Teologia Sistemática

A salvação pela graça

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Porque pela graça sois salvos (apóstolo Paulo).

Como é maravilhoso celebrar a graça de Deus! Lembro-me que, em muitos cultos quando eu era adolescente, o pastor jubilado da igreja onde eu congregava, uma pequena Assembleia de Deus, cantava uma versão em português do famoso hino Amazing Grace (Maravilhosa Graça). Esse ministro já falecido musicava: “a graça de Deus me resgatou da morte e da perdição, agora tenho paz e paz no coração, porque Cristo me salvou”. Era impossível ficar indiferente diante da verdade desse louvor. Também, com grande alegria, ainda hoje canto o hino 205 da Harpa Cristã que tem o título “Graça, Graça”. Logo em seu início, a letra diz: “A graça de Deus revelada em Cristo Jesus, meu Senhor, ao mundo perdido é dada por Deus d’infinito favor”. Simplesmente, é gratificante cantar sobre o dom da graça de Deus. Celebrar a salvação efetuada por Cristo nunca enjoa e jamais causa tédio. Não é à toa que a eternidade será plena de louvor! 

Mas o que é a graça?  A graça é uma iniciativa divina; não é uma conquista humana. A graça é um gesto espontâneo da bondade de Cristo e é uma das raras preciosidades na vida que não tem um preço a pagar. A graça é uma relação qualificada e iniciada livremente pelo “Pai das misericórdias” para alcançar o homem que tateia na escuridão. Essa graça em nada depende de “qualquer coisa que o homem faça ou deseje” (1). Quando Deus nos chama é graça, quando respondemos a esse chamado é igualmente graça. A graça sobressai infinitamente sobre toda a força humana. A graça, como escreveu John Stott, é o ato de Deus de “amar o não-amável, buscar o fugitivo, resgatar o desesperançado e erguer o mendigo das sarjetas para fazê-lo sentar-se com príncipes” (2).

cruz2017

Paradoxalmente, a doutrina da graça é cantada, celebrada e de fácil entendimento, mas, ao mesmo tempo, muitas crenças evangélicas refletem uma deficiência na compreensão da graciosidade de Deus. Há quem pense, por exemplo, que na Antiga Aliança, a salvação era meritória. Não, nada disso. A única base para a salvação é a graça, tanto no Antigo como em o Novo Testamento. A salvação, mesmo na Antiga Aliança, nunca se baseou nos méritos humanos. Israel, como nação escolhida, teve esse privilégio exclusivamente pelo amor de Deus (cf. Dt 7.7-9).

A crença na graça de Deus necessita de uma forte compreensão sobre o estado espiritual do homem. É simplesmente incompreensível como alguém pode celebrar a graça se, ao mesmo tempo, celebra a sua própria “bondade” inata. Por que Deus manifestaria misericórdia num antro de anjos? Quem aprecia a doutrina da graça não deve se esquecer da doutrina da depravação total. A doutrina da depravação total, vale lembrar, não quer dizer que todos os homens sejam psicopatas ou estupradores sádicos, mas sim, que o pecado afetou a totalidade do ser, ou seja, que todas as suas vontades, pensamentos, racionalidades, relacionamentos e emoções estão viciadas e impregnadas pelas insuficiências e distorções do pecado. Ontologicamente, o homem tem a marca constante da transgressão e é frágil como um vaso de barro. Mas, graças ao bom Jesus, “temos, porém, esse tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós” (2 Co 4.7).

Diante da consciência da graça encaramos a grandeza de Deus. Martinho Lutero escreveu:

Deus é o mais elevado e nada existe acima dEle. Ele não pode olhar para além de si; também não pode olhar para os lados, porque ninguém é semelhante a Ele. Por isso há que dirigir seu olhar necessariamente para si mesmo e para baixo; quanto mais baixo alguém está, tanto melhor Ele o enxerga. (3)

“E, por fim, a graça não nos é dada só para fazermos com mais facilidade o que poderíamos realizar sem ela, mas é absolutamente necessária para cumprirmos os mandamentos divinos”, como escreveu Luís Ladária (4). A crença na graça de Deus desestrutura nossa autossuficiência. O ecoar da “minha graça te basta” (2 Co 12.9) desfaz qualquer pretensão de domínio humano e centralidade do eu. Aprendemos, dessa forma, a arte da dependência. Quando o crente se submete a Deus, ele tem “consciência de sua relação filial com o Pai” (5) e tal fato aumenta o senso da graça. Sim, dependemos de Deus não apenas na salvação, mas na santificação e no viver diário. Como disse Kevin Vanhoozer: “a graça é especialmente incômoda para quem tem mania de controle – pecadores curvados sobre si mesmos, inclinados a garantir sua própria existência e seu status” (6). Não só o controle da própria vida, mas com a graça, perdemos o controle sobre a vida do outro. Se ministros e despenseiros do Evangelho somos, assim somos na qualidade de mordomos e não de donos.

Ao mesmo tempo que a graça de Deus derruba toda prepotência, dá ao crente a boa segurança de sua salvação. A graça nos lembra que a garantia da nossa salvação está em Cristo, não em nós, e que Deus, nosso pai, nos vê através de Cristo. Cristo é a mediação que nos une ao Pai. A segurança da salvação permite ao cristão desfrutar de uma verdadeira paz com Deus, aquela paz que excede todo o entendimento, vivemos sem o peso de um fardo que Cristo já carregou. É a confiança e a esperança no “está consumado” dito por Jesus na dureza da cruz. Sim, com a graça é possível desfrutar de uma alegria radiante de quem na terra já pode contemplar o pedaço da glória eterna. Ou, como diz o hino:

A graça de Deus é mais doce,

Do que bens terrestres daqui;

Em gozo meu choro tornou-se

Correndo Sua graça p’ra mim.

Mais alta que nuvens celestes,

Mais funda que profundo mar,

A fonte da vida fizeste,

Na qual nos podemos fartar.

Obrigado, Senhor, pela Tua graça.

_______________________________________________________________________

Referências:

(1)  TILLICH, Paul. Teologia Sistemática. 5 ed. São Leopoldo: Editora Sinodal, 2005. p 289.

(2) STOTT, John. Understanding the Bible. 1 ed. Grand Rapids: Zondervan, 1980. p 127.

(3) SANTOS, Vantuil. Lutero: Época, Vida, Legado. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2017. p 141.

(4) LADÁRIA, Luís. Introdução à Antropologia Teológica. 3 ed. São Paulo: Edições Loyola, 2007. p 112.

(5) COUTO, Geremias do. A Transparência da Vida Cristã. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2001. p 223.

(6) VANHOOZER, Kevin J. Autoridade Bíblica Pós-Reforma. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2017. p 67.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s