Ética · Ética Cristã · Subsídio da EDB

Ética Cristã e Ideologia de Gênero

Por Gutierres Fernandes Siqueira

A chamada Ideologia de Gênero [1] é o assunto da moda. Nos últimos três anos, especialmente impulsionado pela academia e pela imprensa, a temática ganhou espaço nas redes sociais, nas redes abertas de televisão, nas escolas públicas, nos parlamentos municipais, estaduais e até no federal. Não é à toa que nesta semana estudaremos esse tema nas Escolas Dominicais. A teoria de gênero faz parte da agenda queer [2] e feminista e, naturalmente, encontra amplo apoio em uma sociedade cada vez mais secularizada.

O feminismo afirma que existe uma distinção entre sexo e gênero. O sexo, especialmente segundo os teóricos antigos do feminismo, é uma realidade biológica, é o macho e fêmea, assim como em todo o reino animal. O gênero, ao contrário, é uma arbitrariedade, ou seja, é uma construção social com propósitos ideológicos efetuado no contexto de alguma convenção social. Mas, em todos os escritos, o gênero fala mais alto do que o sexo biológico na identificação do ser. Agora, algumas expoentes do novo feminismo, ou feminismo radical, especialmente representado na filósofa norte-americana Judith Butler contesta a própria ideia de sexo como um fator meramente biológico [3]. Para Butler, o próprio sexo é uma imposição cultural. Inclusive, alguns adeptos da Teoria Queer, como Guy Hocquenghem, recusam o conceito de homossexualidade, pois, segundo eles, não existe desejo “homo” ou “hetero”, mas apenas desejo pessoal [4]. Percebe-se, logo de cara, que os próprios teóricos da Ideologia de Gênero estão em constante mudança sobre antigos paradigmas do feminismo e da homossexualidade. A radicalização do movimento, ao contestar a própria ideia de sexo biológico, desenha como uma construção social aquilo que é próprio da natureza. Esse compromisso ideológico mostra a falta de qualquer firmeza racional e de bom senso.

O novo feminismo, em sua radicalização, tem especial inspiração marxista da luta de classes. A luta já não é de classes, mas entre sexos. O homem é sempre opressor, potencial estuprador. O novo feminismo fala em “cultura do estupro”, quando na verdade o correto seria falar em “cultura machista”. Algumas, radicais das radicais, afirmam que todo ato sexual é um estupro. O grande problema desse discurso é o maniqueísmo dos bons (mulheres) contra os maus (homens). Como lembra a filósofa francesa Elisabeth Badinter: “Todo militantismo se choca com uma dificuldade: levar em conta a diversidade da realidade” [5].

Vejamos os dois principais problemas da Ideologia de Gênero:

  1. A Ideologia de Gênero acredita em neutralidade

A partir do momento que os teóricos da Teoria de Gênero acreditam que o sexo/gênero pode ser construído ou desconstruído, eles partem do paradigma que existe algum tipo de referencial neutro. Eles dizem, sem nenhum consenso científico razoável (biológica ou antropológica), que o ser humano nasce neutro e se torna homem ou mulher condicionado politicamente e culturalmente desde o seu nascimento. Primeiramente, não existe neutralidade. O psicólogo britânico Simon Baron-Cohen, diretor do Centro de Pesquisa em Autismo da Universidade de Cambridge, mostrou em uma pesquisa que bebês de apenas um dia de idade já mostram diferenças comportamentais quando se deparam diante de uma imagem de um ser humano ou de uma máquina, sendo que os meninos prestam mais atenção ao maquinário, enquanto as meninas gastam mais tempo olhando para rostos humanos. Isso mostra que biologicamente as mulheres já nascem com uma sensibilidade empática maior do que os homens. Mesmo em países bem igualitários, como a Noruega, a engenharia continua a ser um emprego fortemente masculino e a enfermagem continua fortemente feminina, mais até do que países desiguais como a Índia. Isso não quer dizer que uma mulher não pode ser engenheira ou um homem enfermeiro, mas apenas se ressalta que a própria aptidão (e não a cultura) leva homens e mulheres a buscarem funções diferentes. Os cérebros femininos e masculinos funcionam diferentes até mesmo no modo como percebem o tempo, o odor e ou recebem um remédio [6]. Outra diferença está na resistência da saúde, pois as pesquisam científicas têm indicado que as mulheres são mais fortes diante das doenças. Exemplo disso é que entre as 43 pessoas no mundo com mais de 110 anos, apenas um é homem. Entre os bebês recém-nascidos com o mesmo cuidado, os meninos têm uma probabilidade de 10% a mais de morrer no dia do nascimento.

