Liturgia

Em defesa do culto litúrgico-carismático!

Por Gutierres Fernandes Siqueira

O culto deve ser ritualista ou espontâneo, tradicional ou contemporâneo, litúrgico ou carismático, regulado ou eletrizante? Os cristãos há tempos discutem qual é o melhor modelo de liturgia e, diante desse dualismo, qual lado está correto? Ou melhor, qual lado é o mais bíblico? É consenso que a adoração pública reflete a teontologia dos cultuantes, ou seja, a forma como um povo adora mostra a compreensão desse mesmo grupo sobre quem é Deus – Lex orandi lex credendi – a Igreja expressa por meio de sua devoção o que realmente crê. O culto tem uma importância vital para a manutenção da saúde das congregações. Um culto sem uma marca bíblica naufragará a congregação no decorrer do tempo.

liturgia 2.jpg

Nesse debate infindável sobre a melhor maneira de conduzir um culto, o primeiro ponto que precisa ser contestado é o próprio dualismo entre formalidade e informalidade. De fato, precisamos abraçar apenas uma alternativa? O culto, enquanto construção comunitária, não pode mesclar o ritual com o espontâneo? Aliás, desde quando é possível agir espontaneamente o tempo todo sem qualquer parâmetro ou direção? Os primeiros cristãos se dividiam entre a razão e a emoção no ato de cultuar? É sempre desejável que o que é programado não seja modificado ou adaptado conforme uma necessidade específica numa rigidez inflexível? Até onde o gosto pessoal do ministro local, seja ele mais tradicional ou moderninho, reflete na liturgia da sua congregação?

O segundo mito a ser superado nesse debate é a tentativa de achar um “Livro de Levítico” neotestamentário. Não há um guia de adoração no Novo Testamento. Caso não existissem excessos na Igreja de Corinto, não haveria instruções de limitação e controle escritas pelo apóstolo Paulo. Como lembra Timothy Keller: “A Bíblia pode nos oferecer elementos básicos de adoração coletiva, mas nos deixa livres com relação aos estilos, às formas e à ordem desses elementos”[1]. Mas há um princípio muito claro no Novo Testamento: a construção contínua de uma comunidade moldada pelo fruto do Espírito no e através do momento de adoração.

É sabido que qualquer proposta de superar dicotomias está sujeita a críticas. Dizem que o processo de juntar “desiguais” é árduo, inútil e inviável. Muitas vezes a tentativa de superar divisões é vista com desconfiança e até mesmo como arrogância ou ingenuidade. De fato, o meio complexo é sempre mais difícil dos que os extremos simplificados, como escreveu a teóloga Melaine Ross[2]. Mas, vale lembrar, que é a própria Bíblia que dá sustentação para modelos tradicionais e carismáticos de culto. Ora, se a Escritura abre espaço para esses entendimentos diversos é bem provável que Deus, o autor da Escritura, não queira criar nesse assunto nenhum tipo de rivalidade ou sectarismo. Não que a Bíblia seja ambígua, mas muitos leitores, infelizmente, tendem a ler a Escritura conforme preferência pessoal, assim fazendo a Escritura serva de si mesmo.

O texto por excelência sobre a adoração coletiva no Novo Testamento é 1 Coríntios 14, onde Paulo discute o papel dos dons espirituais no exercício do culto – especialmente do falar em línguas e a profecia. O versículo chave do capítulo é o 26: “Que fareis, pois, irmãos? Quando vos ajuntais, cada um de vós tem salmo, tem doutrina, tem revelação, tem língua, tem interpretação. Faça-se tudo para edificação” (grifo meu). É impossível ignorar a ênfase paulina na liturgia edificante, ou seja, formativa. Como escreveu N. T. Wright: “É melhor beber vinho de um copo do que lambê-lo da toalha de mesa”[3]. Ou seja, é melhor experimentar o culto dentro de uma forma do que perder a oportunidade de vivenciá-lo por causa do caos produzido pela euforia humana. Mas, ao mesmo tempo, um copo sem vinho é apenas um copo vazio e que não alimenta. O vinho, nessa analogia, simboliza a presença ativa do Espírito Santo. É necessário um equilíbrio muito delicado no culto entre fervor e reflexão, razão e emoção, entusiasmo e contrição etc. Lamentavelmente, é sempre mais confortável correr para o racionalismo ou o emocionalismo, sendo que ambos desprezam o caráter formativo da adoração – ora porque confundem culto com sala de aula ora porque confundem culto com show. O próprio Jesus já ensinava que a adoração é a mescla entre “espírito” e “verdade” (João 4.23).

