Entrevistas · Teologia Pentecostal

O Blog Teologia Pentecostal entrevista Robert P. Menzies

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Hoje o Blog Teologia Pentecostal tem o prazer de entrevistar Robert P. Menzies, o maior teólogo pentecostal clássico da nossa geração. Robert P. Menzies fez mestrado no Fuller Theological Seminary e doutorado em Novo Testamento pela Universidade de Aberdeen, Escócia, sob a supervisão do grande erudito em estudos neotestamentários I. Howard Marshall. É hoje missionário na China, especialmente em Taiwan, e desenvolve um ministério de ensino teológico em países da Ásia. Ele é autor de diversos livros e artigos acadêmicos e escreve regularmente no Journal of Pentecostal Theology.

Robert-MenziesObras como Empowered for Witness, The Language of the Spirit: Interpreting and Translating Charismatic Terms e Speaking in Tongues: Jesus and the Apostolic Church as Models for the Church Today são algumas de suas obras mais acadêmicas. Em português, temos duas obras publicadas: No Poder do Espírito (Editora Vida), em coautoria com seu pai, William, que foi um grande teólogo e historiador da Assembleia de Deus nos Estados Unidos. É também autor do livro Pentecostes: Essa História é a Nossa História (CPAD).

Leia abaixo essa empolgante entrevista:

1. (Gutierres Siqueira) Diante de tantos conceitos diferentes, como você define o pentecostalismo?

(Robert P. Menzies) Uma compreensão adequada do termo “pentecostal” deve ser historicamente informada. Ou seja, deve ser consistente com as verdades fundamentais afirmadas pelos primeiros líderes do moderno Movimento Pentecostal, que remonta ao Avivamento da Rua Azusa em Los Angeles. Além disso, essa definição também deve ser consistente com o relato bíblico do Pentecostes – que encontramos em Atos 2.

Em meu livro, Pentecostes: Essa História é a Nossa História (CPAD, 2016), argumento que o moderno Movimento Pentecostal foi moldado por três convicções distintas: (1) os pentecostais lêem o Novo Testamento e, especialmente, o livro de Atos, como um modelo para nossas vidas e ministério; (2) Teologicamente, os pentecostais afirmam que o batismo no Espírito Santo é uma experiência de capacitação e, muitas vezes, cronologicamente distinto da conversão; (3) Os pentecostais também afirmam que esse batismo no Espírito Santo é marcado pelo falar em línguas.

Uma definição dos termos “pentecostal” ou “pentecostalismo” deve incluir esses três elementos. Grupos que afirmam algumas, mas não todas essas convicções, podem ser descritos como “neopentecostais” ou “carismáticos”. Para uma descrição completa desses termos e grupos veja as definições que ofereço no livro Pentecostes: Essa História é a Nossa História.

Eu também observaria que nós, os pentecostais, afirmamos com os nossos irmãos e irmãs evangélicos as convicções centrais do evangelicalismo. É claro que esses pontos não são originados no Movimento Pentecostal, mas são cruciais para entender a verdadeira natureza do pentecostalismo. Esses compromissos fundamentais são: (1) A Bíblia é a Palavra de Deus e a nossa autoridade; (2) A salvação é encontrada apenas em Jesus; (3) portanto, devemos compartilhar a “boa notícia” de Jesus com os outros. Essas convicções fundamentais podem ser vistas na ênfase pentecostal inicial no evangelho quádruplo: Jesus é (1) o Salvador; (2) o curador; (3) o Batizador no Espírito Santo; e (4) o o Rei que vem.

2. Sua obra é especializada na teologia do Espírito Santo presente nos escritos lucanos. Por que esse tema é tão importante para os pentecostais?

O Movimento Pentecostal moderno que decorreu do avivamento da Rua Azusa foi fundado numa experiência descrita por Lucas no livro de Atos, o batismo no Espírito Santo (Atos 2). Assim, os escritos de Lucas (o Evangelho de Lucas e o Livro de Atos) são cruciais para a teologia pentecostal. Paulo e João assumem e se baseiam na compreensão desse primeiro derramamento pentecostal do Espírito no Dia de Pentecostes, mas Lucas é o único autor bíblico que realmente descreve esse evento e experiência. Então, quando nós, os pentecostais, destacamos que o “batismo no Espírito Santo” descrito por Lucas em Atos 2 está disponível para os crentes hoje, apontamos para a narrativa de Lucas a fim de apoiar essa afirmação.

