Ética Cristã · Subsídio da EDB

Lição 1: O que é ética cristã

Por Gutierres Fernandes Siqueira

A ética cristã é uma reflexão sobre o correto e o impróprio a partir das Sagradas Escrituras, em primeiro lugar, e da tradição da Igreja, secundariamente. A ética cristã se diferencia da moral cristã, pois a segunda diz respeito a prática, enquanto a primeira é a justificação escriturística, racional e filosófica da primeira. Cabe lembrar, porém, que a ética cristã não é apenas descritiva, mas normativa, isso porque ela lida com a Revelação de Deus a partir da própria Palavra. A ética cristã, especialmente protestante, lembra que o fundamento ético por excelência é o nosso Cristo numa dança da Trindade, ou seja, só conseguimos abraçar uma vida moralmente justa a partir da graça de Deus em Cristo Jesus operada pelo Espírito Santo.

etica

Neste artigo quero tratar de alguns equívocos comuns relacionados à ética cristã, especialmente no meio evangélico brasileiro, do qual o autor deste texto faz parte como ativo participante de uma comunidade eclesiástica. A ética cristã, assim como qualquer ativo da cristandade, precisa ser pautada pelas Sagradas Escrituras e necessita viver o “mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus”. Uma ética cristã autêntica é uma ética bíblica bem embasada.

O primeiro equívoco é a leitura simplista da ética bíblica. Embora a Bíblia seja o nosso livro sagrado, inspirado pelo Espírito Santo e infalível Palavra do Deus, a Bíblia não tem uma ética de óbvia derivação. As Sagradas Escrituras foram escritas em um período extenso, por vários autores e em contextos sociais diversos, sendo assim, cada autógrafo bíblico enfrentou problemas únicos, peculiares e diferentes da nossa realidade presente. A revelação bíblica é progressiva, e, cabe lembrar, deve-se ler com bastante cuidado cada orientação ética derivada das páginas sagradas entendendo a natureza evolutiva da Revelação. Assim, entre Antigo e Novo Testamento há um processo de descontinuidade e continuidade nas orientações morais e éticas. Alguns, por desprezarem a complexidade da Escritura, selecionam orientações éticas que eram específicas ao povo israelita ou a um individuo da história da salvação. Exemplo disso é quem defende a pena de morte hoje com base no Antigo Testamento, quando, já não estamos mais sob a jurisdição da lei mosaica enquanto povo e nação.

Em segundo lugar, nós, evangélicos, precisamos a todo custo evitar a “ética pelagiana”. A ideia nasceu com um monge britânico conhecido como Pelágio (360-420 d.C) e teve o seu desenvolvimento intelectual e divulgação propagandista pelos discípulos dele como Celestius e Juliano de Eclano. A marca do pelagianismo é a falsa crença que o homem tem a capacidade em si mesmo, pela sua bondade inata, de viver moralmente a partir da sua própria vontade. De alguma forma, a ética do liberalismo teológico rousseauniano apresenta o mesmo princípio, já que acredita na autonomia humana como agente da vontade moral. O papel de Jesus, entre eles, é de apenas um mestre inspirador, um exemplo moral. A ética cristã ensina que Jesus é um exemplo para imitação, mas, antes e acima de tudo, o cristianismo bíblico ensina que o Espírito Santo nos transforma, regenera e santifica, proporcionando assim a verdadeira possibilidade ética.

O terceiro equívoco é a crença numa ética relativista ou autoritária. Embora existam preceitos morais de valor temporário, local e cultural, a ética cristã tem um caráter universal. Quando um relativista radical nega a universalidade da verdade cai em si num círculo vicioso de contradição. Por outro lado, ninguém é detentor da patente da ética cristã. Nenhuma denominação, grupo social ou mesmo individuo pode arrazoar para si a tarefa de determinar o que é ético ou não a partir de suas próprias ideias e preconceitos. Devemos ser cativos à Palavra de Deus. Não somos nós que julgamos a ética bíblica, mas ela quem nos julga. Não somos donos da verdade, mas escravos dela.

O quarto e último equívoco tratado neste artigo é a ausência da noção de pecado. Quando isso acontece, e está acontecendo em larga escala nas ideologias das ciências humanas, há uma tendência em achar que o problema ético é alheio a mim. Tudo de errado é culpa do outro – dos esquerdistas, dos direitistas, dos ateus, dos cristãos, dos jovens, dos velhos etc. Nunca o problema é do próprio “eu”. O escritor C. S. Lewis escreveu que esse equívoco está tão proliferado que até Deus é culpado e o “eu” não: “Eles se aproximam do próprio Deus como juízes para julgá-lo. Não querem saber se podem ser absolvidos do pecado, mas, sim, se Ele pode ser absolvido por ter criado o mundo”[1]. Ou seja, a falta de noção clara do problema do pecado torna o homem uma criança arrogante que se acredita como o mocinho da história, quando, infelizmente, é também o vilão. O Espírito Santo convence o homem do pecado, do juízo e da justiça. Veja que não é possível alcançar a justiça sem uma plena consciência do problema do pecado e da necessidade do juízo.

Este texto serve como subsídio para as Lições Bíblicas da CPAD cujo tema é “Valores Cristãos: Enfrentado as questões morais de nosso tempo”. A primeira lição tem como tema “o que é Ética Cristã”.

Referência:

[1] LEWIS, C. S. Ética para Viver Melhor. 1 ed. São Paulo: Editora Pórtico, 2017. p 103.

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