Teólogos Pentecostais · Teologia Pentecostal

Roger Stronstad e a sua importância para a Teologia Pentecostal

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Roger Stronstad

Por Gutierres Fernandes Siqueira

 

Nos últimos quarenta anos, estamos experimentando o despertamento da teologia pentecostal acadêmica. Ao ler essa primeira sentença, por favor, não pense que o pentecostalismo era um movimento despossuído de teologia nas décadas anteriores. O moderno Movimento Pentecostal sempre teve grandes mentes e corações. Vale lembrar que o pentecostalismo, diferente do que espera os estereótipos, nasceu em uma escola no Kansas (EUA). Lendo Atos dos Apóstolos com preocupação interpretativa, a reflexão teológica dos alunos da Escola Betel floresceu antes mesmo da experiência do falar em novas línguas. O entendimento doutrinário sobre o Batismo no Espírito Santo precedeu a experiência carismática daquela turma. Outro exemplo está no pregador William Seymour, pioneiro pentecostal, um homem de fortes convicções teológicas e grandemente preocupado com a solidez da doutrina.  É verdade que outros líderes expressaram frases anti-intelectuais e é verdade que até hoje alguns pentecostais olham os estudos teológicos com desconfiança. Mas essa é apenas parte da história. Quem já leu grandes teólogos pentecostais do passado – como Donald Gee, P. C. Nelson, Myer Pearlman, George Jeffreys, D. W. Kerr – sabe muito bem que esse movimento sempre possuiu uma teologia ortodoxa, evangélica e bíblica.

Todavia, os primeiros teólogos pentecostais, mesmo sendo muito talentosos, não falavam para a academia e nem se expressavam em linguagem acadêmica. Nada mais normal, logo porque, historicamente, o pentecostalismo é ainda uma criança. A tradição pentecostal, por assim dizer, só tem quatro gerações. Outro ponto é que o pentecostalismo nasceu e se desenvolveu em ambientes pobres. A educação tem um custo financeiro alto e os primeiros pentecostais não eram oriundos da elite econômica ou intelectual da época. Sem ressentimentos e vitimização, o pentecostalismo cresceu entre as classes mais necessitadas e se tornou o movimento religioso mais expansivo da história cristã. Hoje, segundo o respeitado instituto de pesquisas religiosas Pew Research Center, o pentecostalismo é o segundo grupo cristão com mais adeptos, perdendo apenas para a milenar Igreja Católica Romana.  E, se levarmos em conta os adeptos atuantes, talvez seja o primeiro.

O estudo acadêmico pentecostal deu um salto incrível a partir da década de 1970. Alguns nomes da terceira geração de pentecostais, filhos e netos dos pioneiros, começaram a produzir uma teologia robusta, cujo foco hermenêutico e exegético não deixa a desejar a qualquer scholar evangélico. Teólogos como Anthony D. Palma, William Menzies, Stanley M. Horton, Howard M. Ervin, French L Arrington etc. abriram o espaço para a nova geração de eruditos pentecostais como Robert Menzies, Craig Keener, James Shelton e Roger Stronstad. Nesse grupo, Stronstad se destaca pelo brilhantismo de uma obra. Se o Comentário de Romanos de Karl Barth destruiu o playground dos liberais, o livro de Stronstad fez o mesmo com o playground da pneumatologia evangélica tradicional. Não é à toa que eruditos como D. A. Carson e James Dunn reagiram ao livro. A primeira edição do livro é de 1984, mas o seu reflexo perdura até hoje no entendimento sobre a pneumatologia lucana. A teologia pentecostal, sem exagero, é outra após o trabalho magistral de Stronstad.  A sua obra magna A Teologia Carismática de Lucas, lançada em 1984 pela Editora Hendrickson e relançada em 2012 pela Baker Academic, está sendo lançada pela Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD). Mesmo passado tanto anos, a obra continua como referência e é uma leitura obrigatória para entender a pneumatológica lucana e, portanto, as bases hermenêuticas do pentecostalismo.

Filho de um pastor canadense, Stronstad cresceu em um ambiente tipicamente pentecostal e ainda jovem entrou no mundo acadêmico com um propósito claro: responder os clichês do meio protestante tradicional sobre o pentecostalismo. Nos seus estudos no Regent College, importante escola de teologia no Canadá, Stronstad teve o apadrinhamento de nomes como W. Ward Gasque e Clark Pinnock, dois brilhantes professores de estudos bíblicos. A dissertação de mestrado de Stronstad não apenas respondeu com preparo intelectual as teses popularizadas pelos teólogos James Dunn e Frederick Dale Bruner, que liam a pneumatologia lucana a partir da pneumatologia paulina, mas ajudou inúmeros jovens pentecostais, como eu, a encontrar a sua verdadeira identidade teológica. Sou grato a Stronstad.

O livro A Teologia Lucana Sob Exame (Editora Carisma) é outro lançamento recente de Stronstad. Essa obra é a mais vigorosa defesa do sacerdócio universal de todos os crentes a partir de uma perspectiva pentecostal. Não é uma mera ampliação. É uma continuação da obra A Teologia Carismática de Lucas (CPAD) enquanto proposta hermenêutica. Stronstad faz uma ampla análise literária e exegética para mostrar como as Escrituras, do Antigo ao Novo Testamento, especialmente nos escritos lucanos, mas não só neles, relacionam a operação do Espírito Santo com comunidades proféticas. É na Igreja de Jesus Cristo que o desejo de Moisés se realiza: o sonho de um povo dotado de elocução profética. A obra é densa, bem articulada e será de grande proveito mesmo para quem não é pentecostal. Stronstad lembra que a Igreja é chamada a ser uma comunidade elocutiva, não uma entidade didática, burocrática e/ou filantrópica. Da mesma forma, Stronstad lembra aos pentecostais que o foco da comunidade profética está na vocação, mas não na experiência pessoal meramente individualista e egocêntrica. A Igreja brasileira, seja ela tradicional ou pentecostal, faria bem em ouvir essas advertências do erudito pentecostal. Mas, como lembra o autor, essa missão é nobre e não se confunde com a banalização do testemunho profético. Em A Teologia Lucana Sob Exame, assim como na A Teologia Carismática de Lucas, o autor nos mostra mais uma vez que a fé pentecostal não é inimiga do vigor acadêmico. 

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O livro A Teologia Carismática de Lucas pode ser encontrado neste link (clique aqui).

O livro Teologia de Lucas sob Exame pode ser encontrado neste link (clique aqui).

4 comentários em “Roger Stronstad e a sua importância para a Teologia Pentecostal

  1. Como sempre, excelente artigo!
    Sua gratidão a Stronstad também me leva a te agradecer, Gutierres, por ter nos ajudado – a mim e a inúmeros jovens pentecostais – a encontrar nossas verdadeiras identidades teológicas. Muito do que sei sobre teologia pentecostal devo a você – ao seu blog, às suas indicações, e agora ao seu primeiro livro, além de todo o conteúdo que você produz nas redes.
    Que Deus o abençoe sempre nessa empreitada teológica!

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  2. Irmão Gutierres eu nasci em berço cristão e assembleiano, e na minha adolescência sempre me perguntei: o que é ser Pentecostal? Existe uma teologia pentecostal? E graças a você e seu blog, muitas das minhas dúvidas foram sanadas.

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