A teologia do Espírito de Lucas, enraizada como está no derramamento do Espírito no Dia de Pentecostes (Atos 2), também é excepcionalmente missiológica. Dá à igreja um foco externo muito necessário. Os pentecostais, eu diria, ao destacar a ênfase exclusiva de Lucas neste ponto, estão realmente ajudando a igreja a afirmar a total amplitude do ensino do Novo Testamento sobre a obra do Espírito; e assim, ajudam a igreja a recuperar o seu verdadeiro chamado e seu poder apostólico.

A Reforma celebrou as verdades centrais do Evangelho (justificação pela fé; salvação através do trabalho expiatório de Cristo na Cruz etc.) e puxou esses princípios principalmente das epístolas de Paulo. Assim, a teologia da tradição reformada é essencialmente paulina. Os pentecostais estão reformando a Reforma com seu apelo para também afirmar as importantes contribuições teológicas de Lucas, especialmente com referência ao trabalho do Espírito Santo e à natureza da missão da igreja.

3. O Brasil tem uma das maiores igrejas pentecostais do mundo, mas o estudo da teologia pentecostal ainda é pequeno. Que conselho você dá ao estudante principiante nos estudos pentecostais?

Primeiro, deixe-me oferecer uma palavra de encorajamento. Precisamos de teologia pentecostal e, portanto, precisamos de teólogos. Precisamos de teologia sólida enraizada na clara exposição das Escrituras. Nossas igrejas carecem disso para que não se desfaçam em falsos ensinamentos e práticas nocivas. As igrejas também necessitam da teologia sólida para que possam passar a sua experiência para a próxima geração. Temos um legado rico e isso precisa ser transmitido. Como Douglas Jacobsen observa: “… a experiência religiosa por si só não produz um movimento. Um movimento exige palavras para definir o que ele significa e, também, palavras para se descrever aos outros” (A Reader in Pentecostal Theology, p. 5).

Em segundo lugar, deixe-me oferecer algumas palavras de conselho. Mantenha seu foco na Bíblia e não perca de vista as mesmas coisas que produziram o notável avivamento que tanto impactou o Brasil, especialmente o poder do Espírito Santo. Houve uma mudança muito ruim há cerca de 150 anos na teologia, especialmente na Europa, no que muitas vezes é entendido como “teologia sistemática”. Os teólogos começaram a ver sua tarefa mais amplamente como envolvendo a reflexão social, política e filosófica, em vez de comunicar o significado da revelação de Deus na Bíblia para a sua geração. Uma compreensão mais humanística da tarefa teológica tomou posse e os teólogos começaram a recorrer a uma ampla gama de fontes além da Bíblia. Isso resultou em uma visão diminuída do significado da mensagem bíblica. Gostaria de incentivá-lo a resistir a esse desenvolvimento. Permaneça centrado na Bíblia e veja seu trabalho essencialmente como aquele que busca esclarecer o significado da mensagem bíblica para a nossa geração.

Gostaria também de salientar que sempre haverá pressão para deixar de lado os aspectos únicos de nossa teologia e experiência pentecostal para se encaixar mais facilmente nas tradições ou marcos teológicos existentes a fim de obter a respeitabilidade. Resista a essas pressões. A igreja precisa desesperadamente ouvir a voz distintiva do Movimento Pentecostal. Nossas próprias igrejas precisam ouvir e entender o que deu origem a esse avivamento incrível para que possamos transmitir a nossa mensagem e experiência para a próxima geração.

Gostaria de acrescentar que também precisamos entender nossa própria história, tanto a história mais ampla do moderno Movimento Pentecostal quanto a nossa história única e local: nesse caso, a incrível história do surgimento do Movimento Pentecostal no Brasil. Vejamos nossa tarefa como aquela que busca encorajar as igrejas pentecostais no Brasil, fornecendo a essa igreja uma mensagem clara – uma mensagem que decorre da nossa experiência tal como é examinada à luz da Bíblia. Essa mensagem também será esclarecida e aprimorada conforme compreendemos a nossa própria história e os temas e questões importantes que ela gerou.

