Ciência · Dons Espirituais · Teologia Pentecostal

A glossolalia e as pesquisas psicológicas

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Na década de 1960 começou uma explosão de estudos psicológicos e linguísticos sobre o “falar em novas línguas”, fenômeno típico da espiritualidade pentecostal. É muito comum a citação desses estudos por parte de cessacionistas mais agressivos – o que não deixa de ser engraçado, logo porque a maioria desses cessacionistas advém de ambientes fundamentalistas que sempre desconfiaram da contribuição positiva da ciência.

Os estudos, especialmente os psicológicos, nutriam aquele conhecido ranço contra a religião e a maioria deles viam os pentecostais como manipulados e adeptos de um êxtase sem resistência. Os pesquisadores eram homens de seu tempo e, sendo a maioria ateus ou agnósticos, não viam nenhuma possibilidade positiva nesse fenômeno. Não era necessariamente um preconceito contra os pentecostais em si, mas contra a religião de maneira geral.

pentecost-2Os estudos mais recentes, especialmente na academia anglo-saxã, já contestam as conclusões dos estudiosos de décadas passadas. No Brasil, como sempre há um atraso, os pesquisadores ainda carregam o preconceito da década de 1960 – e ainda se enxergam como avançados. As pesquisas recentes descobriram que os glossolálicos não estão em estado de transe e nem apresentam sinais de psicopatologia. Outros estudos indicam que os pentecostais não estão suscetíveis à hipnose e nem a falar em línguas apenas sob a autoridade de um líder. Outro ponto: há pouca evidência de aprendizagem social da glossolalia[1]. Por exemplo, os professores de psicologia William K. Kay da Glyndwr University e Leslie Francis da University of Warwi investigaram 259 homens e 105 mulheres membros de igrejas pentecostais e não observaram nenhum sinal de distúrbio psicológico fora dos padrões geralmente aceitos[2]. Pelo contrário, esse grupo manifestou até mais equilíbrio emocional do que a média populacional.

Falar que o pentecostal está mais propenso ao condicionamento é mais uma manifestação de preconceito do que evidência empírica. Para a psicologia, o “condicionamento é um processo de associar, pela repetição, um estímulo a uma reação não natural dele, de tal modo que a exposição a tal estímulo passe a provocar essa reação”, como bem definiu Houaiss. É evidente que sempre será possível achar pentecostais que literalmente aprenderam a falar em línguas por mera exposição ao ambiente em que estão inseridos. Mas esses casos, em si, não desqualificam a experiência de todo o seguimento, logo porque ela em si não explica casos onde a glossolalia não era comum ao meio ambiente do orante.

Para concluir, eu incentivo a você, seja pentecostal ou crítico do pentecostalismo, um estudo mais ancorado das pesquisas psicológicas mais recentes, especialmente no ambiente anglo-saxão. Comece pelo livro Speaking in Tongues: Multi-Disciplinary Perspectives editado pelo teólogo Mark J. Cartledge, que é professor da Regent University School of Divinity e o diretor do centro Renewal Studies na Regent University. Entre os colaboradores do livro está o famoso teólogo James K. A. Smith, professor do Calvin College. 

Referências: 

[1] Para acesso aos estudos mais recentes veja: CARTLEDGE, Mark J. (Ed.) Speaking in Tongues: Multi-Disciplinary Perspectives. 1 ed. Eugene: Wipf and Stock Publishers, 2012. p 174-204.

[2] KAY, William K. e FRANCIS, Leslie. Personality, Mental Health and Glossolalia. Pneuma 17(1-2):253-263 · Janeiro de 1995.

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