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Levítico, Adoração e Serviço ao Senhor

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Por Gutierres Fernandes Siqueira

Subsídio para as Lições Bíblicas da CPAD cujo tema é “Adoração, Santidade e Serviço: Os princípios de Deus para a sua Igreja em Levítico”. 

O Livro de Levítico talvez seja um dos textos mais mal compreendidos pelo homem do século XXI. Movidos pela estranha mania de tentar ler um livro antigo com os olhos contemporâneos, muitos desprezam o caráter inspirado e sagrado desse denso livro. Como lembra Gordon J. Wenham, o Livro de “Levítico costumava ser o primeiro livro que as crianças judias estudavam na sinagoga. Na igreja moderna, ela tende a ser a última parte da Bíblia que qualquer pessoa olha seriamente”. Wenham ainda complementa: “Na prática, então, embora não seja, evidentemente, na teoria, o Levítico é tratado como se não pertencesse realmente ao cânon da Sagrada Escritura”[1]. Outro problema ao leitor é a estrutura literária do livro que não apresenta histórias épicas, poesia ou reflexões epistolares, embora Levítico não seja uma interrupção da narrativa do Pentateuco, mas serve como complemento e o entrelaçamento entre lei e história. Em Levítico a “história existe em razão das leis para as quais serve de moldura”[2].

O termo Levítico vem da tradução grega da Bíblia conhecida como Septuaginta (LXX) e significa “a respeito dos levitas”. Richard Ress acha o nome inadequado para o conteúdo do livro: “É estranho porque Levítico não é dirigido particularmente à tribo de Levi, nem se preocupa principalmente com a distinção desse grupo, relativo ao seu serviço no tabernáculo”[3]. De fato, os levitas são mencionados apenas em um pequeno trecho do capítulo 25 entre os versículos 32 e 33. Agora, como lembra Roland K. Harisson, o título “em português não deixa de ser apropriado, visto que o sacerdócio hebraico era essencialmente levítico no seu caráter (cf. Hebreus 7.11)”[4]. Embora seja conhecido na tradição cristã como o manual do culto veterotestamentário, o Levítico não apresenta todos os elementos desse culto, especialmente os cânticos e as preces do povo de Israel. A ênfase está no sacrifício. Para uma visão holística da adoração no Antigo Testamento, portanto, é necessário englobar o saltério e a poesia hebraica.

A questão do sacrifício

O Livro de Levítico é a passagem da revelação de Deus no Monte Sinai para a “tenda da congregação” (1.1 ARC). Paul Redditt observa que “após a destruição do templo em 70 d.C, os rabinos enfatizaram a oração e substituíram a realização do ritual pelo o estudo das leis sacrificiais”[5]. Redditt ainda escreve que “o erudito medieval Maimônides argumentou que o sacrifício era uma concessão à fragilidade humana (para dar aos judeus um rito semelhante aos rituais praticados pelos adoradores de outras divindades) e nunca, de fato, foi a real a intenção de Deus”[6]. Diferente do paganismo, o culto levítico nunca viu o sacrifício como meio de barganha. O sacrifício era um meio de purificação e consagração, e não uma moeda de troca. O sacrifício dizia respeito à santidade, mas o Antigo Testamento jamais indicou que Deus se movia com sacrifícios.

Temas

Os grandes temas de Levítico são o culto divino e a santidade de Deus. É interessante observar que o relacionamento correto com Deus passa pelo conhecimento sobre quem Ele é. Embora a nossa mente seja finita e Deus seja infinito, Ele se revela tornando o conhecimento possível através da natureza, da Escritura e do seu Filho Jesus na iluminação do Espírito Santo. Sendo assim, há um entrelaçamento entre o culto e o conhecimento de Deus. Diante da santidade de Deus se exige um modelo organizacional de culto. Outro foco importante na teologia de Levítico é que o culto ritualístico prestado a Deus é uma forma prática de santidade.

O protestantismo contemporâneo, especialmente influenciado pelo liberalismo teológico e pelo secularismo, costurou uma aversão ao culto fazendo uma forte oposição entre a tradição sacerdotal e a tradição ética-profética no Antigo Testamento, dando, é claro, maior ênfase na tradição de justiça social dos profetas. Essa dicotomia tende a “considerar a atividade cultual como primitiva, mágica e manipuladora”, como escreve Walter Brueggemann[7]. Não é à toa que no recente movimento dos desigrejados não há nenhuma preocupação com os sacramentos/ordenanças. O forte envolvimento do crente no culto, na Sagrada Escritura, não impede que esse faça justiça social. Não há oposição entre a adoração a Deus e a justiça. Devem existir como duas faces da mesma moeda. Jesus, também, faz uma forte relação entre o ato cúltico e o ato moral (cf. Mateus 5. 21-26).

