Harpa Cristã · Liturgia · Música

Por que cantar a Harpa Cristã?

Por Moisés Xavier Guimarães Valentim

O hinário oficial das Assembleias de Deus, a Harpa Cristã, embora tenha mais de 90 anos de existência, contém mensagens e princípios atemporais. Além de apresentar as principais doutrinas pentecostais em forma de música, é bastante amado por muitos irmãos em todo o Brasil. Porém, algumas Assembleias de Deus vêm substituindo essas belas melodias por hinos mais atuais. Ou seja, ao invés de cantar os hinos que estão diretamente ligados com a sua identidade doutrinária, muitos os têm substituído por “sucessos do momento”.

Isto não significa que se deve cantar apenas hinos da Harpa, mas que estes não podem ser esquecidos, pois estão diretamente ligados com princípios fundamentais do pentecostalismo. Deixar esses hinos de lado é abrir mão de uma parte da identidade pentecostal. Em vista disso, pode-se notar pelo menos duas razões pelas quais esses hinos não podem ser esquecidos. São elas:

  1. A Harpa reflete a identidade pentecostal

Embora a Declaração de Fé das Assembleias de Deus tenha saído ano passado, muitos princípios nela estabelecidos podem ser observados nos hinos da harpa cristã. A doutrina do batismo no Espírito Santo e a continuidade dos dons estão presentes em letras como Poder Pentecostal (nº 24); Fogo Divino (nº 122); Imploramos Teu Poder (nº 155); Derrama Teu Espírito! (nº 387); Senhor, Manda Teu Poder (nº 358).

A salvação pela graça mediante a fé (Ef 2.8) pode ser observada em Conversão (nº 15); Manso e Suave (nº 568); Que Mudança! (nº 111). A maravilhosa esperança do retorno de Jesus é bastante notória em Nossa Esperança (nº 300); Vencendo Vem Jesus (nº 525); Cristo Virá (nº 74); Cristo Voltará (nº 123); Breve Verei o Bom Jesus (nº 442).

musica

Nota-se que princípios fundamentais do protestantismo e pentecostalismo são muito bem expressos nas páginas do hinário assembleiano. Ao cantar essas músicas, além de estarem glorificando a Deus, as pessoas passam a ter mais contato com as doutrinas básicas de sua fé, ou seja, da sua identidade pentecostal.

Além disso, a Harpa contém hinos que marcaram a história do movimento carismático no século XX. De acordo com o Dr. Cecil M. Robeck, em uma publicação da revista Enrichment Journal comemorando os 100 anos do Avivamento da Rua Azuza, a música The Conforter Has Come “era o hino tema da missão”[1]. Tal canção corresponde ao famoso hino O Bom Consolador (nº 100) que além de tratar de doutrinas básicas do pentecostalismo, era muito amado em um dos avivamentos mais importantes para a história do movimento carismático. Em vista disso, não há dúvidas de que a Harpa é um elemento de sua importância para a identidade da Assembleia de Deus.

  1. “Os mais belos hinos e poesias foram escritos em tribulação”[2]

Um dos temas mais complexos dentro do cristianismo corresponde ao terrível dilema do sofrimento. Isto é confirmado pelo Dr. William Lane Craig, um dos maiores defensores da fé cristã na atualidade:

Sem nenhuma dúvida, o maior obstáculo para a fé em Deus – tanto para o cristão quanto para o não cristão – é o chamado problema do mal. Em outras palavras, como é difícil aceitar que existe um Deus todo-poderoso e todo-amoroso que permite tanta dor e sofrimento no mundo.[3]

Embora o assunto seja difícil, as melodias presentes na Harpa Cristã o tratam sempre com bastante maturidade, destacando a confiança no Senhor em meio aos problemas. Alguns autores escreveram canções quando viveram terríveis adversidades. Por exemplo, o famoso hino Sossegai (nº 578) – na versão original em inglês é chamado Master, The Tempestis Raging -foi escrito por Mary Ann Baker após ter vivido duas tragédias. Mary perdeu seus pais por tuberculose e em seguida perdeu o irmão pela mesma doença. Logo depois dessas adversidades, Mary escreveu um hino que destaca a confiança em Deus na tempestade.[4]

A metodista Frances Jane Crosby (mais conhecida como Fanny Crosby), uma das maiores compositoras de hinos da história, escreveu algumas canções como Celeste Diretor (nº 113), Com Tua Mão (nº 33), Na Rocha Eterna Firmado Estou eu (nº 258), etc., em meio a terríveis adversidades. Quando Fanny tinha apenas algumas semanas de vida ficou cega por causa de um erro médio e, logo em seguida, perdeu o pai. Porém, Fanny manteve sua confiança firme em Deus e expressou isso nas suas composições.[5]

Na sua autobiografia, quando estava avançada em idade, Fanny mostra claramente como amava e confiava inteiramente em Deus:

Parecia pretendido pela bendita Providência de Deus que eu deveria ficar cega durante toda a minha vida; e agradeço-lhe pela dispensação (…) Eu não poderia ter escrito milhares de hinos (…) se tivesse sido prejudicada pelas distrações de ver todos os objetos interessantes e belos que teriam sido apresentados ao meu conhecimento.[6]

Certamente ela é um grande exemplo para todos os cristãos. Além desses autores, existem outros que compuseram canções em meio a dificuldades, porém o espaço não permite abordar todos. Assim, é muito claro que os compositores da Harpa Cristã foram inspulsionados pelo Espírito Santo para escrever suas músicas. Isto é uma razão mais que suficiente para que esse hinário seja muito amado e valorizado.

O hinário assembleiano, portanto, é uma coleção de hinos que, além de estarem relacionados à identidade pentecostal, foi escrito por autores impulsionados por Deus que enfrentaram o sofrimento de maneira exemplar. É aconselhável aos pentecostais procurarem aprender mais sobre seu hinário por meio de cultos que tenham por objetivo ensinar os irmãos a cantarem hinos que não conheçam. Certamente será uma ferramenta de grande edificação para a congregação.

Que todos os assembleianos aumentem mais seu amor pelo hinário oficial. Como Gutierres Siqueira afirma com bastante propriedade: “A beleza da Harpa Cristã é uma dádiva que a Assembleia de Deus deve sempre aproveitar da melhor forma possível até a vinda do Senhor! Maranata!”[7]. Que a Harpa jamais seja esquecida!

Referências:

[1] Dr. Cecil M. Robeck é professor de história da Igreja no Seminário Fuller (EUA). A publicação desta revista norte-americana pode ser encontrada (no idioma inglês) em: http://enrichmentjournal.ag.org/200602/200602_026_Azusa.cfm. Acesso em 28 de julho de 2018.

[2] Esse é um trecho do hino A Bem Aventurança do Crente (nº 126), escrito por Emil Gustafson e traduzido por Frida Vingren, esposa do missionário sueco Gunnar Vingren;

[3] CRAIG, WILLIAM LANE. Apologética para questões difíceis da vida. São Paulo: Vida Nova, 2010, p.81.

[4] DANIEL, SILAS. A história dos hinos que amamos. Rio de Janeiro: CPAD, 2013, p.64.

[5] Idem, p. 242-245;

[6] CROSBY, FRANCES JANE. Classic Reprint Series: Fanny Crosby’s Life Story. New York: Every Where Publishing Company, 1903, p. 13-14.

[7] SIQUERIA, GUTIERRES FERNANDES. Revestidos de Poder: Uma introdução à Teologia Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2018, p. 80.

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