Ética · Ética Cristã · Subsídio da EDB

Ética Cristã e Doação de Órgãos

Por Gutierres Fernandes Siqueira

O corpo tem um conceito elevadíssimo na fé cristã. O corpo não é a encarnação do mal, enquanto a alma e o espírito seriam a representação do bem. Muitos cristãos no decorrer da história tiveram um conceito muito pobre a respeito do corpo, esquecendo, inclusive, que a escatologia cristã ensina que o nosso corpo será glorificado e terá morada eterna[1]. A doutrina da ressurreição do corpo, infelizmente, teve até mesmo espaço nas penas dos teólogos antigos do que a imortalidade da alma. No céu não seremos espíritos vagando em nuvens, mas corpos glorificados. Diz o apóstolo Paulo: “Mas a nossa cidade está nos céus, donde também esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo,  que transformará o nosso corpo abatido, para ser conforme o seu corpo glorioso, segundo o seu eficaz poder de sujeitar também a si todas as coisas” (Filipenses 3.20,21 ARC, grifo meu).

A fé cristã bíblica, portanto, não aceita nem a postura dualista e hierárquica que tenta colocar o imaterial (alma e/ou espírito) como superior ao corpo e nem abraça o materialismo reducionista da ciência empirista que reduz a existência humana à realidade corpórea[2].  No Antigo Testamento, a palavra para corpo nunca aparece em oposição à alma (cf. Salmos 16.1,9). No Novo Testamento, embora haja várias sentenças que pareçam desvalorizar o corpo (Mateus 6.25; 10.28; Romanos 7.24 etc.), ao mesmo tempo, ensina-se a maravilhosa doutrina da ressurreição corpórea em um processo de glorificação da materialidade hoje existente (Mateus 22.30; 1 Coríntios 15.12, Filipenses 3.21 etc.). O corpo humano tem uma categorização tão especial no Novo Testamento que é apresentado como santuário do Espírito Santo (1 Coríntios 3.16; 6.19; 2 Coríntios 6.16).

O ápice desse dualismo entre corpo e alma aconteceu na Idade Média. Le Goff e Nicolas Truong, dois grandes especialistas em medievalismo, escreveram: “A dinâmica da sociedade e da civilização medievais resulta de tensões: entre Deus e o homem, entre o homem e a mulher, entre a cidade e o campo, entre o alto e o baixo, entre a riqueza e a pobreza, entre a razão e a fé, entre violência e a paz. Mas uma das principais tensões é aquela entre o corpo e a alma” [3]. Em parte influenciados pela tradição platônica, que acredita na preexistência da alma, a teologia medieval, especialmente em suas expressões populares, se destacou pela dualidade. Essa dualidade extremada voltou-se como uma curva de 180 graus e, como efeito colateral, acabou confundindo o “material” com o “espiritual” em uma mistura nada santa. Por exemplo, o material, como a moeda de metal, passou a comprar a graça, que é divina.

Doação e Compra

Fala-se em doação de órgãos porque, eticamente e biblicamente, é um horror a ideia da comercialização. O corpo não é um objeto, portanto, não pode servir de troca comercial. Comercializar um órgão, como defendem alguns libertários como uma solução econômica para o déficit de doações, é imoral porque iguala o corpo humano a qualquer bem material[4]. É o homem em sua inteireza (corpo e alma) que se serve da imagem de Deus. Uma aparelho celular ou um copo de vidro não foram criados à imagem dEle. A defesa que a propriedade do corpo é um princípio absoluto a quem o possui e assim se pode vendê-lo como quiser, seja pela prostituição seja pela comercialização dos órgãos, claramente fere a doutrina da criação de maneira frontal. O grande teólogo Joseph Raztinger assim rebate essa desvalorização do corpo na carta encíclica Deus Caritas Est:

Hoje não é raro ouvir censurar o cristianismo do passado por ter sido adversário da corporeidade; a realidade é que sempre houve tendências neste sentido. Mas o modo de exaltar o corpo, a que assistimos hoje, é enganador. O eros degradado a puro “sexo” torna-se mercadoria, torna-se simplesmente uma “coisa” que se pode comprar e vender; antes, o próprio homem torna-se mercadoria. Na realidade, para o homem, isto não constitui propriamente uma grande afirmação do seu corpo. Pelo contrário, agora considera o corpo e a sexualidade como a parte meramente material de si mesmo a usar e explorar com proveito. Uma parte, aliás, que ele não vê como um âmbito da sua liberdade, mas antes como algo que, a seu modo, procura tornar simultaneamente agradável e inócuo. Na verdade, encontramo-nos diante duma degradação do corpo humano, que deixa de estar integrado no conjunto da liberdade da nossa existência, deixa de ser expressão viva da totalidade do nosso ser, acabando como que relegado para o campo puramente biológico. A aparente exaltação do corpo pode bem depressa converter-se em ódio à corporeidade. Ao contrário, a fé cristã sempre considerou o homem como um ser uni-dual, em que espírito e matéria se compenetram mutuamente, experimentando ambos precisamente desta forma uma nova nobreza.

Portanto, é justamente porque o cristianismo olha para o corpo como um templo do Espírito Santo que a doação de órgãos, e não a sua comercialização, faz todo sentido. A doação é um ato de amor e expressa o espírito da abnegação que é necessário em qualquer relação humana. É ignorância pensar que parte do meu corpo em outra pessoa impeça de alguma forma a ressurreição plena do corpo, isso porque, vale lembrar, a materialidade do corpo o faz apodrecer diante da morte em questão de tempo e, mesmo virando pó, a ressurreição, enquanto milagre, não será impedido. O corpo não depende de toda a sua estrutura completa para que a ressurreição aconteça. O próprio fato de Jesus curar o corpo e de também conceder esse dom à Igreja, não visa a espetacularização da fé, mas, acima de tudo, a lembrança que a salvação envolve o homem no todo: corpo e alma, alma e corpo.

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Referências:

[1] “Rejeitamos a ideia de ser o corpo a prisão da alma e do espírito ou de ser inerentemente mau e insignificante.” (Declaração de Fé das Assembleias de Deus no Brasil; Capítulo VII; 2).

[2] JONES, Beth Felker. Body. Em: GREEN, Joel B. (Ed.). Dictionary of Scripture and Ethics. Epub Ed. Grand Rapids: Baker Academic, 2011. p 363.

[3] LE GOFF, Jacques; TRUONG, Nicolas. Uma História do Corpo na Idade Média. 1 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010. p 11.

[4] Uma defesa da comercialização de órgãos pode ser lida em: Fonseca, Joel Pinheiro da. O livre comércio de órgãos salvaria inúmeras vidas. Mises Brasil. São Paulo. Acesso em: 11 de maio de 2018. Disponível em: < https://www.mises.org.br/Article.aspx?id=2043>. Para uma crítica à ideologia libertária e sua defesa de venda dos órgãos veja o capítulo “Somos donos de nós mesmos?” no livro: SANDER, Michael J. Justiça: O Que é Fazer a Coisa Certa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015.

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