4. Seu pai, William Menzies, foi um nome importante no diálogo entre pentecostais e católicos. Quais são as oportunidades e os perigos desse diálogo?

O diálogo pode ser instrutivo e útil se primeiro soubermos quem realmente somos. O perigo é que, se entramos em diálogo sem uma autocompreensão clara, podemos nos confundir e seremos manipulados. Meu pai sempre destacou a centralidade das Escrituras e de Cristo para a compreensão de quem somos como pentecostais. Enquanto os pentecostais pensam que a experiência espiritual é importante, meu Pai insistiu que toda experiência espiritual deve ser julgada pelos padrões da Escritura. Ele também era cético de qualquer ênfase no Espírito que minimizasse a importância de Cristo. Assim, quando os pentecostais entram em diálogo, nunca devemos perder de vista a nossa identidade bíblica e cristocêntrica.

Os benefícios do diálogo com outras tradições cristãs estão nas possibilidades de entendermos melhor nossos parceiros de diálogo e permitir que eles nos compreendam melhor. Espero que isso nos ajude a ver a riqueza da Sua revelação e de Seu corpo de forma mais completa e clara.

No entanto, devo notar que não estou muito interessado em dialogar se o objetivo é estabelecer algum tipo de unidade estrutural ou organizacional. A história da igreja, na minha opinião, não sugere que grandes estruturas hierárquicas da igreja promovam o verdadeiro crescimento ou uma espiritualidade profunda (por exemplo, observe as igrejas estatais). Estou convencido de que a riqueza do corpo de Cristo se reflete na bela diversidade que encontramos em Seu corpo ao redor do mundo.

Assim, não estou particularmente entusiasmado com a unidade estrutural em grande escala, mas sinto que precisamos nos esforçar por uma unidade espiritual no meio das nossas diversas expressões de igreja. Precisamos de sabedoria e compreensão para sermos capazes de discernir o que é importante e crucial (nos limites neotestamentários para a fé) e, também, o que são questões de menor relevância. Enquanto as nossas diversas tradições da Igreja podem destacar assuntos significativos, precisamos de sabedoria para poder afirmar os limites comuns que compartilhamos com os outros na fé e sermos capazes de aprender uns com os outros.

Que o Senhor nos ajude a sermos generoso em espírito, mas também comprometidos com a fé apostólica. Como um líder da igreja doméstica chinesa colocou: “Atos é o padrão para a missão da igreja. Se a igreja não segue o caminho da igreja primitiva, perderemos o caminho”. Eu oro para que o Senhor nos ajude a trilhar nossos relacionamentos com os cristãos de outras tradições para que possamos combinar um compromisso somado com os padrões apostólicos e com uma generosidade de espírito.

5. Que autores você recomenda para um estudo aprofundado da teologia pentecostal?

Meu pai, William Menzies, exerceu a maior influência na minha vida e teologia, tanto por meio de seus escritos e ensinamentos, quanto pelo seu exemplo piedoso. Eu não trocaria minhas conversas com ele por qualquer grau ou curso acadêmico . Além da influência do meu pai, fiquei muito abençoado pelos escritos de Roger Stronstad, em particular o trabalho em Lucas-Atos. Craig Keener também é um estudioso muito preparado e aprecio seus escritos. Eu também encontrei em Gordon Fee um autor muito útil, especialmente quando se trata dos escritos de Paulo e da discussão dos dons do Espírito. Chris Thomas, outro bom autor pentecostal, produziu grandes ensaios e livros sobre os escritos de João. Gostaria também de notar que Max Turner tem sido um parceiro de diálogo muito simpático e encorajador ao longo dos anos. Max é um bom estudioso do Novo Testamento e um maravilhoso irmão em Cristo. Tive o privilégio de estudar na Universidade de Aberdeen quando Max estava servindo na mesma faculdade e sempre olhou para trás com grande carinho e ação de graças.

