Ética · Ética Cristã · Subsídio da EDB

Ética Cristã e Suicídio

Por Gutierres Fernandes Siqueira

O suicídio é hoje um problema social sério. Nunca houve tantos suicídios como agora. É observável que quanto mais próspera financeiramente é uma sociedade, mas suicidas nela haverá. O que explica esse aparente paradoxo? No Brasil, de 2000 a 2015, os suicídios aumentaram 65% entre pré-adolescentes de 10 a 14 anos e 45% entre adolescentes de 15 a 19 anos – enquanto isso, a alta na média da população foi de 40%. Os números são assustadores. Em abril de 2018, dois alunos do tradicional Colégio Bandeirantes de São Paulo (SP) tiraram a vida e deixaram os pais e professores em alerta. No ano passado, surgiram na internet várias “brincadeiras suicidas” como a conhecida Baleia Azul. Não faz muito tempo, a comunidade evangélica brasileira ficou chocada com três casos de suicídio entre pastores. Não é à toa que a série televisiva 13 Reasons Why fez sucesso ao retratar a história dramática do suicídio de uma jovem estudante chamada Hannah Baker.

A fé cristã ensina que a vida pertence somente a Deus. A vida, assim como a natureza, é entregue ao homem não como sua propriedade, mas como um dom a ser administrado. O homem é mordomo da vida. O apóstolo Paulo faz uma pergunta emblemática: “Ou não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus, e que não sois de vós mesmos?” (1 Coríntios 6.19, grifo meu). Para o cristianismo, viver não é apenas um privilégio, como, também, é uma obrigação moral. Todavia, não é uma obrigação apenas com o Criador, mas também com o próximo. O filósofo cristão Stanley Hauerwas:

É uma obrigação que nós devemos imediatamente ao nosso Criador e uns aos outros. Pois nosso status de criatura é apenas um lembrete de que nossa existência não é garantida por nosso próprio poder, mas requer o cuidado constante e a confiança dos outros. Nossa disposição de viver diante do sofrimento, da dor e do simples tédio da vida é moralmente um serviço mútuo, pois é um sinal de que a vida pode ser suportada, bem como também pode ser uma fonte de alegria e exuberância. Nossa obrigação de sustentar nossas vidas, mesmo quando estão ameaçadas ou precisam conviver com uma doença horrível, é a nossa maneira de sermos fiéis à confiança que nos sustentou na saúde e agora na doença. Assumimos uma responsabilidade como pessoas doentes. Essa responsabilidade é simplesmente continuar vivendo, pois é a nossa maneira de fazer gestos para aqueles que cuidam de nós, de que podemos confiar e confiar neles mesmos em nossa doença.[1]

O suicídio viola claramente o mandamento do amor, pois é um atentado contra si mesmo (cf. Mateus 22.39). Ao mesmo tempo, o suicida diz ao Criador que ele é quem determina o seu fim. Quem a si mesmo causa a morte provoca a dor ao próximo, especialmente nos parentes e amigos íntimos. É  uma injustiça tríplice. Ao mesmo tempo, essa afirmativa mostra que a cura para quem pretende se matar é entender que é amado de Deus, amado dos irmãos na fé e que precisa amar a si enquanto filho do Altíssimo. 

O sacrifício não é suicídio

A vida, na fé cristã, como dom, não é um absoluto inviolável. Exemplo disso são os inúmeros mártires. O mártir oferece sua vida como uma oferta agradável a Deus. O mártir não busca a morte, mas sabe que pode testemunhar a favor do seu Senhor mesmo diante dela. Não é que o mártir perdeu a vontade de viver, mas, ao contrário, mesmo sendo tão precioso viver, ele sabe que é melhor morrer pelo Senhor do que desonrá-lo diante da possibilidade da apostasia. Não há comparação entre o martírio e o suicídio. Nem entre o suicídio e a doação da vida ao outro. Jesus mesmo disse: “Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a sua vida pelos seus amigos” (João 15.13 ARC).

