Bíblia · Imprensa · Secularismo

A Bíblia e a ignorância da imprensa

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Uma tradução da Bíblia envolve inúmeros linguistas, hebraístas, especialistas em grego, etc. Sim, gente com título de doutorado nas mais renomadas universidades do país, da Europa e dos Estados Unidos. Eu mesmo tive o privilégio de ser aluno de um dos tradutores da “Bíblia de Jerusalém”, um erudito versado em sete línguas – e ele era apenas um dentro duma grande equipe. Escrevo isso porque continuo inconformado com a ignorância de como a imprensa brasileira está noticiando a tradução da Bíblia feita pelo intelectual português Frederico Lourenço.

  1. Primeiro noticiam como se essa fosse uma tradução pioneira do grego. Meu Pai eterno, quanta ignorância! O Novo Testamento é traduzido do grego desde João Ferreira de Almeida (1628-1691). A tradução de Almeida foi concluída em 1676. Desde lá outras inúmeras traduções, tanto católicas como protestastes, surgiram exatamente do hebraico/aramaico do Antigo Testamento e do grego do Novo Testamento.
  2. O único ineditismo de Frederico Lourenço é a tradução da Septuaginta – que é o Antigo Testamento traduzido do hebraico/aramaico para o grego. A Septuaginta é a primeira tradução da Bíblia hebraica que se tem notícia.
  3. Outro tom comum nas matérias é a de que a tradução de Lourenço seria, digamos, melhor. Por qual motivo? Ele não é um crente, nem protestante nem católico. Lourenço estaria livre dos pressupostos religiosos dos tradutores com alguma confissão de fé professada. Outra bobagem. Acaso Lourenço é um ser de outro planeta livre de pressupostos de sua própria educação secularista?
  4. Não desmereço o trabalho de Lourenço e estou ansioso para ler, especialmente a tradução da Septuaginta. Mas eu pergunto: é mais provável que tecnicamente a tradução dele seja superior a outras que foram construídas com equipes de dezenas de profissionais? A Nova Versão Internacional (NVI), a segunda versão protestante mais usada depois de Almeida, teve a edição de 15 biblistas especializados nas línguas originais.

Que a tradução de Lourenço seja bem-vinda, mas que os jornalistas estudem mais antes de escrever sobre religião. Ora, meus amigos, bastaria uma rápida pesquisa na própria Wikipédia para evitar estupidez. 

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