Em nenhum lugar das Escrituras se ensina que a adoração cúltica seja uma espécie de apresentação a ser consumida pela divindade na forma de entretenimento ou que seja mero louvor que lisonjeia um deus passivo e indiferente em busca de despertá-lo para a ação. Essa concepção, diga-se de passagem, é pagã. O culto cristão, necessariamente, envolve a própria presença ativa de Deus (Mateus 18.20). Deus não é mero expectador, como um crítico de jornal que senta nas últimas fileiras de um teatro para escrever no caderno de cultura a análise de determinada peça. O culto envolve Deus, a liderança litúrgica e toda a congregação. Nesse modelo triangular não há espaço para o ritualismo vazio do tradicionalismo morto e o mero entretenimento da geração self viciada em sua própria imagem. O que liga o liturgismo per si e o culto-show é a centralidade da liderança litúrgica. Não há nenhuma conexão entre Deus e a congregação que supostamente está ali para cultuar. Em ambos os modelos nem Deus nem a congregação tem um papel ativo no culto.

É necessário entender que o culto não existe sem a tríade: Deus, ministrante e congregação. Qualquer culto centrado no indivíduo, seja ele o ministrante ou o ministrado, é um desvio do entendimento bíblico de culto. O teólogo Robert E. Webber faz uma observação pertinente sobre esse ponto:

Os evangélicos geralmente definem o culto de duas maneiras, mas nenhuma delas agarra o imperativo bíblico de culto. O primeiro vê a adoração como atribuindo valor a Deus. Nessa definição de meia verdade, o ônus da adoração é colocado sobre a comunidade de adoração. A comunidade de culto, ao que parece, deve originar palavras e sentimentos de louvor através da música e da oração que Deus achará agradável. O segundo é uma abordagem de apresentação para o culto. Aqui, a adoração consiste em uma série de apresentações embaladas para o “público”, para que possam ouvir a mensagem. O erro de ambas as formas de adoração é que eles não reconhecem o lado divino da adoração.[4]

Como escreveu o grande teólogo Joseph Ratzinger: “o verdadeiro dom a Deus só pode ser de si mesmo”[5]. A adoração deve ser entendida como uma reação humana a ação primária de Deus; não como um modelo de despertá-lo. Não é exagero afirmar que uma adoração carismática ou litúrgica formal pode entender perfeitamente ou distorcer tragicamente esse sentido bíblico de culto. Mais do que o modelo em si, o que deve orientar o cristão em seu culto são os valores da verdadeira adoração. Só há boa liturgia onde há boa teologia de adoração.

A importância da adoração carismática

É impossível ignorar que o culto neotestamentário era fortemente marcado pelos dons espirituais e pela expectação da manifestação divina. Como lembrado acima, Deus, nas Escrituras, não é mero observador do culto, mas está totalmente envolvido em Sua ação graciosa. O grande erudito anglicano Larry W. Hurtado escreve sobre esse assunto lembrando que:

A adoração nos primeiros grupos cristãos era comparativamente informal e, em princípio, aberta a contribuições dos membros que se sentissem inspirados ou a quem os demais considerassem agraciados por Deus. (….) Em outras palavras, para os cristãos daqueles primeiros tempos, o culto não era simplesmente um exercício religioso de que participavam, uma oportunidade para reafirmar aquilo em que criam e tomar parte de seus rituais. Era uma ocasião para a manifestação e a experiência dos poderes divinos. Nesse sentido, parece que as expectativas eram sempre elevadas durante o culto, porque se esperava que o encontro com Deus fosse exuberante.[6]

