Teologia Pentecostal · Teologia Reformada

Resenha: “O Pentecostal Reformado”

o-pentecostal-reformadoPor Gutierres Fernandes Siqueira

O pentecostalismo é compatível com outras tradições cristãs? A resposta é sim, especialmente porque o pentecostalismo, graças a Deus, não se propõe a ser uma ideia totalizante que abarca todos os compartimentos do navio chamado “teologia”. A fé pentecostal está especialmente focada na pneumatologia. O pentecostalismo é uma espiritualidade, mas, também, é inegavelmente um corpo de doutrinas. O Movimento Pentecostal tem uma teologia e tem o seu próprio método hermenêutico, tal como pode ser lido no livro “A Teologia Carismática de Lucas” de Roger Stronstad. Do lado pentecostal, eu até acredito que seja possível ser pentecostal e luterano, reformado, anglicano, metodista etc., mas o pentecostalismo reformado proposto pelo bispo Walter MacAlister e pelo pastor John MacAlister redefine a essência pentecostal de tal forma que ela se tornou algo mais parecido com qualquer espiritualidade de cunho espiritualista.

Acho louvável a tentativa da família MacAlister em tentar casar duas tradições. Eu acredito em simbioses. Sempre vejo com bons olhos esse tipo de iniciativa, desde que, é claro, esse diálogo não venha a suprimir o que é de mais característico em cada tradição.  Infelizmente, o livro “O Pentecostal Reformado” desconstrói a principal doutrina do pentecostalismo: o Batismo no Espírito Santo e sua subsequência e a visão desse Batismo como um revestimento de poder de caráter missiológico.  Colocar-se como pentecostal e jogar fora a sua principal doutrina não é válido e nem mesmo desejável para quem quer construir uma terceira via. O pentecostalismo reformado proposto pelos autores é demasiadamente reformado e nulamente pentecostal. 

A crítica mais fraca do livro, a meu ver, é quando os autores dizem que os teólogos pentecostais como Robert Menzies e William Menzies priorizam um autor em detrimento de autor (p. 208). Os Menzies, segundo eles, estariam homogeneizando Lucas em detrimento de Paulo. Essa acusação é absurda para quem é leitor assíduo das obras de Robert e William Menzies. Ao contrário, os Menzies mostram que é justamente isso que a tradição reformada faz ao paulinizar a pneumatologia do Novo Testamento não-paulino. Eu fiquei me perguntando se de fato lemos o mesmo livro. Na obra é impressionante a ausência dialogal com os principais eruditos do pentecostalismo clássico e as citações, quando feitas, estão mais próximas da crítica do que do entendimento em comum.

Outro ponto espantoso é quando os autores fazem um espantalho do pentecostalismo clássico dizendo que somos defensores do Batismo no Espírito Santo como um segundo estágio da vida cristã, a chamada “segunda bênção”. Esse é um mal normalmente cometido de quem lê bastante sobre a história do Avivamento da Rua Azusa e esquece-se de pesquisar as pequenas dogmáticas dos principais teólogos pentecostais. Em nenhum momento autores como William Menzies, Stanley Horton, Robert Menzies, Anthony D. Palma, Roger Stronstad etc. defendem que Batismo no Espírito Santo seja uma processo de equivalência à experiência de crise. A expressão “segunda bênção” já não é usada na literatura teológica do pentecostalismo clássico desde a Segunda Guerra Mundial. O professor Anthony D. Palma, um dos principais teólogos assembleianos dos Estados Unidos, escrevendo sobre isso observou: “Não é apropriado referir-se ao batismo no Espírito Santo como ‘uma segunda obra de graça’ porque tudo que recebemos de Deus é por sua graça. Como consequência, pode haver muitas bênçãos entre a regeneração e o batismo no Espírito Santo, e, às vezes, essas bênçãos são uma indicação da experiência culminante por vir. Com respeito ao batismo no Espírito, não tem de ser ‘tudo ou nada’” (PALMA, Anthony D. “Antes e depois do batismo com Espírito Santo”. Revista Manual do Obreiro. Ano 28. Nº 38. Rio de Janeiro: CPAD, 2007). Esse destaque do Palma é muitíssimo oportuno: o Batismo no Espírito Santo, embora importantíssimo, não deve ser visto como uma experiência semelhante à regeneração. O Batismo no Espírito é uma capacitação espiritual para fins evangelísticos e não um segundo encontro dramático com Deus.  Como é comum entre reformados pentecostais, eu observei a ausência de uma leitura mais aprofundada da teologia pentecostal contemporânea. Parece não existir a mesma disciplina para ler autores pentecostais como se faz com autores reformados. 

Os autores colocam a Teologia Reformada como tábua de salvação do pentecostalismo. Eu respeito muito a Teologia Reformada e seus principais representantes, mas o movimento é justamente o contrário. Quem está salvando a Teologia Reformada são os pentecostais e carismáticos que consumem seus livros e conferências. Se dependesse apenas dos próprios membros de igrejas reformadas, nenhuma conferência promovida teria a relevância que tem hoje. Isso é reconhecido até pelo Augustus Nicodemus. Embora os pentecostais possam aprender muito com os reformados, algo que concordo plenamente, os autores não vêem nenhuma contribuição doutrinária do pentecostalismo aos reformados. Toda a contribuição apontada é cosmética, restrita a uma espiritualidade que poderia ser encontrada em qualquer grupo mais antigo (pietistas, puritanos, metodistas, etc.).

Seria mais justo que o livro tivesse como título “o Reformado Pentecostal”, ou seja, a palavra “pentecostal” apenas na qualidade de adjetivo. Ao inverter a ordem, o sujeito “pentecostal” ganha uma força no título, mas sem lastro no  decorrer do livro. A obra o tempo todo tenta se provar como é fiel à tradição reformada, mas claramente não tem a mesma preocupação com a tradição doutrinária e teológica do pentecostalismo, logo porque, para os autores, o pentecostalismo não passa de uma espiritualidade. O mais honesto seria chamar o movimento proposto pela família MacAlister de “reformados carismáticos”, algo não original, porém mais adequado. O meu respeito e admiração pelo trabalho desenvolvido pela família MacAlister não me impede de entender que a obra “O Pentecostal Reformado” não é uma simbiose, mas tão somente a apresentação do encantamento diante da Teologia Reformada de alguém nascido numa família pentecostal.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s