Liturgia · Teologia Paulina · Teologia Pentecostal

O Fruto do Espírito e os Dons Espirituais

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Segui o amor e procurai com zelo os dons espirituais. (1 Coríntios 14.1)

O pentecostalismo tem enfatizado no último século a importância dos dons espirituais. Mas, igualmente, grandes mestres pentecostais, como Donald Gee e Myer Pearlman, não esqueceram que o poder sem caráter é inócuo. O grande poema sobre o amor (cf. 1 Coríntios 13) está em um capítulo encravado no meio de do texto cujo tema central é a natureza dos dons espirituais (1 Coríntios 12-14). Assim, é impossível falar dos dons espirituais sem mencionar o fruto do Espírito. Não é à toa que a maior parte das obras sobre o assunto, especialmente escritas pelos teólogos pentecostais, não deixam de citar e expor a essencialidade do fruto do Espírito.

O poder, mesmo aquele derivado da espiritualidade, é como a energia, ou seja, pode iluminar como pode matar. Os dons espirituais sem o fruto do Espírito são como fios descascados. Assim, a forma bíblica de evitar abusos na liturgia não está na proibição dos dons nem mesmo na elaboração de uma desculpa cessacionista, mas tão somente na busca pela plenitude do Espírito manifesta no caráter santo e moldado em Cristo através do fruto que germina no verdadeiro cristão. Evitam-se exuberâncias carismaníacas com mais amor, bondade, benignidade, e não com a completa ignorância sobre os dons.

O grande foco do apóstolo Paulo é o caráter edificador dos dons espirituais em 1 Coríntios 14. O resumo do capítulo pode ser lido em 14.26: “faça-se tudo para edificação”.  E para desejar edificação é necessário amor. O egoísta em momento algum pensará na edificação do outro, logo porque a sua preocupação sempre será o seu próprio bem-estar, mesmo o “bem-estar” espiritual. É por esse motivo que Paulo preferia falar em língua corrente, caso não houvesse interpretação, a falar em glossolalia: “todavia eu antes quero falar na igreja cinco palavras na minha própria inteligência, para que possa também instruir os outros, do que dez mil palavras em língua desconhecida” (v. 19).

É sempre bom lembrar que os dons espirituais e o Batismo no Espírito Santo, que também é um dom, não possuem caráter santificador. O fruto é um processo resultante da santificação, mas os dons não têm uma relação direta com o caráter. Como certa vez escreveu Donald Gee: “O propósito divino imediato no Pentecostes era o poder, não a santidade”[1]. É também evidente que uma vida que cultiva os dons está usando de um meio de graça que pode edificar e produzir uma vida cristã mais madura, mas, insisto, esse efeito será nulo se confiarmos apenas no poder carismático como único canal de intimidade com Deus.

Que sejamos carismáticos santificados; que sejamos santos com carisma!

Referência Bibliográfica:

[1] GEE, Donald. The Fruit of The Spirit. 1 ed. Springfield: Gospel Publishing House, 1934. pos 162.

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