Em termos de livros sobre teologia pentecostal, eu recomendo os seguintes:

Roger Stronstad, The Charismatic Theology of St. Luke (Peaboby, MA: Hendrickson, 1984).

William Menzies & Stanley Horton, Bible Doctrines: A Pentecostal Perspective (Springfield, MO: Logion Press, 2001). (Em português: Doutrinas Bíblicas: Uma Perspectiva Pentecostal, CPAD).

William Menzies & Robert Menzies, Spirit and Power: Foundations of Pentecostal Experience (Grand Rapids: Zondervan, 2000). (Em português: No Poder do Espírito: Fundamentos da Experiência Pentecostal, Editora Vida).

Robert Menzies, Pentecost: This Story is Our Story (Springfield, MO: GPH, 2013). (Em português: Pentecostes: Essa História é Nossa História, CPAD).

Douglas Jacobsen, ed., A Reader in Pentecostal Theology: Voices from the First Generation (Bloomington, IN: Indiana University Press, 2006).

Donald W. Dayton, Theological Roots of Pentecostalism (London: The Scarecrow Press, 1987).

Vinson Synan, The Century of the Holy Spirit: 100 Years of Pentecostal and Charismatic Renewal (Nashville, TN: Thomas Nelson Publishers, 2001). (Em português: O Século do Espírito Santo, Editora Vida).

6. Hoje é possível ver no Brasil um avanço do liberalismo teológico, mesmo entre os pentecostais. Qual o risco que o liberalismo teológico representa para o pentecostalismo?

Desde o início do avivamento pentecostal moderno, os pentecostais foram enraizados na Palavra de Deus e centrados em Cristo. Em outras palavras, os pentecostais são bibliocêntricos e cristocêntricos. A natureza centrada na Palavra do Movimento Pentecostal se reflete no fato de que ele começou em uma faculdade bíblica. A maioria dos historiadores aponta para um derramamento do Espírito Santo na escola bíblica de Charles Parham em Topeka, Kansas, em 1 de janeiro de 1901, como o início do moderno Movimento Pentecostal. A natureza centrada em Cristo do movimento é evidenciada pelo impacto missionário do pentecostalismo. Os missionários viajaram ao redor do mundo a partir do avivamento da Rua Azusa para declarar a mensagem de que Jesus é o Salvador, o Curador, o Batizador e o Rei que virá. Sim, nós pentecostais enfatizamos a obra do Espírito Santo, mas, no entanto, isso é porque vemos o trabalho do Espírito Santo no Novo Testamento e somos encorajados a experimentar o Seu poder em nossas próprias vidas (Lucas 11.9-13). Nós também reconhecemos que o Espírito Santo é o Espírito de Jesus. Jesus derrama a promessa do Pai (Atos 2.33) e o Espírito Santo procura trazer glória e louvor a Jesus (Atos 4.31; 10.39-46). Assim, o perigo que enfrentamos pela influência do liberalismo teológico é, portanto, duplo. A teologia liberal, que tende a elevar a cultura contemporânea acima da Escritura e do ensino apostólico, pode nos distrair do nosso compromisso com a Bíblia e também pode nos fazer perder de vista nosso foco em Cristo.

Como observei, a “teologia sistemática” tomou uma direção errada na última parte do século 19. Os teólogos começaram a perder de vista a realidade da presença de Deus em nosso mundo e o poder do evangelho. Assim, eles perderam a confiança na Bíblia como a Palavra de Deus e começaram a destacar as abordagens humanistas dos problemas de nossos dias, enfatizando os programas sociais e a ação política acima da proclamação do evangelho. Essa compreensão humanística da tarefa teológica também encorajou os teólogos a recorrer a uma ampla gama de fontes de conhecimento, exceto a Bíblia. A verdade apostólica foi descartada em favor da análise social e das estratégias políticas. O resultado foi uma igreja impotente dividida pelas diversas agendas sociais e políticas que seus líderes propuseram. Eu encorajaria vocês a resistirem a essa tendência. Permaneçam centrados na Bíblia e enraizados na mensagem apostólica. Reconheçamos que o chamado e o poder da igreja primitiva, conforme registrado no livro de Atos, permanecem válidos para nós. O chamado deles é o nosso chamado. A mensagem de Atos é também a nossa mensagem.

