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Experiência e Teologia: uma entrevista com César Moisés

20170726_125717Por Gutierres Fernandes Siqueira

O teólogo César Moisés Carvalho é o nosso entrevistado de hoje. Carvalho é pedagogo, pós-graduado em Teologia pela PUC-Rio, chefe do setor de Educação Cristã da CPAD e comentarista da Revista Lições Bíblicas Jovens da CPAD. Autor de diversas obras, sendo a mais recente “Pentecostalismo e Pós-Modernidade: Quando a Experiência Sobrepõe-se à Teologia”, Carvalho tem dado uma contribuição extraordinária para a consolidação da teologia pentecostal no Brasil. Veja abaixo a entrevista:

1. Por que você resolveu escrever um livro que aborda pentecostalismo e pós-modernidade? Qual a relação entre esse movimento religioso e essa construção filosófica?

Depois de ler inúmeras obras reformadas que antagonizavam com a pós-modernidade formei uma visão muito negativa desta filosofia. Em 2010 fui convidado para participar como palestrante de um evento na Alemanha. Tive de fazer uma revisão bibliográfica com o material teológico e filosófico europeu. A surpresa veio imediatamente. Mesmo relutante num primeiro momento, entendi que não havia motivo algum para o Pentecostalismo entrar nesta briga com a pós-modernidade, pois alguns aspectos que esta filosofia valoriza são prezados pelos movimentos carismáticos desde sempre. Há vários pontos de intersecção. Não pelo Pentecostalismo ser pós-moderno, mas por valorizarmos a experiência e a vida comunitária, por exemplo. Além de não precisarmos da chancela da ciência para crer no que cremos.

2. Você costuma afirmar que o pentecostalismo é incompatível com o fundamentalismo e o liberalismo protestante. Por qual motivo? Seria o pentecostalismo uma terceira via?

Tanto o liberalismo quanto o fundamentalismo são propostas teológicas racionalistas. A primeira com o objetivo de negar as verdades bíblicas, e a segunda no intuito de provar essas mesmas verdades. O Pentecostalismo não é irracional, mas também não fecha com o racionalismo.

É importante observar que não estamos falando de expressões do cristianismo, pois se assim fosse o Pentecostalismo inegavelmente poderia ser contado como uma delas (apesar que ainda na década dos 70 os reformados não nos consideravam nem parte da religião cristã), mas falamos de constructos teológicos. Nesse aspecto, inegavelmente, se os pentecostais deixarem de depender epistemologicamente da teologia reformada pode sim ser uma terceira via. Na verdade, assim já somos “considerados”. Obviamente que de forma pejorativa, mas não há problema algum. Os seguidores do Caminho eram considerados sectários no primeiro século e foi justamente isto que fez toda a diferença.

3. A hermenêutica pentecostal tem como base a teologia narrativa, como você afirma na sua mais recente obra. Não é à toa que os pentecostais visitam com frequência o livro de Atos dos Apóstolos. Qual a importância da narrativa para a interpretação bíblica?

Não tive a curiosidade de fazer uma pesquisa para mensurar o quanto há de material didático na Bíblia em relação ao narrativo. Mas se isso for feito, acredito que a maior parte do texto bíblico está escrito em forma narrativa. No mundo antigo esta era uma das formas mais utilizadas para transmitir a cultura e os principais ensinamentos de um povo. Mas não era apenas uma “forma” didática de ensinar, e sim o conteúdo narrativo que servia como forma de doutrina. Analise as parábolas de Jesus. Elas, em si, encerram grandes ensinamentos. Portanto, a narrativa é de suma importância para o processo de interpretação bíblica.

4. Você aborda que a experiência está acima da teologia. Seria a experiência mais importante que o dogma? Estaria a experiência acima das Escrituras? Sendo a experiência tão importante, isso valida movimentos excêntricos como líderes carismáticos e personalistas que possuem ministérios calcados nos milagres?

Na verdade, a experiência de existir proporciona as condições para todas as demais ações. Quando inicia qualquer processo teológico que tenha por base a Revelação? Não é quando alguém tem uma ideia, um insight ou coisa parecida. A produção teológica tem as Escrituras como um dos seus pilares. E como se deu a composição das Escrituras? Grande parte delas consiste do registro das experiências dos servos de Deus no passado. Os dogmas, por exemplo, são constructos teológicos e, portanto, produtos humanos. A experiência de Deus não obedece a regras estabelecidas por nós, pois se fosse assim, Abraão (politeísta) e Paulo (monoteísta), não teriam tido um encontro com o Inefável. Ambos seguiam “dogmas”. Os de Paulo eram até embasados no AT, mas mesmo assim foram radicalmente desconstruídos. Assim, a experiência não está acima das Escrituras, mas acima do que se interpreta acerca delas. Quanto ao fato de líderes excêntricos promoverem bizarrices em nome de uma suposta liberdade do Espírito, tal sempre aconteceu e não deve nos inibir de valorizarmos as verdadeiras experiências com Deus: aquelas que nos humilham com o fim de nos transformar em pessoas melhores.

5. Na sua obra há uma crítica à ideia de cosmovisão proposta pelos neocalvinistas. Você não acredita que seja possível construir uma visão de mundo cristã? Por quê?

O faço por algo muito simples: Uma cosmovisão pretende ser um catálogo de verdades prontas para ser seguido em qualquer lugar. Como produto de um grupo, ela desconhece as especificidades comuns aos demais. Daí surge a imposição de uma visão de mundo, circunscrita a um único grupo, imposta sobre os demais sem tolerância alguma. Com tantas expressões cristãs, será que apenas um grupo, cessacionista por exemplo, tem o direito de prescrever o que todos os demais vão crer? Ele pode falar por toda a cristandade? Quem lhe deu tal “procuração”? Acho inapropriado e uma negação do princípio reformista tão decantado. Acredito que seria possível construir uma visão de mundo cristã se pudéssemos reunir todas as expressões cristãs juntas para pensar sobre isso. Como tal é impossível, não acredito mais nesta ideia.

6. Como você enxerga o futuro do pentecostalismo no Brasil? Quais são suas expectativas?

Há, do ponto de vista teológico, muito por fazer. Mas lampejos de esperança têm surgido aqui e acolá. O cessacionismo calvinista, muito mais que um suposto liberalismo teológico (que é rechaçado por continuístas e cessacionistas), ameaça nos descaracterizarmos, pois muitos jovens estão buscando subsídios filosóficos e teológicos com este grupo. Se os teólogos pentecostais deixarem de se preocupar com a aprovação teológica cessacionista, podemos produzir nossa própria teologia. Minha expectativa é que haja um retorno sério à espontaneidade do Espírito. Que experimentemos o mover genuíno do Espírito para transformarmos, primeiramente, o próprio movimento e, posteriormente, a nossa realidade.

7. Você é bem eclético nas bases do livro, pois cita do assembleiano conservador Emílio Conde ao batista pós-evangélico Harvey Cox. Quais são os pensadores que estão “fazendo” sua cabeça no momento?

Estou lendo, intensamente, para terminar minha obra “Além da Fé e da Razão”. Posso citar dois principais neste momento: Carlos Mendonza-Álvarez e Marcelo Gleiser, ambos não racionalistas e pessoas que não se julgam donas da verdade e que não se negam a dialogar.

2 comentários em “Experiência e Teologia: uma entrevista com César Moisés

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