Dois tipos de suicídio

Há dois tipos de suicídio: o “racional” e o desesperado. O suicídio “racional” é uma clara reivindicação de autonomia do indivíduo onde o autor do ato quer mostrar ao mundo o seu direito de morrer. O suicida “racional” quer ter o controle do fim de sua própria vida, seja porque detesta a ideia de depender de alguém em sua velhice seja porque não aceita a variável da contingência. Certamente, esse tipo de suicídio é um claro desafio a qualquer controle externo e é a atitude típica de alguém em rebelião contra Deus e contra o próximo, pois as decisões mais importantes sempre parte do “eu” em detrimento de qualquer outro. É o ápice do egoísmo autocentrado. Esse tipo de suicida tenta ser o Alfa e o Ômega, mas sabendo que não teve o controle sobre o começo, ele quer determinar o fim.  Por outro lado, há um suicídio como fruto do desespero. Nesse segundo caso não é excesso de “eu”, mas justamente sua falta. Ao suicida desesperado, não há razão de viver porque ele já não vive, o “eu” já não existe. O primeiro quer entrar na história, o segundo quer ser esquecido pela história. Como já dito acima, a cura para esse tipo de pensamento é entender que, ainda pecados, somos amados por Deus e o Senhor deseja para a nossa vida um vivo relacionamento com Ele.

O problema soteriológico

Sempre que surge esse tema no meio cristão, nasce uma dúvida inquietante e difícil de responder: há salvação para o suicida? Essa pergunta carrega muita emoção e até certa dose de capciosidade. O apologista Ron Rhodes, no programa radiofônico The Bible Answer Man dirigido pelo famoso apologista Hank Hanegraff, certa vez recebeu o telefonema de uma mulher chamada Marie que perguntou se a segurança eterna da salvação era verdadeira. Ele responde que sim e então ela continuou a dizer que, sabendo que estava eternamente segura, se suicidaria. Rhodes, naturalmente, tentou dissuadir essa mulher desse ato autodestrutivo. Em 1985, o jovem Kenneth Nally, que tinha na época 24 anos, se matou com um tiro de espingarda. Nally era membro da Grace Community Church, igreja até hoje dirigida por John MacArthur Jr. Os familiares processaram a igreja porque, segundo eles, o grupo de aconselhamento ignorou os sinais claros de suicídio (ele teria manifestado o desejo de se matar aos conselheiros). A igreja foi absolvida pela justiça americana. Nally, segundo quem acompanhou o caso, se apegou de maneira equivocada à ideia de segurança eterna.

O suicídio é certamente um grave pecado. O suicídio é condenado implicitamente e dedutivamente nas Escrituras. Não há nenhuma, curiosamente, declaração explícita sobre o assunto. Nem mesmo há uma menção direta sobre o tema em o Novo Testamento, que foi escrito envolto de uma cultura grega onde o assunto era constantemente discutido. A Bíblia menciona alguns casos de suicídio em contexto de guerra e batalhas: Abimeleque (Juízes 9.50-56); Saul (1 Samuel 31.1-5 e 2 Samuel 1.5-16); Zinri (1 Reis 16.18-19) e Sansão (Juízes 16.23-31), embora, nesse último caso, não há consenso entre os comentaristas bíblicos se poderia ser considerado suicídio. O caso de Aitofel (2 Samuel 17.23) e de Judas (Mateus 27.3-10) são os únicos casos de suicídios convencionais mostrados nas Escrituras. O que há em comum em todos esses casos é que cada suicida estava em desobediência ao Senhor antes de deflagrar a própria morte. É inegável que o status do suicida nas Escrituras não é nada bom.

A tradição cristã, da mesma forma, nunca viu o suicídio com bons olhos. Embora alguns nomes da patrística como Crisóstomo e Ambrósio fosse mais tolerantes com os suicidas, o mais importante nome dos Pais da Igreja selou o suicídio como homicídio. O comentário de Agostinho sobre a lendária dama romana Lucrécia é significativo. Lucrécia (- 509 a.C.), que era filha de um prefeito de Roma, matou-se após relevar um abuso sexual sofrido. Nos tempos de Agostinho, a atitude de Lucrécia era elogiada. Agostinho ao comentar o caso compara Lucrécia com mulheres cristãs que sofreram violência:

Na cruel provação as mulheres cristãs não lhe imitaram o exemplo; souberam viver. Não vingaram em si mesmas crime alheio, praticando outro crime, nem creram que deviam abandonar-se à vergonha homicida, por haverem sido presa de concupiscência adúltera. (…) Fugirem, matando-se, à injúria das suspeitas humanas, não seria declinar da autoridade da lei divina?[2]

A condenação do suicídio em Agostinho, especialmente no livro A Cidade de Deus, é não só forte como não admite exceções, nem mesmo diante da tristeza profunda ou diante do mal imprecado pelo outro. Agostinho, assim como Tomás de Aquino, ajudou a formar no imaginário católico a ideia que não há salvação para quem mata a si mesmo. Oficialmente, a Igreja Católica nunca ratificou em documentos oficiais a condenação ao inferno do suicida, mas, informalmente, a ideia pegou. Como a matriz religiosa no Brasil é católica, os evangélicos, influenciados pela antiga herança, abraçaram como dogma a ideia que o suicídio é uma espécie de pecado sem perdão, assim como a blasfêmia contra o Espírito Santo e a apostasia.