Alguns presumem que os pentecostais, porque destacamos a experiência e o trabalho do Espírito, são especialmente vulneráveis ​​à influência da teologia liberal. O pensamento aqui é que a fé que é fundamentada na experiência em vez de ser na Palavra de Deus se perde ou se desvia facilmente. No entanto, acho que essa imagem do Movimento Pentecostal não é precisa. É uma caricatura. Como observei, os pentecostais sempre foram “pessoas do livro” e nossa experiência, acredito, nos encoraja a ver a realidade do poder de Deus que trabalha em nossas vidas. Nossa experiência, então, é realmente um poderoso antídoto contra o liberalismo teológico. A resposta ao liberalismo teológico não é uma abordagem rigidamente cognitiva da fé, em vez disso, a resposta é precisamente o que encontramos na grande maioria das igrejas pentecostais: encontramos o Deus vivo através de experiências poderosas que são encorajadas e guiadas pela nossa leitura da Escritura. A superficialidade da teologia liberal é exposta quando comparada com a glória que o pentecostal experimenta ao entrar na poderosa presença de Deus.

No entanto, alguns teólogos estão tentando enfatizar a experiência do Espírito como uma ponte para outras religiões ou experiências religiosas em geral. Para fazer isso, eles procuram separar a obra do Espírito de Cristo. Essa é uma maneira perigosa e não bíblica de pensar sobre o trabalho do Espírito. Só sabemos que uma experiência ou evento é inspirado pelo Espírito se produz ou procura produzir testemunho e louvor a Jesus. Esse é um aspecto importante do ensino bíblico que os pentecostais precisam afirmar. Essa afirmação, juntamente com nossa ênfase na experiência guiada pela Palavra, nos ajudará a discernir a verdade do erro.

(Para mais informações sobre este tópico, veja meu recente artigo:, “The Nature of Pentecostal Theology: A Response to Kärkkäinen and Yong” na edição de outono de 2017 do The Journal of Pentecostal Theology).

7. Como está o avanço da igreja pentecostal na China? Podemos dizer que a China tem uma população cristã pentecostal?

Desde que Mao Tsé-Tung e os comunistas assumiram a China em 1949, a Igreja na China cresceu a passos largos, apesar de perseguições e oposições significativas. Antes de 1949, havia menos de um milhão de cristãos na China. Agora, entre 80 e 120 milhões de seguidores de Jesus na China. E por todas as contas, esse crescimento dramático tem sido impulsionado pelo surgimento de igrejas ou grupos pentecostais com padrões de culto e evangelismo de estilo pentecostal.

Uma pesquisa das maiores redes da igreja doméstica na China revela que a maioria é pentecostal em teologia e prática. A Igreja Fang Cheng (ou China para Cristo), a Igreja Li Xin (ou Zhong Hua Meng Fu), a Igreja Yin Shang (Anhui) e a Igreja Verdadeira de Jesus são todos grupos fortemente pentecostais. A Associação do Evangelho da China provavelmente deve ser categorizada como neopentecostal, embora seja também o lar de muitos pentecostais. A igreja de Wenzhou estabelecida por Miao Zhitong também pode ser descrita como neopentecostal. Os grupos não pentecostais incluem a Igreja da Palavra de Vida (ou Nascida de Novo), estabelecida por Peter Xu, e o Pequeno Rebanho de Watchman Nee (Xiao Qun), bem como uma série de grupos menores que são amplamente reformados em teologia e seguem o ensinamento cessacionista do pastor chinês-indonésio Stephen Tong.

Nada disso deve nos surpreender. O fato é que as três maiores igrejas chinesas independentes que surgiram no início do século XX, antes de 1949 (A Igreja do Verdadeiro Jesus, O Pequeno Rebanho e a Família de Jesus), duas eram pentecostais. E um desses grupos pentecostais, a Igreja do Verdadeiro Jesus, foi de longe o maior grupo de igrejas indígenas chinesas daquela época. Esse fato, aliado ao impacto significativo da forma pentecostal de reavivalismo que varreu a China na década de 1930, indica que a maioria dos cristãos chineses antes de 1949, quando foram capazes de desenvolver sua própria identidade cristã, gravitavam em formas pentecostais de culto e doutrina. O cristianismo chinês indígena era predominantemente pentecostal.

