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Como lidar com Eugene Peterson?

Por Gutierres Fernandes Siqueira 

Se algum líder neopentecostal tivesse feito declaração semelhante ao do Eugene Peterson, pensem vocês, agiríamos com a mesma misericórdia? Essa pergunta foi feita a mim por um amigo muito próximo e, durante todo o dia, fiquei com essa questão em minha mente. Ele tem razão. Se fosse algum líder neopentecostal eu, provavelmente, seria o primeiro a usar observações ácidas como absurdoapostasiase perdeu etc. Por que, então, diante do Eugene Peterson, fico apenas triste, sem palavras condenatórias e ainda condeno quem o condena?

Essa seletividade se explica em parte porque criamos um vínculo de amizade com quem nós lemos. Escritores, especialmente devocionais, tendem a abrir o coração e contar até detalhes da família. Se lermos durante anos um determinado autor ficamos, involuntariamente, íntimos dele. E, sendo assim, a maioria de nós, pecaminosamente, pedimos a lei sem clemência para os inimigos e a leniência para os amigos.

Ora, então como deveríamos lidar com quem rompe com o consenso ortodoxo, sendo esse amigo ou não?! Outro ponto difícil: qual o limite da amizade diante do rompimento com posições sólidas da Igreja? E quais seriam essas posições que, de fato, merecem a menção de solidez? Talvez seja hora de pensarmos em sermos mais duros com os amigos (e, portanto, conosco) e mais mansos com os inimigos.

Paulo, o apóstolo, escreve que não devemos nos associar com qualquer que, dizendo-se irmão, seja imoral, avarento, idólatra, caluniador, alcoólatra ou ladrão. E ainda complementa: Com tais pessoas vocês nem devem comer (1 Coríntios 5.11 NVI). Mas Jesus não se alimentava à mesa justamente com pessoas assim? Os fariseus perguntaram aos discípulos: Por que come o vosso Mestre com os publicanos e pecadores? (Mateus 9.11 ARC). Ora, devemos ou não nos associar intimamente com pessoas mergulhadas no pecado? Sim e não, diz Paulo, o que vai diferenciar a minha disposição de sentar à mesa é o critério da comunhão: essa pessoa se diz irmã e age como ímpio? Com quem não conhece a Deus, Paulo lembra, não há problemas na associação, pois se assim fosse, vocês precisariam sair deste mundo (I Coríntios 5.10 NVI).

O texto paulino, acima mencionado, fala a respeito de questões morais. Mas, e as questões doutrinárias? Como lidar com quem ensina algo controverso? Essa pergunta é difícil porque hoje lidamos com um tipo de controvérsia diferente do primeiro século. No geral, os apóstolos Paulo, João e Pedro, por exemplo, enfrentaram judaizantes e protognósticos. Em ambos os grupos, o que estava em jogo era a rejeição da própria essência da fé cristã. Alguns falsos mestres negavam a encarnação de Cristo, outros negavam a ressurreição, outros ainda diziam que o sacrifício de Cristo não era suficiente etc. Diante deles, o quadro é claro: que seja amaldiçoado (Gálatas 1.8). Não há convite ao diálogo ou ao espírito de misericórdia.

Normalmente, os neopentecostais e os pós-evangélicos não negam essas doutrinas fundamentais. Cada um deles seria capaz de subscrever os credos ecumênicos. Nenhum deles, ao que parece, concordaria com os judaizantes ou com os gnósticos. Mas, então, como lidar com quem ensina a teologia da prosperidade ou, como no caso do Peterson, abraça uma ética sexual diferente do entendimento judaico-cristão? Será que o critério duro dos apóstolos se aplica nesses casos? Penso que sim. Isso porque, embora não sejam doutrinas que estejam no âmago da salvação, arrastam consigo consequências nefastas. Por exemplo, o entendimento que o casamento entre pessoas do mesmo sexo é legítimo faz com que a instituição familiar seja relativizada. A teologia da prosperidade, nas últimas consequências, comercializa a fé.

Aqui, nesses casos, não se trata da dialética entre doutrinas principais e periféricas, ou de divergências entre correntes distintas e legítimas, ou ainda de perspectivas diversas de um único fato. É simplesmente corrupção mansa, mas perigosa. Hoje, a princípio, não abalam os fundamentos da fé, mas, como as filhas da sanguessuga, são insaciáveis e cobraram um preço alto no futuro.

Um comentário em “Como lidar com Eugene Peterson?

  1. Entendo a sua preocupação com a sã doutrina. Realmente, devemos ser incisivos e diretos com relação aos erros.
    O que não posso concordar no seu posicionamento é a comparação com os “neopentecostais e os pós-evangélicos”:
    “Normalmente, os neopentecostais e os pós-evangélicos não negam essas doutrinas fundamentais. Cada um deles seria capaz de subscrever os credos ecumênicos.”
    Perdoe minha ignorância. Mas, não conheço esses grupos que você classifica como neopentecostais que não negam doutrinas fundamentais e são capazes de subscrever credos ecumênicos.

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