Ética · Ética Cristã · Política · Subsídio da EDB

Ética Cristã e Política

Por Gutierres Fernandes Siqueira

 A política é um termo polissêmico. Como substantivo feminino, significa uma atividade a serviço da cidade. Como substantivo masculino, significa o agente dessa atividade ou a própria natureza desse serviço. A política, como bem define do Dicionário Houaiss, “é arte ou ciência da organização, direção e administração de nações ou Estados; aplicação desta arte aos negócios internos da nação (política interna) ou aos negócios externos (política externa)”. Todo habitante da cidade necessariamente faz e consome política, mesmo desinteressado pela política partidária, logo porque a política não se resume aos partidos e a outras instituições relacionadas (como as casas legislativas, por exemplo). O homem é um ser político porque é um ser social. A política, grosseiramente, pode ser resumida como a tensão constante entre continuidade e progresso, tradição e revolução, preservação e mudança[1].

A política desprovida de qualquer dimensão ética é uma atividade sem controle, absolutista e totalitária. Ou totalmente amoral, imoral e corrupta. Ou ambas. A ética cristã tem um papel essencial na regulação das atividades políticas, especialmente como voz profética na sociedade contemporânea. Servir a Cristo como Salvador e Senhor tem sérias implicações éticas nas atividades públicas e políticas, especialmente porque somos cidadãos de duas cidades, a terrena e a celestial. Essa dimensão é intercambiável e a nossa maneira de viver no presente deve refletir nossa esperança na eternidade. Cristo é o centro e a norma de qualquer relacionamento humano e, portanto, como Deus que é, Cristo não passa despercebido no cotidiano da vida pública pela vida do verdadeiro cristão, mesmo com o crescente secularismo. O cristão, acima de tudo, precisa vivenciar a política a partir da perspectiva de quem serve a um Rei eterno. Cristo é inseparável do seu Reino, como bem lembrou Miroslav Volf: “O Reino veio na atividade do próprio Jesus. Você não pode ter o Reino sem ter Jesus Cristo; você não pode ter Jesus Cristo sem ter o Reino”[2]. Nós somos servos desse Rei e súditos desse reino em terra estrangeira.

A política é a busca do bem comum. Embora o bem comum tenha características locais, como o asfalto na minha rua que me beneficia e aos transeuntes do bairro ou a vacina que previne a doença de crianças recém-nascidas e de idosos da cidade, o bem comum tem uma ligação com valores universais. Ora, facilitar o trânsito de pessoas é, ao mesmo tempo, permitir a liberdade do ir e vir e vacinar crianças e velhos é, ao mesmo tempo, cuidar dos vulneráveis. Mas algumas necessidades transcendem o Estado ou a nação. Portanto, a  busca pelo bem comum passa pela globalização de soluções. Não é à toa a crescente necessidade de reflexão sobre o meio ambiente, por exemplo, logo porque a forma como uma nação se comporta pode afetar diretamente outra. Por exemplo, a Bíblia mostra que Deus tanto criou a terra em Gênesis como criará uma nova terra no Apocalipse. De alguma forma, Deus leva tão a sério sua criação que essa será transformada. O que isso implica ao cristão? Como escreveu John Stott: “Deus nos faz, no sentido mais literal, ‘zeladores’ de sua propriedade[3]”. A busca pelo bem comum passa pela consciência que somos mordomos nesta terra e desta terra. Se temos um comportamento destrutivo, sem nenhuma reflexão sobre a consequência coletiva dos nossos atos, só estamos florescendo a natureza pecaminosa mesquinha, egoísta e autocentrada. Embora sempre haja o perigo de abraçar causa globalizantes (como a preservação do meio ambiente) como escapismo para problemas mais próximos, de pessoas mais próximas, o cristão não pode ignorar as consequências dos problemas do seu derredor imediato e distanciado.

A democracia e o pecado

O poder excessivo na mão de um homem é o caminho da destruição. É famosa a frase do Lord Acton que diz: “O poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente, de modo que os grandes homens são quase sempre homens maus”. Na verdade, mais do que corromper, o poder desnuda a verdadeira natureza do homem. O poder é um espelho da alma, como diz Alister McGrath. O teólogo irlandês ainda lembra um ditado que diz: “O homem age como ele é quando pode fazer o que ele quer”[4]. Na série House of Cards, o personagem ambicioso Frank Underwood mostra numa frase porque o poder é mais sedutor que o próprio dinheiro: “Dinheiro é mansão no bairro errado, que começa a desmoronar após dez anos. Poder é o velho edifício de pedra, que se mantém de pé por séculos”. É o que João chama de “soberba da vida” (1 Jo 2. 15). Ora, uma forma de diluir o poder de um homem, especialmente os governantes, é pela democracia em um Estado de Direito. O cristão, como mostra C. S. Lewis, é democrata justamente porque tem uma visão pessimista sobre a natureza humana:

Sou democrata porque creio na Queda do ser humano. Acho que a maioria das pessoas é democrata pelo motivo oposto. Grande parte do entusiasmo democrático resulta das ideias de gente como Rousseau, que acreditava na democracia por pensar que a humanidade é tão sábia e boa que todos merecem tomar parte no governo. O perigo de defender a democracia nesses termos é que nada disso é verdade. E, toda vez que a fragilidade exposta, os que preferem a tirania de beneficiam. Verifico que eles não falam a verdade sem precisar olhar pra nada além de mim mesmo. Não mereço participar nem do governo de um galinheiro quanto mais de uma nação. A verdadeira razão para a democracia é exatamente o oposto. A humanidade caiu tanto que ninguém pode exercer sobre os outros um poder sem controle. Aristóteles disse que algumas pessoas só servem para serem escravas. Não vou discordar dela, mas rejeito a escravidão porque não vejo ninguém qualificado para ser senhor de escravos.[5]

E é também justamente porque cremos na soberania e na glória de Deus que jamais podemos consentir com homens com sede do absoluto. Ora, “se Deus, que habita na eternidade, condescendia em morar com o humilde e ouvir o pedido de uma Ana, nenhuma autoridade política humana poderia se exaltar além da crítica, tornando-se inacessível”, como afirma Christopher Wright[6]. Qualquer pessoa, inclusive pastores, que se coloca acima do bem e do mal, da crítica e da satisfação com a comunidade, está tentando usurpar o papel de Deus e é anátema.

