Ética · Ética Cristã · Subsídio da EDB

Ética Cristã e Sexualidade

Por Gutierres Fernandes Siqueira

A Bíblia celebra a sexualidade matrimonial. Uma leitura atenta do poema lírico do Cânticos dos Cânticos mostra que a Escritura não tem nenhum problema em celebrar o amor sexual. Essa afirmação pode parecer estranha para muita gente, mas uma leitura não-alegorizada desse livro bíblico mostra como a sexualidade não é demonizada e nem escondida nas Escrituras e nem é vista como apenas um meio reprodutivo. O sexo é tratado tão abertamente e de maneira tão livre que, incrivelmente, chega a ser constrangedor. Ao mesmo tempo, aprendemos na Escritura que o sexo sem amor não faz sentido. É o amor que nos civiliza e nos separa da mera pulsação biológica. Nas Escrituras, especialmente nos Cânticos, aprendemos que a atividade sexual é a consequência de um processo longo e construtivo que envolve atenção, galanteio, encantamento com a beleza de quem se ama e o cuidado e a devoção um pelo outro. “A união sexual não é apenas física. Em sua realização completa envolve vidas inteiras – as emoções, os objetivos e valores, os recursos econômicos e a contribuição social de duas pessoas”, como lembra Arthur F. Holmes (1).

A nossa sociedade moderna é sexualmente doente. Os números de consumo de pornografia sinalizam essa distorção. Com a internet, a pornografia se tornou fácil, rápida e barata. Antigamente, consumia-se pornografia pelo aluguel de filmes e pelas revistas, mas hoje todo esse mundo está disponível em apenas dois ou três cliques. Nesta semana, a imprensa divulgou um estudo realizado por um “canal adulto” de TV onde apontou que 22 milhões de brasileiros consomem material pornográfico (2). O número impressiona, mas, ao contrário do que se pensa, esse consumo não reflete o avanço da sexualidade, de outro modo, reflete justamente a sua retração. O fato é que quem tem uma vida sexualmente ativa e saudável, naturalmente, não se sente atraído pela pornografia. O aumento da pornografia expressa a diminuição do sexo real e do amor de fato. O alcoólatra nunca será um bom sommelier, assim como o viciado em pornografia nunca terá uma atividade sexual realmente plena. Ambos, em seu vício atroz, perdem o paladar.

A pornografia é, muitas vezes, o refúgio do coração solitário. O pornográfico teme a proximidade e a familiaridade. A construção de uma relação íntima demanda tempo, exige contato e necessita de comunicação (3). Uma relação é sempre sacrificial. A verdadeira sexualidade desnuda a alma antes de desnudar o corpo. A pornografia, por outro lado, é “sedutora porque não exige contato direto com outro ser humano. É algo que pensamos poder controlar. Nós podemos abri-la e fechá-la, ligar o computador ou desligá-lo. Assim, o temor da verdadeira intimidade frequentemente faz com que a pornografia pareça muito atraente” (4). A solidão chama a pornografia com voz alta, mas, lembre-se, a solidão não é viver sozinho em uma habitação, mas é, antes de tudo, viver como em uma ilha da alma e indiferente a qualquer laço de amor. O solitário em seu desamparado não acha aconchego e proteção para si. Lembro-me do salmista proclamando que “Deus faz que o solitário viva em família” (Salmos 68.6 ARC). Que consolo é saber que Deus pode nos proteger do poder destrutivo da solidão viciada em sexo artificial. Portanto, construir relações de mutualidade e amor é um antídoto poderoso ao espírito pornográfico de nossa época.

Muitos casamentos já nascem fracassados porque se baseiam egoisticamente apenas na própria satisfação pessoal, ou seja, são “relações” pornográficas e solitárias, pois cada um, em cada lado, só espera que o outro o satisfaça – não existe nenhum propósito de servir a quem se faz juras de amor. A Bíblia ensina em cada página que o relacionamento é a renúncia do próprio eu. O filósofo cristão Peter Kreeft ensina que o “casamento é algo tão alto e sagrado, requer tanto autossacrifício que ‘só o amor pode torná-lo possível, e só o amor perfeito pode torná-lo uma alegria” (5) e Timothy Keller complementa: “O ensinamento cristão não nos oferece uma escolha entre satisfação e sacrifício, mas sim a satisfação mútua por meio do sacrifício mútuo” (6).