Ora, ainda que fosse possível por manipulação genética, a neutralidade de sexos é algo realmente desejável? A supressão de qualquer diferença entre homens e mulheres tornaria a vivência humana mais saudável? A diferença entre feminino e masculino, longe de ser algo ruim e opressor, possibilita a dignidade humana. Há um elemento de complementaridade nas relações, onde homens e mulheres se alimentam entre si e permitem a vivência construtiva um do outro. O papel da mãe, por exemplo, como formadora do caráter do menino tem um valor incalculável e complementar ao papel do pai e vice-versa. O menino, a título de exemplo, cresce com ambas as vivências.  A relação homem e mulher são criativas, criadora, alimentadora, sendo assim, uma oportunidade de crescimento sem precedentes. Como recentemente declarou Jorge Mario Bergoglio em discurso: “As diferenças entre homem e mulher não visam a oposição nem a subordinação, mas a comunhão e a geração, sempre à ‘imagem e semelhança’ de Deus. Sem a entrega mútua, nenhum dos dois consegue compreender-se profundamente nem sequer a si mesmo”[7].

  1. A Ideologia de Gênero desvaloriza o corpo e o opõe ao ser

Nancy Pearcey lembra que a ideologia de gênero desvaloriza o corpo como algo descartável. Na batalha entre o corpo e a mente, a mente sempre vence. Pearcey escreve:

Esta é uma visão reducionista devastadora do corpo. Os jovens estão absorvendo a ideia de que o corpo físico não faz parte do seu eu autêntico – que o eu autêntico é apenas o que eu autônomo escolhe. Este é o antigo gnosticismo em um novo traje. As políticas que impõem a ideologia de gênero às crianças desde o jardim de infância estão ensinando-as a denegrir seus corpos – para ver seu sexo biológico como não tendo relevância para quem eles são como pessoas inteiras. [8]

O grande problema dessa ideologia é que você é aquilo que o seu sentimentalismo define. O corpo não passa de mera carcaça irrelevante. Biblicamente falando, o nosso corpo é tão importante que o mesmo será restaurado e transformado. O cristianismo tem uma visão de mundo oposta a qualquer ideologia que enxerga no corpo uma prisão da alma. A formação da identidade humana é holística e passa tanto pela alma/espírito como pelo corpo. Não somos apenas uma abstração, mas seres que se relacionam uns com os outros a partir do nosso corpo.

A Ideologia de Gênero, apesar sofrer de influências de ideologias coletivistas, como o marxismo, é radicalmente individualista. Cada ser humano, a partir da mera subjetividade, pode criar um gênero novo, confuso e desassociado do meio ambiente em que vive, além de desprezar a sua própria biologia. Não é à toa que pessoas que vivem nessa condição manifestam constante confusão sobre o seu próprio eu. A Ideologia de Gênero é serva da ideologia desconstrutivista, mas, dessa vez, não é a desconstrução de um paradigma, mas a desconstrução da própria pessoalidade. Isso é desumano.

Este texto serve como subsídio para as Lições Bíblicas da CPAD cujo tema é “Valores Cristãos: Enfrentado as questões morais de nosso tempo”. A segunda lição tem como tema “Ética Cristã e Ideologia de Gênero”.

genero

Referências:

[1] A chamada “Ideologia de Gênero” é uma expressão criada pelos críticos do movimento, mas os adeptos chamam esse conjunto de ideais de “Teoria de Gênero”. Quem primeiro usou a expressão crítica foi a feminista Christina Hoff Sommers no livro Who Stole Feminism? How Women Have Betrayed Women, publicado em 1995. Sommers é doutora em Filosofia e se define como “feminista da equidade”, diferente das “feministas de gênero”. Para um histórico filosófico do movimento veja o livro: BONNEWIJN, Olivier. Gender, Quem és Tu? Sobre a Ideologia de Gênero. 1 ed. Campinas: Editora Ecclesiae, 2015.

[2] “A teoria queer, oficialmente queer theory (em inglês), é uma teoria sobre o gênero que afirma que a orientação sexual e a identidade sexual ou de gênero dos indivíduos são o resultado de um construto social e que, portanto, não existem papéis sexuais essencial ou biologicamente inscritos na natureza humana, antes formas socialmente variáveis de desempenhar um ou vários papéis sexuais” (Wikipédia).

[3] “Se o caráter imutável do sexo é contestável, talvez o próprio construto chamado sexo seja tão culturalmente construído quanto o gênero; a rigor, talvez o sexo tenha sido o gênero, de tal forma que a distinção entre sexo e gênero se revela absolutamente nenhuma” (BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. 1 ed. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 2003. p 25).

[4] SCRUTON, Roger. Desejo Sexual- Uma Investigação Filosófica. 1 ed. Campinas: Vide Editorial, 2016. P 352.

[5] Cit. In.: BOSCO, Francisco. A Vítima Tem Sempre Razão? 1ed. São Paulo: Editora Todavia, 2017. p 145.

[6] Para detalhes sobre pesquisas científicas sobre a diferença no cérebro de homens e mulheres, veja: Sex on the Brain: The Biological Differences Between Men and Women (Penguin Books) de Deborah Blum. Outros cientistas importantes nesse debate sobre a diferença biológica dos gêneros estão em livros dos professores Melissa Hines, Simon-Baron Cohen e Larry Cahill.

[7] Discurso aos Bispos da Conferência Episcopal de Porto Rico em 8 de junho de 2015.

[8] PEARCEY, Nancy. Love Thy Body: Answering Hard Questions about Life and Sexuality. 1 ed. Grand Rapids: Baker Books, 2018. p 198.

 

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