Hoje, o movimento das igrejas em casa continua a florescer na China. Como observei, as igrejas domésticas, em contraste com a maioria das igrejas sancionadas ou “oficiais”, são em grande parte pentecostais em teologia e prática. Eu acrescentaria, o caráter pentecostal do movimento das igrejas em casa explica sua natureza missionária. Um bom exemplo desse impulso missionário é o movimento das Missões da China 2030. Recentemente, eu me encontrei com o irmão Zhang, um líder chave da Associação do Evangelho da China (CGF) e uma voz importante do movimento das Missões da China 2030. Ele explicou que a visão do movimento das Missões da China 2030 (uma iniciativa da igreja doméstica chinesa) é que a igreja chinesa envie 20 mil missionários para outras nações (principalmente nos países entre a China e Jerusalém) e para os grupos minoritários não alcançados na própria China. O irmão Zhang disse que os países ocidentais enviaram 20 mil missionários para a China na era pré-Mao e a igreja chinesa agora quer pagar essa dívida enviando 20 mil missionários pelo mundo. Quando o irmão Zhang compartilhou essa visão, lembrei-me de que as igrejas domésticas gostam de cantar uma música baseada em Atos 1.8. Certamente, o movimento das Missões da China 2030 é um cumprimento da maravilhosa promessa de Jesus contida nesse versículo.

8. Existem inúmeras obras no Brasil sobre a sociologia do pentecostalismo, mas quase nada sobre a teologia do pentecostalismo. Esse fenômeno é igual nos Estados Unidos?

Esta é uma tendência em todo o mundo. Devido ao seu crescimento incrível, o Movimento Pentecostal está recebendo muita atenção de estudiosos em uma ampla gama de campos, especialmente de sociólogos. Um erudito, Philip Jenkins, descreve o pentecostalismo como o “movimento social” mais bem sucedido do século XX. Esse sucesso gerou um interesse significativo, e esse interesse estimulou uma série de estudos sobre o Movimento Pentecostal pelos sociólogos. Uma vez que os sociólogos estão associados às comunidades acadêmicas e não necessariamente à igreja (de fato, muitos operam com uma visão de mundo e vieses relacionados que não permitem espaço para a intervenção de Deus em nosso mundo), muitas vezes lutam para entender a verdadeira dinâmica que molda a fé e as comunidades pentecostais.

Um bom exemplo é o livro de Lian Xi, Redeemed by Fire: The Rise of Popular Christianity in Modern China (New Haven: Yale University Press, 2010). Neste livro, Xi fala de “êxtases pentecostais” com desdém. Sua perspectiva reducionista o cega ao legado incrivelmente positivo deixado por um século de pioneiros pentecostais. De acordo com Xi, manifestações pentecostais como cura, exorcismos, visões e línguas são sintomas gerados por uma vida de privação e empobrecimento. Mas esse julgamento, que muitas vezes foi defendido por uma geração anterior de sociólogos, agora está fatigado e desatualizado. Provou-se que se baseia em premissas defeituosas (“essas experiências são o resultado da pobreza e da opressão”) e simplesmente não reflete com precisão os dados atuais disponíveis. Por exemplo, Max Turner escreve: “Contrariamente às afirmações anteriores, não há evidências de que o ‘discurso das línguas’ esteja correlacionado com o baixo intelecto, a educação, a posição social ou a psicologia patológica” (The Holy Spirit and Spiritual Gifts: Then and Now, 305) . Mais importante ainda, esse julgamento perde o incrível impacto que a fé pentecostal está tendo nos fiéis em todo o mundo. Como observa o sociólogo David Martin, os pentecostais estão tendo um tremendo impacto entre os pobres da América Latina, precisamente por causa da clareza de sua mensagem, enraizada na Bíblia. Com referência aos desafios enfrentados pelas famílias pobres no Brasil, que são muitas vezes devastadas pela atração de “uma cultura de machismo, bebida, opressão sexual e carnaval”, Martin escreve: “É uma disputa entre o lar e a rua, e o que restaura a casa é a descontinuidade e a transformação interna oferecidas por uma fé exigente e disciplinada com limites firmes” (Pentecostalism: The World Their Parish, pp. 105-106).

