Literatura Pentecostal · Resenha · Teologia

Resenha: Pentecostalismo e Pós-Modernidade

cesarPor Gutierres Fernandes Siqueira

Os grandes teólogos do cristianismo sempre souberam que “toda verdade é verdade de Deus”. Hoje, infelizmente, vivemos tempos onde o “examinar tudo e reter o que é bom” não é muito usual. Boa parte dos teólogos brasileiros só leem nomes de sua própria tradição eclesiástica. Assim, aos olhos dos evangélicos, parece muito difícil, se não impossível, achar qualquer vantagem na pós-modernidade. O meu amigo e teólogo pentecostal César Moisés de Carvalho escreveu uma obra original que nos leva a refletir sobre essa resistência. No livro “Pentecostalismo e Pós-Modernidade” (CPAD), Carvalho mostra que é possível e até desejável construir pontes com a pós-modernidade.

É compreensível o nosso pavor ao paradigma pós-moderno. Como é possível o cristão afirmar que não existe sentido ou propósito? Como o cristão pode achar que tudo é provisório e efêmero? De alguma forma, tal perspectiva representaria a própria morte da esperança. A fé cristã certamente entra em choque com a pós-modernidade. O problema é que a fé cristã também entra em choque com a modernidade. Em Cristo o homem é contracultural em essência.  O cristianismo, enquanto religião – na concepção antiga do termo – não é pré-moderna, moderna ou pós-moderna, embora a cristandade se manifeste em momentos históricos onde existe a predominância de uma ou outra ideia. O cristianismo tem o papel de superar qualquer concepção humana de mundo, embora esse exercício seja dificílimo para o cristão inserido dentro de  um momento histórico.

Mas como o pentecostalismo pode ser beneficiado pela pós-modernidade? Carvalho, especialmente no capítulo 15, mostra como a experiência religiosa precede à teologia. Não é que a experiência esteja acima da Bíblia ou nem mesmo que o dogma seja irrelevante, mas nenhuma teologia nasce apenas por osmose cognitiva. Outro ponto importante de intersecção é que o pentecostalismo e a pós-modernidade valorizam a experiência, o sentimento e o encantamento. O pentecostal e o pós-moderno criticam fortemente o racionalismo e o desencantamento da modernidade. Como escreveu a professora Karen Armstrong: “O pentecostalismo representou uma rebelião popular contra o moderno culto da razão”.

O ponto alto do livro é o capítulo 12. Carvalho apresenta magistralmente as bases da hermenêutica pentecostal. É gratificante ler um texto tão bem escrito, pesquisado e denso e, ainda mais, sabendo que vem da pena de um pastor assembleiano brasileiro. O capítulo merece ser ampliado para se tornar uma obra própria no futuro. Carvalho se mostra como um grande representante da nova erudição pentecostal brasileira que não produz apenas sociologia da religião, mas, especialmente, teologia e hermenêutica. A única crítica que tenho a esse capítulo é que faltou um debate sobre a importância que os novos eruditos pentecostais no contexto norte-americano dão à Teologia Bíblica em detrimento da Teologia Sistemática. A teologia evangélica tradicional sempre valorizou e endeusou a Teologia Sistemática, mas parece temer a Teologia Bíblica, algo que os novos teólogos pentecostais sabem lidar muito bem sem cair no extremismo de ver contradições entre os autores bíblicos. Carvalho focou mais no método de interpretação e, dignamente, nos leva a refletir sobre os limites de qualquer método, seja ele histórico-crítico ou histórico-gramatical.  

A introdução e o capítulo 13 são textos relevantes e complementares, especialmente como uma leitura rica da contemporaneidade. Nesse capítulo, Carvalho faz uma importante crítica à tendência escapista da escatologia evangélica e pentecostal. Sem cair no exagero teonomista, que parte da tradição reformada possui, o autor nos convida a refletir sobre nossa missão no mundo. Essa missão é gloriosa, mas não imperial; é divina, mas não estatal. Desde a introdução, Carvalho critica o anseio totalizante da ideia de cosmovisão cristã – e nos brinda com uma reflexão original sobre os limites da teologia cultural neocalvinista. Carvalho peca, em minha opinião, apenas ao tratar sobre o processo da globalização no capítulo 13, onde a visão pessimista dele parece esquecer os grandes benefícios desse novo modelo de desenvolvimento e interação entre os povos. O livro como um todo nos lembra de que o cristianismo nunca será palatável ao tempo presente.  

Corram para ler e aprender com esse livro histórico que, sem exagero, representa um ponto de inflexão na teologia pentecostal brasileira. Obrigado, César!

3 comentários em “Resenha: Pentecostalismo e Pós-Modernidade

  1. Tinha visto a entrevista do Carvalho na CPAD NEWS e já havia me interessado em comprar, somando a esse texto. Percebo que preciso para aumentar o leque de argumentos em defesa do pentecostalismo.
    Obrigadoo!!!!!!!!!!!

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  2. tenho o livro,assim que vi o titulo me interessei,tenho pontos sobre a escrita magistral do mesmo,mas como um simples pesquisador me deixa atento as fontes as quais o cesar toma emprestado para algumas defesa bem como o emprego supracitado do campo das ideias utilizado pelo mesmo

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  3. Obra fenomenal e ótima resenha.
    Uma dúvida, quando cita o capítulo sobre a hermenêutica pentecostal, afirma que o autor poderia ter citados os novos eruditos no contexto norte-americano.
    Quais seriam esses autores?
    E sobre essa o favorecimento da teologia bíblica em detrimento da teologia sistemática, quais obras sugeririam?
    Obrigado

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