Vez ou outra, acusa-se a Igreja de querer gerir o que se faz na cama. Normalmente, quem faz esse tipo de acusação quer controlar o que comemos, o que bebemos, que tipo de comercial podemos assistir etc. Essa acusação é injusta, obviamente, porque todos sabem que a sexualidade, mesmo revestida de intimidade, envolve a comunidade. O sexo desregrado é feito na discrição de um quarto, mas as consequências desse comportamento atingem direta e indiretamente muita gente, especialmente aquela criança que é fruto de uma aventura sexual entre duas pessoas desprovidas de responsabilidades. Realizamos casamentos com os nossos amigos, nossas igrejas e a nossas famílias porque queremos celebrar a beleza e a alegria da união conjugal entre aqueles que nos oferecem encorajamento e aprendizado e, ao mesmo tempo, sabemos que a nossa relação de amor, enquanto formadora de uma instituição familiar, afetará toda a sociedade.

E, para encerrar, cabe lembrar que a sexualidade é a expressão da complementaridade entre homens e mulheres. “O homem se torna mais viril quanto mais se volta para a mulher. A mulher, tão mais feminina, quanto mais se volta para o homem” (7). Nenhum homem se agrada de uma mulher desprovida de feminilidade. Nenhuma mulher se agrada de um homem desprovido de virilidade. A mulher não quer como amante um homem feminino e nem o homem quer uma mulher masculina. Tanto um como outro sabem que a diferença enriquece. A beleza da vida relacional está na complementaridade e não na uniformidade.

casamento1

Referências:

(1) HOLMES, Arthur F. Ética: As Decisões Morais À Luz da Bíblia. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2000. p 130.

(2) 22 milhões de brasileiros consomem pornografia, diz pesquisa. G1 Pop e Arte Cinema. Acesso em 18/05/2018. Disponível em: <https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/22-milhoes-de-brasileiros-assumem-consumir-pornografia-e-76-sao-homens-diz-pesquisa.ghtml&gt;.

(3) “A comunicação é o coração da vida familiar em que os membros da família interagem por meio de trocas verbais e não verbais para expressar seus pensamentos, desejos e emoções centrais. Através de expressões honestas de pensamentos e emoções, os membros da família se conhecem de maneiras bem pessoais. Em um estudo com 426 jovens adultos de famílias intactas, verificou-se que a expressividade familiar estava positivamente associada à força e satisfação da família (…). Quando os membros da família se comunicam e se expressam de maneira única, os relacionamentos familiares crescem e se aprofundam. Sem a capacidade de se comunicar de forma eficaz, a unidade familiar se torna rapidamente uma mera coleção de indivíduos cujos pensamentos, sentimentos e desejos não são ninguém além dos seus próprios umbigos. Com uma maior capacidade de comunicação, no entanto, a família pode se tornar um sistema vibrante cujos membros aprendem a se envolver em interação significativa. Neste sentido, a comunicação é, verdadeiramente, o coração da vida familiar”. (BALSWICK, Jack O. e BALSWICK, Judith. The Family: a Christian Perspective on the Contemporary Home. ePub Ed. Grand Rapids: Baker Academic, 2014. p 381).

(4) EARLE Jr., Ralph H. e LAASER, Mark R. A Armadilha da Pornografia: Orientações para Pastores e Leigos acerca do Vício Sexual. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2008. p 120.

(5) KREEFT, Peter. Três Filosofias de Vida. 1 ed. São Paulo: Quadrante, 2015. p 166.

(6) KELLER, Timothy. O Significado do Casamento. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2012. p 59.

(7) HADJADJ, Fabrice. A Profundidade dos Sexos: Por uma Mística da Carne. 1 ed. São Paulo: É Realizações, 2017. p 16.

3 comentários em “Ética Cristã e Sexualidade

  1. O texto é interessante, mas será que em muitos casos, a Igreja não cometeu excessos que mais produziram, inclusive, um desejo obstinado pelo sexo fora do casamento e de maneira desalinhada com os preceitos divinos? Eu creio que sim. Tanto o silêncio das igrejas sobre o valor do sexo, quanto as críticas à sexualidade de maneira indiscriminada, produziram mazelas, ao meu ver, que estão dando trabalho para ser curadas.

    De qualquer forma, o artigo ajudou a consolidar minhas convicções: está bem escrito e cheio de referências.

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