Assembleia de Deus · Calvinismo · Pelagianismo; Calvinismo; Arminianismo

E-mail a um jovem assembleiano que abraçou o calvinismo

Por Gutierres Fernandes Siqueira

calvinismCaro João, a paz do Senhor!

Recentemente você afirmou que “descobriu as doutrinas da graça” e estava muito feliz com isso. Quero deixar claro que eu respeito profundamente a sua escolha e admiro a tradição calvinista, mesmo não sendo um. Nas abordagens culturais, por exemplo, sou consumidor voraz de material calvinista. Sou, também, leitor assíduo de homens como Donald Carson, Timothy Keller, Kevin Vanhoozer, etc. Sou também apaixonado pelas pregações apaixonadas de John Piper. Todavia, estou mais próximo do arminianismo clássico não-wesleyano, até porque sou um típico assembleiano formado nas leituras de Stanley M. Horton e William Menzies – que, não custa enfatizar, eram arminianos clássicos não-wesleyanos. Como você é meu amigo e, também, membro da mesma denominação, deixo alguns conselhos.  

  1. Saiba que você está agora numa denominação oficialmente arminiana. Não sei se você já leu a “Declaração de Fé das Assembleias de Deus”, mas o documento é claramente arminiano clássico, embora não seja intransigente e nem militante. O tom do documento não é uma apologia ao arminianismo, mas está bem distante do calvinismo de cinco pontos. É importante que você, como calvinista, entenda que a sua denominação não é. Você pode argumentar que o seu pastor local nada sabe sobre o assunto e provavelmente isso é verdade, mas entenda que institucionalmente a denominação tem uma posição clara: não é nem semipelagiana e nem calvinista.
  2. Isso quer dizer que você agora precisa sair da Assembleia de Deus? É claro que não. A nossa denominação tolera pensamentos divergentes em seu seio. A Assembleia de Deus não tem a tradição de disciplinar alguém por questões doutrinárias. Embora isso seja ruim em algum nível, também abre a possibilidade virtuosa de não exercer “caça às bruxas”. Há exceções, é claro, e conheço o caso de um jovem que foi disciplinado por abraçar o calvinismo, mas são exceções que confirmam a regra.
  3. Sendo assim, não tenha como missão “calvinizar” a denominação. O seu chamado como cristão é propagar o Evangelho a toda criatura e não incutir na cabeça de todos a sua visão particular de teologia soteriológica. A teologia de uma denominação é uma construção comunitária que, concordemos ou não, reflete uma longa história. Eu, por exemplo, me sinto desconfortável como o forte tom dispensacionalista na escatologia do documento, mas eu não tento desfazer a teologia dispensacionalista da denominação. O que eu preciso fazer é apresentar aos dispensacionalistas especulativos que há uma teologia dispensacionalista mais sólida e responsável.
  4. Evite o sectarismo. Infelizmente, a teologia evangélica brasileira é muito sectarista, especialmente entre os calvinistas. Os calvinistas brasileiros têm a mania de ler, citar e divulgar apenas autores calvinistas. Falo com toda sinceridade: tem calvinista jovem que, para ele, parece existir apenas meia dúzia de teólogos que falam sempre a mesma coisa. Saiba que o cristianismo não é calvinismo, pentecostalismo, wesleyanismo, armianismo, catolicismo, etc. O cristianismo tem todos esses grupos, mas a sua essência está manifestada nos Credos ecumênicos. Continue lendo ótimos autores calvinistas, mas lembre de que você precisa ler outros teólogos fora dessa tradição e, por favor, não seja bitolado.
  5. Quando você fala que “descobriu as doutrinas da graça” parece indicar que nunca se pregou a graça de Deus para você. Sinceramente, duvido muito que isso tenha acontecido. Cuidado com esse entusiasmo ingênuo que parece que você só viu a luz do Senhor após ler um livrinho calvinista. De fato, temos que aplaudir o calvinismo por enfocar tanto a doutrina da salvação, mas daí a dizer que somente com eles é possível saber o que é graça já é um exagero sectário. A salvação não se dá pelo entendimento correto de uma determinada doutrina sistematizada, quem pensa assim está mais próximo do gnosticismo do que do cristianismo.
  6. Leia mais calvinistas inteligentes como o James K. A. Smith e Tim Keller e deixe de um pouco de lado calvinistas intransigentes como John MacArthur Jr. Quem só sabe ler gente de mentalidade estreita como o MacArthur costuma ficar pior do que ele.
  7. Como um bom pentecostal, se ainda assim o for, não deixe de congregar. Não despreze a comunhão dos santos. Não deixe de evangelizar nas ruas e praças. Não deixe de cantar na simplicidade congregacional da Harpa Cristã. Não leia a Bíblia apenas atrás de textos para provar a sua própria teologia, mas leia como antigamente: para ouvir Deus falando. E, também, não deixe de buscar os dons espirituais para a edificação da igreja.
  8. E, por último, se você ainda quer se manter como pentecostal, por favor, leia sobre o pentecostalismo. É impressionante como a maioria dos assembleianos que abraçam o calvinismo viram apenas continuístas, mas já não podem ser considerados pentecostais, pois já não creem nem mesmo na necessidade do Batismo no Espírito Santo. Todo pentecostal é continuísta, mas ser continuísta não faz de você um pentecostal. Leia especialmente Roger Stronstad e Robert Menzies, pois esses autores trabalham a matriz a doutrina assembleiana: que é o entendimento da complementaridade entre a teologia paulina e lucana na ação carismática do Espírito Santo. Agora, se depois de essas leituras você concluir que é apenas continuísta, então eu aconselho a procurar uma denominação mais adequada a sua nova forma de pensar. E isso pode ser feito sem nenhuma crise ou ressentimento.

Em Cristo,

Do seu amigo.

5 comentários em “E-mail a um jovem assembleiano que abraçou o calvinismo

  1. Parabens!!! Otimo post
    Me identifiquei bastante, mais como bom pentecostal fico no meio dos dois pensamentos (arminianismo e calvinismo) acho que os dois são mui uteis para a solida convicção da salvação.

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