Ética · Ética Cristã

Ética Cristã e Redes Sociais

Por Gutierres Fernandes Siqueira

O brasileiro ama a Internet. Um estudo do ano passado feito pela agência We Are Social e pela plataforma Hootsuite concluiu que o Brasil é o terceiro país do mundo que mais consome e produz conteúdo para as redes sociais. Em média, o brasileiro passa 3 horas e 39 minutos conectado diariamente. Os números impressionam: 130 milhões de brasileiros utilizam as redes sociais, ou seja, 62% da população. Outro fato curioso, segundo esse estudo, é que a rede social mais usada no país não é o Facebook, mas sim o YouTube. O WhatsApp vem logo em terceiro lugar. De alguma forma, a Internet é vista mais do que uma ferramenta de comunicação, mas também como ferramenta de pertencimento social. Como se diz hoje em dia: “Se não está na rede, então não existe”.

Essa é era da hipersociabilidade, como dizem os especialistas. Mas, ao mesmo tempo cresce a hostilidade e a divisão. Há um clima de beligerância no ar. Por que diante de tanta interação há um crescente clima de briga? O que explica esse aparente paradoxo? A resposta está no fato de que não há, normalmente, a figura do estranho nas redes sociais.  Enquanto nas relações sociais do dia a dia há sempre um estranho[1], ou seja, aquela pessoa que interagimos rapidamente sem nada conhecer dela (um vendedor, um comprador, um porteiro, um médico, um guarda de trânsito, etc.), nas redes sociais “conhecemos” todo mundo. As pessoas estão expondo ideias, fotos, vídeos e áudios o tempo todo. Estamos cada vez mais “íntimos” de uma quantidade cada vez maior de gente. Diante do estranho na rua, pela falta de informação sobre ele, abraço a indiferença sobre ele sem amá-lo ou odiá-lo. Mas, diante de tanta interação, informação e familiaridade nas redes sociais só me resta uma decisão entre duas: amar ou odiar. E é sempre mais fácil odiar quem “conhecemos”.

Por que as chamadas redes sociais nunca poderão substituir a Igreja?

A Igreja e a família são as duas mais importantes instituições comunitárias que, segundo as Escrituras, tem a sua origem no próprio plano divino. As redes sociais, que têm uma importância vital para a comunição contemporânea, mas não funcionam como comunidades plenas. Nas comunidades você não escolhe quem está ao seu lado. Não há como escolher um primo ou um tio em sua família. Não há como selecionar o membro de sua igreja local. Nas redes sociais, por outro lado, os meus “amigos” passam pelo filtro da aceitação. De alguma forma, a intimidade forçada das redes sociais leva muitos usuários a selecionar só gente “bacana”. Ainda posso, caso queria, colocar um “amigo” na soneca ou quem sabe deixar de seguir alguém amalucado no Facebook para não me deparar com postagens que julgo desagradáveis. Há diversos mecanismos nas redes sociais para evitar alguém. As redes sociais estão entre o pêndulo da intimidade com gente em demasia e a seletividade de convivência com gente semelhante a nós. Mas na família e na igreja não temos como bloquear alguém. E, ao conviver com gente diferente e até mesmo desagradável, a comunidade permite um amadurecimento extraordinário.

Mediante o avanço da comunicação tecnológica podemos observar na contemporaneidade a chamada “religião em rede” [2], ou seja, existe uma manifestação própria de fé nas redes sociais. Há quem acredite em prática religiosa e ministerial ancorada apenas na Internet. A marca da “religião de rede” é a afinidade com diversas pessoas, mas ao mesmo tempo falta o comprometimento e o reconhecimento de mediação de uma liderança, ou de uma confissão de fé e ritos (batismo nas águas, Ceia, canto congregacional etc.). Outro problema é a identidade fluída não mais formada na comunidade com mentores, mas através de um consumo rápido de conteúdo e nem sempre com o discernimento necessário. No frenesi da informação consumida o sujeito se tornar mero especialista em conteúdo religioso e não um aluno ou professor moldado pela e na comunidade. A “religião em rede” também não consegue proporcionar uma liturgia formativa. O culto, vale lembrar, é uma oração comunitária. Na comunidade o toque é importante. Lembre-se da imposição de mãos e até da unção com óleo no doente. A partilha do pão e do vinho na Ceia é um memorial que envolve elementos físicos. Esse tipo de experiência sensorial é impossível na rede. Outro sintoma da religião em rede é a autoridade fluida, ou seja, o líder que me guia é alguém que nada sabe sobre mim. Esse fenômeno também é observado em megaigrejas. Além disso, a minha fidelidade a ele é até aparecer outro líder com mais like na rede. Agora, um fator altamente positivo da religião em rede é a conectividade com diversas tradições cristãs que ajudam a moldar uma catolicidade, embora, é claro, que se feita de forma desordenada acaba subtraindo a identidade confessional pela confusão de conceitos teológicos até contraditórios (por exemplo, alguém que se diz pentecostal cessacionista).