Quando se fala em política é importante lembrar que a Bíblia não é serva de ideologias. Exemplo é como conservadores e progressistas entendem a economia. O primeiro grupo tende a destacar a produtividade e condenar o assistencialismo. O segundo grupo tende a ignorar fatores de produtividade e abraçar como causa a defesa do igualitarismo absoluto. Ambos usam as Escrituras para justificar esse o tipo de pensamento prévio que possuem. Miroslav Volf exemplifica essa polaridade e mostra como a Bíblia não está necessariamente fechada com alguma posição. O “retrato econômico” das Escrituras é mais complexo e completo:

Quando Jesus fala sobre o que poderíamos chamar de assuntos “econômicos”, sua preocupação geralmente se concentra na situação dos pobres. A versão de Lucas das bem-aventuranças inclui: “Bem-aventurados vocês os pobres, pois a vocês pertence o Reino de Deus” (Lucas 6.20) e vem com o dito simétrico: “”Mas ai de vocês, os ricos, pois já receberam sua consolação” (Lucas 6.24). Por conta própria, essas passagens e similares poderiam facilmente nos levar a pensar que a distribuição de bens é tudo o que importa. Uma leitura cuidadosa dos Evangelhos, no entanto, mostra que eles pressupõem a produção de bens através do trabalho humano. Juntamente com a ênfase na distribuição justa, o lado da produção da economia recebe um tratamento mais completo e mais explícito nas Escrituras Hebraicas, começando logo no início, quando “O Senhor Deus colocou o homem no jardim do Éden para cuidar dele e cultivá-lo” (Gênesis 2.15). À medida que nos voltamos para os Evangelhos e para o Novo Testamento de forma mais ampla, com as preocupações da Bíblia Hebraica em mente, o pano de fundo da produção entra em foco mais nítido. Mesmo em uma história como a de Jesus alimentando os cinco mil (Mateus 14. 13-21), nos quais a ênfase recai sobre a maravilhosa provisão de Deus, é o pão que vem da lavoura humana da terra e dos peixes capturados através da multiplicação humana.[7]

Outro ponto essencial da política contemporânea é a construção de sólidas instituições (poder legislativo, poder executivo, poder judiciário, Ministério Público, imprensa, Igrejas, sindicatos, escolas, famílias, etc.). O bom funcionamento da sociedade passa pelo equilíbrio e o fortalecimento das instituições. A instituição é uma elite organizada e toda democracia sólida apresenta uma saudável disputa de elites em busca da aprovação popular[8] (seja em voto, seja em popularidade, seja em retorno financeiro). Ao cristão evangélico, especialmente no contexto brasileiro, cabe a luta dentro do espaço democrático pelo fortalecimento de duas instituições bíblicas, a saber, a igreja e a família. Não existe democracia plena se a igreja é desprovida de voz só porque é igreja. Embora a Igreja, como corpo místico de Cristo, não pode ser destruída pelas portas do inferno, a igreja enquanto instituição pode evaporar. “As instituições não se protegem sozinhas. Desmoronam uma depois da outra se cada uma delas não for defendida desde o início”[9].

A política é sim uma atividade do cristão. Não existe vácuo na política, portanto, se o cristão se calar, outro falará. O princípio de ser sal da terra passa justamente pela consciência que não nascemos como cristãos apenas para vivenciar cultos e atos de adoração em um prédio chamado igreja, fechados em quatro paredes. A comunhão nascida ali, na igreja, deve refletir no bom comportamento do cristão enquanto luz do mundo. A política, de fato, pode ser diabólica, mas também pode ser a oportunidade de testemunhar a Cristo, o único Senhor.

revolução

Referências:

[1] GISEL, Pierre. Enciclopédia do Protestantismo. 1 ed. São Paulo: Editora Hagnos, 2016. p 1375.

[2] VOLF, Miroslav e McANNALLY-LINZ, Ryan. Public Faith in Action, How to Engage with Commitment, Conviction, and Courage. Epub Ed. Grand Rapids: Brazos Press, 2017. p 7.

[3] STOTT, John. Os Cristãos e os Desafios Contemporâneos. 1 ed. Viçosa: Editora Ultimato, 2014. p 158. Para uma posição equilibrada sobre o assunto, veja: SCRUTON, Roger. Filosofia Verde – Como pensar seriamente o planeta. 1 ed. São Paulo: É Realizações, 2017.

[4] McGRATH, Alister. Surpreendido pelo Sentido. 1 ed. São Paulo: Editora Hagnos, 2015. p 132.

[5] LEWIS, C. S. Ética Para Viver Melhor. 1 ed. São Paulo: Editora Pórtico, 2017. p 47,48.

[6] WRIGHT, Christopher. Povo, Terra e Deus. 1 ed. São Paulo: ABU Editora, 1991. p 131.

[7] VOLF, Miroslav e McANNALLY-LINZ, Ryan. Idem. p 19, 20.

[8] Lago, Davi. Brasil Polifônico. 1 ed. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 2018. p 101.

[9] SNYDER, Timothy. Sobre a Tirania: Vinte Lições do Século XX para o presente. Epub Ed.. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. p 106.

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