Algumas questões…

Todavia, falta base bíblica para afirmar que o suicídio é um pecado sem perdão. Normalmente se argumenta que não há perdão porque não há tempo para o arrependimento. Embora isso seja verdade, por trás dessa ideia está uma teologia semipelagiana que só será salvo que estiver no momento da morte limpo de qualquer resquício de pecado. Se isso fosse verdade, ninguém, absolutamente ninguém, seria salvo.  A nossa salvação, e justificação, está em Cristo e, portanto, não é a ausência absoluta de pecado que nos garante a salvação, mas sim é a completa justiça de Cristo. Esse argumento, embora popular, não é biblicamente correto.

Mas nasce outra pergunta: uma pessoa que vive em Cristo se suicidará? Ou seja, todo suicida de alguma forma já não perdeu fé em Cristo antes mesmo do ato em si? O cristão verdadeiramente salvo e em comunhão com Deus chegará ao ponto de deixar para trás toda esperança? O apóstolo Paulo, homem que sofreu grandes infortúnios, escreveu: “Em tudo somos atribulados, mas não angustiados; perplexos, mas não desanimados; perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos; trazendo sempre por toda parte a mortificação do Senhor Jesus no nosso corpo, para que a vida de Jesus se manifeste também em nossos corpos” (2 Coríntios 4. 8-10). Veja a tratativa paulina: o seu abatimento nunca se tornou desesperança. Assim, enquanto ato deliberado, planejado e bem pensado, não seria a própria tentativa de suicídio um sinal claro que a pessoa rompeu sua relação com Deus?

A depressão não é uma tristeza passageira ou um mero aperto no coração. Nem todo mundo diagnosticado com depressão, de fato, está sofrendo com essa doença. Há, infelizmente, a banalização do termo e em alguns casos até um mal estar passageiro é retratado como depressão. O depressivo não tem vontade de comer, tomar banho e nem mesmo de viver o que antes lhe dava prazer. Muitas vezes o depressivo desejar estar morto ou deseja morrer, mas isso é muito diferente de querer se matar. O ato de suicídio demanda um tipo de planejamento e violência que está além daquele desejo que todos nós já tivemos em um momento da tristeza, que é o desejo de morrer. Muitos suicidas não são depressivos e muitos depressivos não pensam em suicídio. “Os dois elementos não são partes de uma única equação lúcida, uma ocasionando a outra”, como lembra Andrew Solomon[3]. A depressão e o suicídio podem coexistir, mas não dependem um do outro. George Howe Colt afirma que o suicídio não é mais encarado como o “último ponto de parada da depressão”. Solomon lembra que “não existe nenhuma relação forte entre a gravidade da depressão e a probabilidade do suicídio” e que “a tendência ao suicídio é um problema associado que requer seu próprio tratamento”[4].  

Portanto, jamais serei leviano em afirmar que qualquer suicida perde a salvação, logo porque não sou detentor da chave da morte e do inferno, mas é improvável que alguém seja seguidor de Cristo Jesus e ao mesmo tempo execute a própria morte. Como já dito acima, muitos suicidas jamais experimentaram depressão e nem podem ser retratadas como pessoas de sofrimentos insuportáveis. Aliás, é mais provável que você ache um suicida em Moema, o bairro de classe média alta mais seguro de São Paulo, do que na periferia de Luanda em Angola. A vontade de estar morto é abissalmente diferente de atentar contra a própria vida. Que o nosso coração nunca esqueça o amor do Senhor, pois essa lembrança é o melhor remédio contra tendências suicidas, mesmo o suicídio feito a conta-gotas com uma vida entregue a todo tipo de autodestruição. 

Referências:

[1] HAUERWAS, Stanley. Rational Suicide and Reasons for Living. Em: LYSAUGHT, M. Therese e KOTVA Jr. Joseph J. (ed). On Moral Medicine: Theological Perspectives in Medical Ethics. 3 ed. Grand Rapids: Eerdmans, 2012. p 3381.

[2] AGOSTINHO. A Cidade de Deus: Parte I (Livros I a X). 1 ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2012. p 61.

[3] SOLOMON, Andrew. O Demônio do Meio-Dia: Uma Anatomia da Depressão. Kindle Ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. p 5395.

[4] Idem. p 5412.

suicidio

Um comentário em “Ética Cristã e Suicídio

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s