Um dos grandes riscos das redes sociais é justamente a falta do contraponto, seja esse contraponto inteligente ou mal educado, sábio ou ignorante, justo ou injusto. A tendência das redes sociais é que nos sentamos virtualmente apenas com quem é parecido conosco. Entre fotos, memes, textos e curtidas ouço e interajo apenas com quem é a minha imagem e semelhança. Um jornalista, por exemplo, que se cerca de pessoas de sua própria classe profissional nas redes sociais tenderá a montar pautas de acordo com o interesse do próprio grupo. Não é à toa que os jovens jornalistas dos grandes portais e jornais brasileiros se esforçam tanto em construir pautas identitárias (feminismo, homossexualidade, teoria de gênero etc.), isso porque é o tipo de assunto que interessa aos amigos deles, mas não necessariamente aos leitores do jornal. O mesmo acontece com militantes de qualquer candidato, pois ao se cercarem de outros militantes eles acreditam que o país como um todo se envolve emocionalmente com determinada candidatura. A rede social ainda favorece a construção de uma autoimagem dissociada da realidade favorecendo o narcisismo e o autoengano.

Outra diferença entre a rede social e a comunidade eclesiástica está no senso de pertencimento. Entre curtidas e compartilhamentos, a rede social proporciona um sentido que se encontra na conformidade com determinado grupo social. Sou quem sou a partir da minha identificação grupal. Estou satisfeito porque faço o mundo a partir da minha vontade associada com a vontade de pessoas parecidas comigo. Estou em uma missão que não é divina, mas totalmente humana e que satisfaz a minha própria vaidade. A minha missão é que o mundo seja parecido comigo e com meus amigos. Na Igreja, ao contrário, estamos submetidos a uma vontade externa e superior, que é a vontade de Deus manifesta primeiramente nas Escrituras, mas também manifestada, em menor grau, na liderança eclesiástica, na tradição, na história e na liturgia. Não construímos a Igreja, mas somos inseridos nela pelo Espírito Santo mediante o batismo espiritual no Corpo de Cristo. Nessa comunidade, não se espera o melhor de mim para que ela viva, mas ela vive independente de mim. Isto é, em certo sentido, humilhante em um mundo de tanta pretensão egolátrica. A missão da Igreja não é determinada pela própria Igreja, mas é recebida pelo Senhor como comissão. O meu talento, dentro da igreja, não é fruto do meu extraordinário esforço, mas é um dom vindo do próprio Deus. A Igreja, diferente da rede social, não é apenas um contrato social, é, acima de tudo, o recebimento de uma nacionalidade celestial, ou seja, nem eu nem você fizemos parte da elaboração das regras.

Apesar do tom um tanto negativo desse texto sobre os limites da tecnologia, devemos lembrar que a tecnologia só é possível no homem porque estamos dotados por Deus de inteligência, criatividade e imaginação. Essas características representam aquilo que Deus nos deu como parte de sua imagem. Como escreveu Tim Challies: “Nós sonhamos; imaginamos novas possibilidades; pensamos em soluções criativas. E em todas essas atividades nos assemelhamos ao nosso Criador. Em última análise, então, o próprio Deus é o autor de toda a tecnologia”[3]. E, como escreveu o grande teólogo alemão Joseph Ratzinger: “Como qualquer outro fruto do engenho humano, as novas tecnologias da comunicação pedem para ser postas ao serviço do bem integral da pessoa e da humanidade inteira. Usadas sabiamente, podem contribuir para satisfazer o desejo de sentido, verdade e unidade que permanece a aspiração mais profunda do ser humano”[4]. Nunca tivemos em mãos uma ferramenta tão poderosa para a difusão do Evangelho.

rede social

Referências:

[1] Para o conceito de estranho na sociedade veja: BAUMAN, Zygmunt. Ética Pós-Moderna. 1 ed. São Paulo: Editora Paulus, 1997. p 212-216.

[2] O conceito é observado no livro: CAMPBELL, Heidi A. e GARNER, Stephen. Networked Theology: Engaging Culture Negotiating Faith in Digital Culture. 1 ed. Grand Rapids: Baker Academic, 2016. pp 108-136.

[3] CHALLIES, Tim. The Next Story: Life and Faith after the Digital Explosion. 1 ed. Grand Rapids: Zondervan, 2011. p 24.

[4] RATZINGER, Joseph. Mensagem para a XLV Dia Mundial das Comunicações Sociais. Verdade, anúncio e autenticidade de vida na era digital, 24 de janeiro de 2011.

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