Devocional

O discernimento é um exercício que começa no “eu”


Por Camila de Oliveira Rauber

O que as pessoas podem conhecer? Você conhece o seu vizinho? O seu esposo? A sua esposa? O seu filho? A sua mãe? Um caminho possível para construção de uma resposta é afirmar que o conhecimento da realidade é limitado e, com isso, um único indivíduo não pode conhecer todas as coisas, e nem todas as pessoas. Em Lucas 6.44, Jesus dá um exemplo do que e como alguém pode conhecer/reconhecer algo: a árvore é conhecida pelo seu fruto. Essa parábola da árvore e seu fruto é bastante intuitiva: uma pessoa sabe que está defronte de uma macieira porque conhece/reconhece que o fruto produzido é uma maça, não uma goiaba. No entanto, o foco de Jesus não estava na árvore, mas no ser humano, um ser infinitamente mais complexo do que uma árvore. O que nos leva a pensar que tal conhecimento pode não ser tão simples como parece, ou, de fato, como disse Jesus, basta olhar para o fruto do indivíduo para saber que tipo de pessoa ele é?

A resposta é sim. O fruto do ser humano é percebido por meio de suas ações. As ações não enganam. Os fatos estão declarados e transparentes. O que engana é a nossa mania de ignorar o fruto em nome de uma idealização. Uma hora ou outra a ação revela a essência. A Bíblia não separa crença de atitude, nem ortodoxia de prática.

Porém, será que é fácil perceber o outro? Por exemplo, quando alguém fala ou escreve assuntos que geram boas reflexões sobre Deus podemos reconhecer, partindo de Lucas 6.44, que tal ação pode ser qualificada como boa. Mas, e se alguém descobre que a motivação desse indivíduo é torpe, ou seja, ele simplesmente tem um desejo de reconhecimento, aplauso, destaque ou qualquer coisa que satisfaça unicamente seu eu, assim, continuaria o fruto dessa pessoa ser considerado como bom? A continuação do texto de Lucas diz assim: “O homem bom tira coisas boas do bom tesouro que está em seu coração, e o homem mal tira coisas más do mal que está em seu coração, porque a sua boca fala do que está cheio o coração” (Lucas 6.45). O que se percebe a partir dessa passagem é que o olhar para o fruto do homem, seja seu próprio fruto ou de outrem, não é simplesmente identificar o ato em si, mas a motivação por detrás desse ato, pois é esta que revela a real qualidade do fruto. Aqui se entra naquilo que se pode afirmar como conhecimento, de um lado, e aparência de outro, onde se verifica que conhecer ou reconhecer uma árvore vai muito além das impressões que certa ação pode causar. Com moderação e reflexão é possível perceber que a motivação sempre aparece. 

Mas, para encerrar, como reconhecer o fruto em outro individuo? Como analisar motivações? Em primeiro lugar, a Bíblia ensina o autoexame, e não o exame do outro. Nós precisamos encarar quais são as nossas reais motivações em boas ações. Quando analisamos a nossa motivação criaremos, como o tempo, a capacidade de discernir e perceber os pequenos sinais do que é fruto de uma motivação pura ou vaidosa. A escola que ensina esse discernimento é quando a árvore olha para o próprio fruto, para a própria motivação, assim, no decorrer do tempo, será possível abraçar a sabedoria que sabe analisar, refletir e separar o que é bom e o que é mal. Portanto, não tente discernir o outro em primeiro lugar. Faça a sua autoanálise. Julgue a si mesmo. Só assim você poderá exercer juízo com sabedoria. Só se ganha corpo e experiência em discernir o que é fruto podre de fruto bom, aquele que faz em si mesmo essa sábia atividade frequentemente.

Camila de Oliveira Rauber é bacharel e licenciada em filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Mestranda em filosofia pela URFJ com passagem pela Universidad de Buenos Aires (UBA). Com a colaboração de Gutierres Fernandes Siqueira, editor deste blog.

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