Assembleia de Deus · Escatologia · Hinologia · Liturgia

A bela escatologia da “Harpa Cristã”

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Um dos hinos mais cantados da Harpa Cristã é o de número 300 cujo título “Nossa Esperança” já demonstra a temática escatológica da letra. Essa canção foi composta pelo pastor José Manoel Cavalcante de Almeida (1875-?), mais conhecido como Almeida Sobrinho, um ex-batista que na Assembleia de Deus em Belém (PA) fundou o primeiro jornal pentecostal do Brasil, o Voz da Verdade. Esse periódico circulou até 1918. Ele também editou o hinário Cantor Pentecostal, no ano de 1921. Esse pequeno livro musical foi o precursor da Harpa Cristã.[1]

Entre as composições originais e adaptações de Almeida Sobrinho está o hino “Nossa Esperança”. Essa canção das “últimas coisas” usa a música da composição “The Fight is On”, cuja letra é sobre a batalha diária do cristão e cuja autoria é da metodista norte-americana Leila Naylor Morris (1862-1929). Sobrinho fez uma letra totalmente nova para usar na adaptação[2].

Vejamos os trechos do hino “Nossa Esperança” com a respectiva análise:

Jesus, sim, vem do céu, em glória Ele vem! Ecoa a nova pelo mundo além; Oh esperança que a Sua Igreja tem! Dai glória a Deus, Jesus em breve vem! Nossa esperança é Sua vinda. O Rei dos reis vem nos buscar; Nós aguardamos, Jesus, ainda, Té a luz da manhã raiar. Nossa esperança é Sua vinda O Rei dos reis vem nos buscar; Nós aguardamos, Jesus, ainda, Té a luz da manhã raiar.

Diferente de muitas músicas escatológicas que foram produzidas nos anos 1990 e 2000 pelas chamadas “cantoras pentecostais”, essa letra não foca o desespero de quem está despreparado para a vinda de Cristo, mas está sim na centralidade da esperança e na expectativa que enche o coração de alegria. O intuito da letra não é produzir medo, mas expectação e maravilhamento.

Jesus, sim, vem, os mortos esperando estão; O gran momento da ressurreição/E do sepulcro em breve se levantarão! Dai glória a Deus, Jesus em breve vem!

Ao associar a esperança da vinda de Cristo com a esperança da ressurreição dos mortos a letra faz um casamento que a escatologia do Novo Testamento procura estabelecer o tempo todo. Ou seja, a vinda de Cristo não é apenas um grande momento para quem estará vivo no retorno do Senhor, mas também será para todos os santos mortos em qualquer tempo, em qualquer era.

Jesus, sim, vem do céu cercado de esplendor, Aniquilando a corrupção e a dor, Quebrando os laços do astuto usurpador, Dai glória a Deus, Jesus em breve vem!

Ao usar a expressão “corrupção e dor” o compositor corretamente indica que a esperança escatológica não é apenas para o fim do sofrimento físico, mas igualmente marca a vitória final sobre o domínio do pecado.

Jesus, sim, vem, completamente restaurar/O mundo que se arruína sem parar; Sim, todas as coisas vem depressa transformar/Dai glória a Deus, Jesus em breve vem!

Esse talvez seja o ponto mais alto da letra. O autor mostra a esperança que a vinda de Cristo traz não só para o indivíduo crente, mas para o próprio mundo. O mundo esse que será restaurado e transformado. “E vi um novo céu e uma nova terra”, como disse João no Apocalipse 21. Hoje há uma ansiedade na sociedade com o cuidado pela terra. Muitos, inclusive, acreditam que a pregação escatológica é uma mensagem de desprezo pelo meio ambiente e, também, uma forma de escapismo diante das responsabilidades e dos problemas deste mundo. Não, na verdade não há escapismo. Há isso sim, a consciência que nunca será possível uma completa restauração deste mundo sem a intervenção direta de Deus. Todo plano humano utópico de restauração total pelo esforço de um indivíduo, grupo ou governo desemboca em totalitarismo. Só a esperança cristã evita o mal do conformismo conservador e, também, põe um freio na violência apaixonada e cruel das mentes revolucionárias.

Jesus, sim, vem, e sempiterna adoração/Daremos nós ao Rei de coração; Ao grande autor da nossa eterna salvação, Dai glória a Deus, Jesus em breve vem!

A escatologia não é um exercício de especulação, mas de adoração. E é assim que termina esse belo hino: na esperança da adoração eterna. Vemos que essa canção é um belo resumo de uma preciosa escatologia bíblica com precisão teológica. O foco aqui está na preocupação principal da escatologia neotestamentária: a produção de corações esperançosos e de adoradores com expectação. A escatologia cristã não foi feita para criar especuladores curiosos e nem cínicos desesperançosos.  

A beleza da Harpa Cristã é uma dádiva que a Assembleia de Deus deve sempre aproveitar da melhor forma possível até a vinda do Senhor! Maranata!

resurrection

Referência Bibliográfica:

[1] ARAÚJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2007. p 817-819.

[2] DANIEL, Silas. A História dos Hinos que Amamos. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2012. p 126-131.

Um comentário em “A bela escatologia da “Harpa Cristã”

  1. Belo artigo Gutierres! É uma pena que nosso hinário está sendo deixado de lado por alguns pastores, com a falsa ideia de que é antiquado, antigo, que não “seduz os jovens”. Meus pastores mesmo certa vez pediram para que não cantássemos hinos da harpa em culto de jovens!

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