Ética · Ética Cristã · Subsídio da EDB

Ética Cristã e Vida Financeira

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Este texto está dividido em dois assuntos de total interesse para quem vai estudar a lição “Ética Cristã e Vida Financeira”. Na primeira parte trato sobre o trabalho e na segunda parte sobre prosperidade financeira. Boa aula!

O trabalho

Os gregos pensavam o paraíso como um espaço sem trabalho e com deuses que não trabalhavam. A Bíblia, ao contrário, nos ensina que mesmo no Éden o trabalho já existia (Gênesis 1.26) e que Deus, Ele mesmo, sempre trabalhou (Gênesis 2.2). O próprio Jesus nos falou: “Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também” (João 5.17 ARC). A Bíblia, diferente do que pensa o senso comum, coloca o trabalho como uma rica oportunidade de servir ao próprio Deus. O apóstolo Paulo nos ensina: “Sirvam de boa vontade, como se estivessem trabalhando para o Senhor e não para pessoas” (Efésios 6.7 NAA). Diz o ditado popular que “o trabalho dignifica o homem”. Esse provérbio não está na Bíblia, mas, como vimos acima, esse princípio está em consonância com ela. A Reforma Protestante, cabe lembrar, resgatou uma verdade bíblica essencial sobre o trabalho: os reformadores, especialmente Lutero, dignificaram as atividades comuns como uma “vocação religiosa”, ou seja, a atividade do padeiro é tão sagrada como o do monge.

Mas, como tudo na vida, o trabalho pode expressar o extremo de dois pecados; sendo a leniência da preguiça de um lado e o frenesi do viciado na cobiça do outro. Como diz Miroslav Woff, brilhante teólogo pentecostal croata, “muito pouco trabalho e não podemos sobreviver; muito trabalho e a vida é sugada de nós. O trabalho é a nossa bênção e o trabalho é a nossa maldição”. O pecado afetou tudo, inclusive, a beleza do trabalho. Como lembra Tim Keller, o trabalho, como tudo na vida, pode virar um ídolo: “O ídolo moderno do individualismo procura elevar o trabalho de uma coisa boa para quase uma forma de salvação” (2). Antigamente, no epitáfio de muitos túmulos, em países de tradição protestante, era comum a frase que o “trabalho foi sua vida”. Lamentavelmente, essa frase expressa uma pobreza de dignidade terrível. Embora o trabalho seja uma dimensão fundamental da existência humana, o homem não se resume do trabalho. Parafraseando Jesus, o trabalho foi feito para o homem, mas não o homem para o trabalho.

Por que as promessas de “prosperidade material” no Antigo Testamento não são para os nossos dias? (3)

1. Porque hoje Deus não trabalha com uma nação específica, como era Israel no Antigo Pacto, mas sim com a Igreja. Hoje todos aqueles que aceitam o sacrifício de Cristo são o Israel de Deus (Gálatas 6.16). Embora nossa tradição pentecostal seja, em sua maioria, dispensacionalista, entende-se, logo por isso, que as promessas direcionados ao povo de Israel não são transportadas para a Igreja do Novo Testamento. Portanto, algumas promessas bíblicas foram feitas somente para a nação de Israel. Exemplo disso é o famoso capítulo de Deuteronômio 28.1-68.

2. Algumas promessas bíblicas foram feitas para indivíduos específicos. A promessa de Deus para um personagem bíblico não significa o mesmo para nós. Exemplo é Abraão em Gênesis 12.2: “Eu farei de ti uma grande nação; abençoar-te-ei, e engrandecerei o teu nome; e tu, sê uma bênção” (ARC). É claro que nenhum de nós pode reivindicar essa promessa.

3. Em nenhum texto do Novo Testamento a saúde perfeita ou a prosperidade material é prometida como fruto da obediência a Deus. As “promessas” do Novo Testamento são perseguições e provações. Como disse Paulo: “E na verdade todos os que querem viver piamente em Cristo Jesus padecerão perseguições” (2 Timóteo 3.12). Leia também Mateus 5. 10-11. e Marcos 10. 29-30.

4. Os versos de sabedoria contidos em Provérbios não podem ser traduzidos como promessas. O livro de Provérbios mostra princípios gerais observados sobre o cotidiano e a vida das pessoas. Um exemplo está em Provérbios 24.25, que diz: “mas para os que julgam retamente haverá delícias, e sobre eles virá copiosa bênção”. De fato, como observa o Rei Salomão, os que julgam retamente desfrutam de delícias derivadas da justiça. É uma observação que Salomão viu na vida dele e de muitos outros, mas essa observação não é uma promessa. O autor quer dizer que a prática da justiça conduz normalmente para uma vida de delícias, mas isso não é automático. É possível praticar a justiça e desfrutar de amargura. Jesus mesmo disse: “Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça” (Mateus 5.10). Nenhuma perseguição é uma delícia. Portanto, os versos dos provérbios devem ser vistos como princípios gerais e não como promessas automáticas.

5. Os conceitos de alguns personagens registrados na Bíblia não significam promessas bíblicas. O maior exemplo está no livro de Jó. Muito do que é dito pelos amigos de Jó depois é contestado pelo próprio Deus no início ou no final do livro. Para Bildade, por exemplo, Jó sofria aquele mal porque não era justo: “Se fores puro e reto, certamente mesmo agora ele despertará por ti, e tornará segura a habitação da tua justiça” Jó 8.6. O próprio Deus testemunhou a justiça de Jó (1.8). Bildade estava errado, mas as palavras deles estão registradas para entendermos a história e não para aplicarmos os seus conceitos equivocados para os nossos dias.

6. A chave de compreensão do Antigo Testamento passa por Jesus Cristo. A Bíblia diz: “Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias a nós nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, e por quem fez também o mundo” (Hebreus 1. 1-2) A chave de interpretação das promessas do Antigo Testamento precisam ser feitas a partir de uma leitura geral das Escrituras.

7. A Bíblia é mais do que um livro de experiências. O esquema “espiritualize, alegorize e devocionalize” não serve para todos os textos bíblicos e pode distorcer o conteúdo de muitos textos. É necessário um exercício de correta interpretação do texto bíblico levando em conta o contexto imediato, a gramática, o tempo, o tipo de literatura, o contexto histórico, as interpretações históricas etc. Exemplos dessas contextualizações abusivas são as campanhas neopentecostais, tais como “318 pastores”, “Ano de Elias”, “Jejum de Sansão” etc.

Referências:

(1) VOLF, Miroslav. Trabalho. PALMER, Michael D. (ed). Panorama do Pensamento Cristão. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2000. p 225.

(2) KELLER, Timothy e ALSDORF, Katherine Leary. Como Integrar Fé e Trabalho. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2014. p 134.

(3) Veja um estudo detalhado sobre o tema em: RHODES, Ron. O Livro Completo das Promessas Bíblicas. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p 19-27.

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