O que muitos liturgistas rígidos ignoram é que a adoração carismática também é formante. A estrutura do culto carismático confecciona um senso muito forte a respeito do “sagrado”. Diferente de hoje, o culto pentecostal clássico costumava variar entre a celebração festiva e a contrição de arrependimento. Ora, qualquer um que passe por uma experiência carismática será verdadeiramente moldado e, por que não dizer, totalmente transformado – não há nada mais formante do que isso. A própria perspectiva de ser um agente de Deus – enquanto portador de um dom espiritual – é um processo elucidativo sobre o papel do homem na economia divina. Há, na adoração carismática equilibrada, um sentido tangível e, nesse aspecto, é improvável passar por essa experiência com indiferença. Por exemplo, foi o impacto da experiência religiosa na igreja primitiva que permitiu uma revolução na devoção judaica monoteísta exclusivista e, consequentemente, abriu espaço para o culto a Jesus, como defende Larry Hurtado[7]. A experiência é formadora e transformadora a partir do momento em que tornar a relação com Deus mais viva e real. Não é à toa que o liberalismo rígido, que nega o sobrenaturalismo, dificilmente alcança o pentecostal praticante. O liberal de cunho iluminista não tem argumentos cognitivos convincentes diante de alguém que acredita piamente que Deus falou e agiu no momento de sua necessidade.

Outro ponto é que a adoração carismática equilibrada é marcada pela verticalidade, onde o centro do culto é a pessoa de Jesus Cristo pela ação do Espírito Santo numa exaltação de Deus Pai. O culto carismático tem uma natureza espontânea, mas não deve se pautar pela baderna. Em 1 Coríntios 12-14 há inúmeras diretrizes de como o culto deve ser conduzido para evitar o sufocamento da dinâmica do Espírito, assim como, e especialmente, para evitar a bagunça que atrapalha a edificação. Assim como é possível produzir ritos vazios e sem significado, é também possível construir uma via carismática desprovida de edificação e embevecida pela sua própria exuberância. Embora sempre haja a tentação de atribuir ao homem a proeminência do culto, como visto na Igreja de Corinto, a adoração carismática não pode ser rejeitada, logo porque ela é genuinamente bíblica. Desde o início do pentecostalismo o exagero já era combatido pelos pioneiros. Exemplo disso é um artigo do pioneiro pentecostal William J. Seymour que, no jornal Apostolic Faith de 1908, escreve: “Mantenha seus olhos em Jesus e não nas manifestações, não procurando obter algo grandioso (…) Se você tem seus olhos em manifestações e sinais, você é suscetível de obter uma falsificação (…)”[8].

A importância da adoração litúrgica formal

Nas Escrituras, a adoração abrange dois reinos- o celestial e o temporal. Há, assim, uma sobreposição de territórios nos atos de adoração. O culto é transcendente e territorial. Esse culto está ligado com realidades eternas e com realidades patentes. “Tudo o que vocês ligarem na terra terá sido ligado no céu, e tudo o que vocês desligarem na terra terá sido desligado no céu.”, disse Jesus (Mateus 18.18 NVI). Nesse contexto, a liturgia precisa trabalhar a formação em todas as suas formas – a liturgia ajuda o cristão a ser um agende do Reino de Deus[9]. Isso porque só é possível adorar bem quando se tem um bom entendimento de quem se adora, mesmo fora do ambiente de culto. E é no contexto do culto onde a igreja encontra edificação em cada manifestação. Por isso, todo cristão precisa de uma liturgia formal, seja ela manifestada em ordenanças- Ceia do Senhor e batismo, seja ela manifestada nos diversos elementos – música, oferta, sermão, leitura pública, oração, leitura do Credo e bênção apostólica.

O culto não é palco de apresentações. O culto não é um laboratório de experimentos sociais ou espaço para a criatividade do show business. O culto também não é o programa The Voice a fim de revelar determinado prodígio. O culto, como diz a Declaração de Fé das Assembleias de Deus, é “um encontro com Deus para um diálogo”[10]. O culto é adoração pública e coletiva. Embora seja celebrativa, nem sempre pode ser resumida como um clima festivo. O culto também é espaço de contrição, arrependimento, exortação e até de silêncio.