Os sociólogos podem observar e comentar as realidades externas. Raramente, porém, eles têm a capacidade de sondar o mais profundo e ver as realidades espirituais subjacentes que estão no trabalho dos pentecostais. Esta é uma das razões pelas quais a teologia, que é uma tentativa de descrever a revelação de Deus, a explicação de Deus sobre suas ações, é tão importante. Leva-nos ao cerne da questão. O Movimento Pentecostal não pode ser compreendido apartado de suas convicções teológicas que fluem da Bíblia.

Esperamos ver mais e mais pentecostais brasileiros escrevendo sobre sua fé, suas experiências, suas igrejas e sua teologia. Só então seremos realmente capazes de compreender a verdadeira natureza do Movimento Pentecostal no Brasil. Esses trabalhos nos ajudarão a ultrapassar as avaliações frequentemente superficiais e fortemente tendenciosas fornecidas pelos sociólogos. Embora talvez eu deva acrescentar que muitos sociólogos, como David Martin, têm realmente feito um trabalho muito bom sobre o impacto positivo das igrejas pentecostais em várias partes do mundo. No entanto, precisamos ouvir os pentecostais escrevendo sobre suas próprias experiências e, também, suas reflexões teológicas com base nessas experiências.

9. Como você vê o futuro da fé pentecostal?

Eu acredito que os historiadores vão olhar para trás e verão o Avivamento da Rua Azusa e o surgimento do moderno Movimento Pentecostal como um dos grandes momentos da história da Igreja. Eu escrevo essas palavras em 31 de outubro de 2017, no 500º aniversário da Reforma Protestante. Assim como hoje, olhamos para a Reforma como um dos grandes eventos da vida da Igreja, do mesmo modo que as gerações futuras voltarão a olhar para o surgimento do Movimento Pentecostal. Claro, para que esse seja o caso, o pentecostalismo deve continuar a florescer.

E acredito que florescerá. Por quê? Porque é um movimento, como a Reforma, enraizado em uma nova apropriação da verdade revelada na Palavra de Deus. Lutero e a Reforma nos chamaram a ver mais uma vez a verdadeira natureza do evangelho. O Movimento Pentecostal nos convida a ver mais uma vez a realidade e o poder presentes do Espírito de Deus, que se deleita em inspirar atos audaciosos e louvores por Jesus.

Enquanto seguimos o padrão apostólico, Deus construirá Sua igreja. Meu amigo chinês declarou esse ponto com força: “O Livro de Atos é o padrão para a missão da igreja. Se a igreja não segue o caminho da igreja primitiva, perderemos o nosso caminho”. No entanto, o contrário também é verdade: “Se seguirmos o caminho da igreja primitiva, não vamos perder o nosso caminho”. Essa é a minha oração pela igreja no Brasil, na China e em todo o mundo.

4 comentários em “O Blog Teologia Pentecostal entrevista Robert P. Menzies

  1. Artigo bastante esclarecedor sobre o movimento pentecostal. Não podemos perder de vista nossas origens neotestamentaria, nossas práticas e convicções bíblicas e sobretudo a lição de que tudo deve ser para gloria de Cristo.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Entrevista incrível.
    Destaco essa parte que reflete muito do que tenho visto hoje em dia. …sempre haverá pressão para deixar de lado os aspectos únicos de nossa teologia e experiência pentecostal para se encaixar mais facilmente nas tradições ou marcos teológicos existentes a fim de obter a respeitabilidade. Resista a essas pressões…

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  3. Amei a entrevista! Sucinta e esclarecedora!
    O Dr. Robert Menzies tem sido um divisor de águas para nós pentecostais, principalmente na formação de argumentação acadêmica. Pois a caricatura que sempre fizeram do pentecostalismo foi do ênfase exagerado às experiências em detrimento a fundamentação bíblica, caricatura claramente desmentida na entrevista!
    Obrigado Gutierres, por nos presentear com tão grande conteúdo.

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