Não é incomum, também, no meio pentecostal um desprezo pelo ordenamento do culto. A ordem, na mentalidade de muitos pentecostais, depõe contra a vida e a espontaneidade. Alguns pensam que quanto mais bizarro e criativo for o culto, melhor será. Embora a preocupação com o formalismo seja válida e sempre importante, o culto não é um evento qualquer. É válido criticar que uma liturgia muito rígida e estreita celebra apenas o passado enquanto despreza o presente, mas uma liturgia pronta apenas a celebrar o tempo presente despreza raízes e se envolve facilmente com as modas passageiras. No Novo Testamento, especialmente em 1 Coríntios 14, Paulo deixa claro o caráter formativo e edificante do culto ao Senhor. Embora a orientação paulina não seja uma ordenação levítica da Nova Aliança, o princípio da ordem edificante e formadora continua como um valor universal e permanente. A mera existência de uma partitura não faz soar a música, mas o músico que despreza a ordem de uma partitura produzirá um sonido irritante. A espontaneidade não é inimiga da liturgia formal e a liturgia formal não é inimiga da espontaneidade, como vemos nas Escrituras. O nosso dever é rejeitar o espiritualismo sem forma e o formalismo sem espírito.

A teologia de Levítico fala bastante na tensão entre pureza e impureza. A santidade, como lembra Henry Blackaby, é ver o pecado sob a pespectiva de Deus[8]. Embora Jesus tenha quebrado tabus sobre até onde poderia se envolver com pessoas impuras e lugares impuros, o Novo Testamento continua a ensinar que essa divisão existe. O apóstolo Paulo escreve: “Porque Deus não nos chamou para a impureza, mas para a santidade” (1 Tessalonicenses 4.7 NVI). Jesus em nenhum momento ensinou que não existe limite entre o puro e o impuro, mas combateu fortemente o orgulho religioso pela “posição de puro” e, também, o desprezo pelo próximo lembrando sempre que a pecaminosidade é uma condição universal na vida do homem.

E, por último, ao ler os livros veterotestamentários, como Levítico, é importante entender uma chave de interpretação dos textos do Antigo Testamento: há sempre uma tensão entre a continuidade e a descontinuidade da Antiga e Nova Aliança. Nem há uma continuidade completa, como defendem alguns grupos teonomistas, nem há uma descontinuidade completa, como defendia o heresiarca Marcião ao separar o deus do Antigo Testamento, um ser simplesmente iracundo, do Deus do Novo Testamento, um ser amoroso. O Livro de Levítico tem muito a ensinar a igreja pentecostal brasileira que o culto ao Senhor não é um evento de celebração da bizarrice.

Referências:

[1] WENHAM, Gordon J. The Book of Leviticus (The New International Commentary on the Old Testament: v. 3). 1 ed. Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Publishing, 1979. p 6 (ePub ed.).

[2] DAMROSCH, David. Levítico. em: ALTER, Robert e KERMODE, Frank. Guia Literário da Bíblia. 1 ed. São Paulo: UNESP, 1997. p 80.

[3] HESS, Richard S. The Old Testament: A Historical, Theological, and Critical Introduction. 1 ed. Grand Rapids: Baker Academic, 2016. p 79.

[4] HARRISON, Richard. Levítico: Introdução e Comentário. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 1983. pp 11.

[5] REDDITT, Paul L. Leviticus. VANHOOZER, Kevin J. (ed.). Theological Interpretation of the Old Testament: A Book-by-Book Survey. 1 ed. Grand Rapids: Baker Academic, 2008. p 76.

[6] Idem. p 76.

[7] BRUEGGEMANN, Walter. Theology of the Old Testament. 1 ed. Philadelphia: Fortress Press, 1997. pp. 651. A citação é do livro original, mas a obra já tem tradução para o português: Teologia do Antigo Testamento – Testemunho, Disputa e Defesa1 ed. São Paulo: Editora Paulus e Academia Cristã, 2014.

[8] BLACKABY, Henry. Santidade: O Plano de Deus para uma Vida Abundante. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2003. p 23.

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