus. Esse tipo de oráculo não só usurparia o lugar das Escrituras em nossas vidas, como convidaria o crente a abandonar sua consciência cristã e seu poder de raciocínio. Outro erro que devemos evitar no que diz respeito ao dom de profecia é o de aceitar um “profeta” que decida pela igreja. É verdade que havia profetas na igreja da Antioquia quando Paulo e Barnabé foram separados para a obra missionária, mas o texto demonstra que quem tomava as decisões na igreja, sob a direção do Espírito Santo, era o presbitério.[10]

O teólogo assembleiano Raimundo de Oliveira também foi claro: “A profecia não deve ser exercida com propósito governativo da igreja local”[11]. Outro assembleiano enfático sobre o papel da profecia neotestamentária era Estevam Ângelo de Souza (1922 – 1996), que foi escritor das Lições Bíblicas e pastor da Assembleia de Deus em São Luís (MA). Souza escreveu:

Entre o ministério de profeta do Antigo e do Novo Testamento há muita semelhança, conquanto haja também grande diferença. […] A autoridade máxima em matéria de fé, a norma infalível da vida espiritual, a temos completa e perfeita no Antigo e no Novo Testamento. Nem podemos crer que possuam realmente o dom de profecia aqueles que pretendem serem profetas, sem se submeterem às normas estabelecidas pela Palavra de Deus e ensinadas por aqueles a quem Ele chamou, ungiu e confirmou como seus ministros, para o bem de sua Igreja. […] O dom de profecia no Novo Testamento não tem a finalidade de estabelecer normas para a vida cristã, para o governo da Igreja e para a maneira de agir dos ministros, especialmente se tais ‘normas’ são contrárias às doutrinas neotestamentárias.[12]

É necessário ser ainda mais claro que os nobres autores acima?

Conclusão

Assim, concluímos que jamais devemos aceitar profecias cujo propósito seja guiar a nossa vida pessoal em tomada de decisões importantes (viagens, casamentos, negócios etc.), assim como devemos rejeitar a profecia que prediz a destruição de um indivíduo. “Qualquer mensagem que seja basicamente acusatória ou negativa em palavra ou modo é uma falsa profecia”, afirmou o teólogo pentecostal J. Rodman Williams[13] ao comentar o propósito edificador, consolador e confortador da profecia. Faça-se tudo para a edificação.

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PS: E um último recado: fiz questão neste artigo de citar inúmeros teólogos pentecostais, especialmente assembleianos, para que eu não seja acusado por nenhum crítico leviano de falar o que falo a partir de pressupostos alheios ao pentecostalismo. Achar que o que afirmo depende de uma teologia estranha ao pentecostalismo só mostra a ignorância desses críticos.

Referências Bibliográficas:

[1]  GILBERTO, Antonio. Verdades Pentecostais. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p 72.

[2]   GRUDEM, Wayne. O Dom de Profecia. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2004. p 27.

[3] ASSEMBLY OF GOD. Prophets and Personal Prophecie. Missouri (EUA). Disponível em: < http://ag.org/top/beliefs/topics/sptlissues_prophets_prophecies.cfm >. Acesso em: 24/12/16.

[4] SOARES, Esequias. O Ministério Profético na Bíblia: a Voz de Deus na Terra. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2010. p 213.

[5] ASSEMBLY OF GOD. Apostles and Prophets. Missouri (EUA).  Disponível em: < http://ag.org/top/beliefs/position_papers/pp_downloads/pp_4195_apostles_prophets.pdf > Acesso em: 24/12/16.

[6] DUNN, James D. G. A Teologia do Apóstolo Paulo. 1 ed. São Paulo: Editora Paulus, 2003. p 656.

[7] STAMPS, Donald C. Bíblia de Estudo Pentecostal. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1995. p 1679.

[8]  SOARES, Esequias. O Ministério Profético na Bíblia: a Voz de Deus na Terra. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2010. p 211-214.

[9] ARRINGTON, French L. e STRONSTAD, Roger. Comentário Bíblico Pentecostal.  4 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p 754.

[10] CHOWN, Gordon. Os Dons do Espírito Santo. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2002. p 126.

[11] OLIVEIRA, Raimundo de. As Grandes Doutrinas da Bíblia. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1987.

[12] SOUZA, Estêvam Ângelo de. Os Dons Ministeriais na Igreja. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1993. p 32, 37.

[13] WILLIAMS, J. Rodman. Teologia Sistemática: Uma Perspectiva Pentecostal. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2011. p 697.

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