Cada cristão necessita da formação proporcionada pela liturgia formal. A leitura pública das Escrituras forma uma sensibilidade para a importância do conhecimento compartilhado na comunidade. A leitura dos credos ecumênicos ou a leitura de trechos das “declarações de fé” fortificam a base doutrinária da Igreja. Os lecionários indicam continuidade e tradição e as leituras diárias das Escrituras indicadas em revistas de Escola Dominical ajudam a formar uma cadeira de aprendizado e repetição de temas essenciais para a fé cristã. E o que falar da Ceia do Senhor? Ela é tão importante que a igreja do primeiro século a celebrava todo domingo – e a igreja contemporânea faria bem em fazer da mesma forma. Os hinos temáticos, especialmente dos hinários, ajudam a amarrar a mensagem central do culto. Portanto, a liturgia formal é vida, pois cria um ambiente de constante alimento para a alma. Toda a estrutura da liturgia formal enaltece o princípio da edificação.

Portanto, a congregação que souber equilibrar o carisma com rituais, os dons espirituais com lecionários, o falar em línguas com a leitura do Credo, a profecia com a exposição sólida das Escrituras etc. não só será um exemplo de equilíbrio, como associará o melhor dos princípios cúlticos do Novo Testamento. A edificação é a chave. A adoração deve nos alimentar em espírito e verdade, emoção e razão etc. A adoração combinada entre a tradição e a renovação vai além de uma concha de retalhos, logo porque a mera junção não é desejável, mas procurar reprensar a adoração cristã como a construção de uma comunidade que é transformada e alimentada por Deus através de cada elemento de culto. O culto é uma manifestação da graça de Deus.

Referências:

[1] KELLER, Timothy. Adoração Reformada Globalizada. Em: CARSON, D. A. (ed.) Louvor: Análise Teológica e Prática. Kindle ed. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017. p 4558.

[2] ROSS, Melaine. Evangelical Versus Liturgical? Defying a Dichotomy. ePub ed. Grand Rapids: Eerdmans, 2014. p 17.

[3] WRIGHT, N. T. Paul for Everyone: 1 Corinthians. ePub ed. Londres: SPCK, 2013. p 234.

[4] WEBBER, Robert. Worship, Old And New. ePub ed. Grand Rapids: Zondervan, 2009. p 442.

[5] RATZINGER, Joseph. O Espírito da Liturgia. 1 ed. São Paulo: Edições Loyola, 2013. p 31.

[6] HURTADO, Larry W. As Origens da Adoração Cristã. Kindle ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2011. p 994, 1664. O teólogo assembleiano Gordon Fee afirma a mesma coisa: “Dos dados disponíveis, o mais digno de nota talvez seja a natureza livre e espontânea da adoração nas igrejas de Paulo, aparentemente orquestrada pelo próprio Espírito” (FEE, Gordon D. Paulo, o Espírito e o Povo de Deus. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2015. p 192).

[7] HURTADO, Larry W. Senhor Jesus Cristo: Devoção a Jesus no Cristianismo Primitivo. 1 ed. São Paulo: Paulus e Academia Cristã, 2017. p 103-110.

[8] SYNAN, Vinson e JR. FOX, Charles. William Seymour: a Biografia. 1 ed. Natal: Editora Carisma, 2017.p 67.

[9] Sobre a ligação entre liturgia e ação pública veja: SMITH, James K. A. Awaiting the King: Reforming Public Theology. 1 ed. Grand Rapids:Baker Academic, 2017. Em um grau secundário sobre o assunto, veja: VOLF, Miroslav e McANNALLY-LINZ, Ryan. Public Faith in Action: How to Engage with Commitment, Conviction and Courage. 1 ed. Grand Rapids: Brazos Press, 2016.

[10] Declaração de Fé das Assembleias de Deus, XV. 1.

2 comentários em “Em defesa do culto litúrgico-carismático!

  1. A paz do Senhor
    A liturgia nas igrejas pentecostais sempre foi alvo de chacota por parte dos tradicionais. Confesso que tenho percebido uma grande mudança na liturgia, pelo menos na Assembléia de Deus, a “meninice” diminuiu bastante, isso de uns 6 anos pra cá. Você acredita que isso tem relação com o que muitos chamam de “presbiterianização” da Assebléia de Deus?

    Curtir

  2. Interessante seu texto, hoje percebe se que o culto perdeu seu sentido, visto que muitas reuniões se tornaram momentos sociais afim de agradar seus frequentadores para que voltem na proxima reunião.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s