Teologia Pentecostal

Há diferença entre o falar em línguas como sinal e como dom?

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Antes de responder a essa pergunta é necessário entender que cada escritor bíblico precisa ser lido nos seus próprios termos. Nem sempre o mesmo assunto é discutido da mesma forma em dois autores bíblicos diferentes. Esse é o caso do falar em línguas, conhecido também pela expressão grega glossolalia. Apenas o apóstolo Paulo e o evangelista Lucas falam da glossolalia no Novo Testamento. Será que Lucas, que é o autor de Atos dos Apóstolos, e Paulo, o autor da Primeira Carta aos Coríntios, queriam dizer a mesma coisa quando falavam da glossolalia? Ora, várias evidências textuais apontam para uma resposta negativa.

A natureza do falar em línguas em Atos dos Apóstolos e em 1 Coríntios são claramente diferenciadas e, naturalmente, complementares, embora sejam da mesma substância. Em Lucas, a glossolalia é o sinal de um enchimento pneumatológico de efeito missiológico. Ou seja, Jesus Cristo reveste o homem do Espírito Santo, no processo também conhecido como Batismo no Espírito, para que ele saia ao mundo proclamando o Evangelho com uma força e ousadia não naturais (cf. Atos 1.8; 2.1-4; 10.44-48; 19.6). Em Paulo, por outro lado, a glossolalia não é missiológica. O apóstolo destaca que o falar é línguas é um dom comunitário quando interpretado e, também, quando exercido na vida devocional, a glossolalia auxilia vocalmente a oração (1 Coríntios 14.2, 4, 5-19, 22, 27).

Neste sentido, uma coisa é falar em línguas como sinal do enchimento do Espírito e outro, diferente, é ter o dom de línguas que envolve a variedade (cf. 1 Coríntios 12.10). Por sinal, ou evidência, não se espera que essa língua seja contínua. Mas o dom de variedade, isso sim, acompanha o portador. O motivo? O propósito diferenciado. No primeiro caso a língua evidencia outra experiência: o enchimento do Espírito para a ação missionária. No segundo caso, a variedade de línguas pode ora servir como profecia para a edificação comunitária ora como oração para edificação individual. Em nenhum momento Lucas menciona a variedade de línguas em um falante, apenas Paulo.

Vejamos outras diferenças: A glossolalia de Atos dos capítulos 2, 8, 10 e 19 envolveu todo o grupo presente, enquanto o dom de línguas era a posse de alguns indivíduos em Corinto. Quando Paulo pergunta em 1 Coríntios 12.30 se “falam todos diversas línguas” ele, naturalmente, tem em mente uma resposta negativa. Isso contrasta com “todos” que falaram em línguas no Pentecostes e em Cesárea (Atos 2.4; 10.44), e está implícito que todos foram usados em glossolalia na cidade de Samaria e Éfeso (8.16,17; 19.6,7). Outro ponto importante: a glossolalia em Atos não requer intérprete. As línguas estrangeiras são claramente reconhecidas (xenolalia) e a mensagem era de louvor a Deus (At 2.11; 10. 46; 11.15). Já em Coríntios, o exercício público do dom de línguas depende da presença de um intérprete (1 Coríntios 14.28) e sua mensagem é claramente profética  (1 Coríntios 14.5).

Uma semelhança importante entre Paulo e Lucas é que para ambos a língua é inteligível, ou seja, não é fruto de êxtase. Outro ponto é que a língua serve como um sinal para o público incrédulo (Atos 2. 4,5), pois desperta a consciência do homem pagão para o sobrenatural e também para a sua alienação de Deus (Alinguastos 2.6–8,12). A resposta zombeteira da audiência demonstra que o fenômeno desperta o incrédulo a uma resposta (2.13; compare com 1 Coríntios 14.23).

Portanto, para concluir, Lucas enfatiza a glossolalia como sinal do enchimento do Espírito. O ponto central dessa glossolalia não é a sua mensagem, mas sobre o que ela aponta: a missão impulsionada pelo Espírito. Enquanto que em Paulo, a glossolalia é um dom, o dom de variedade de línguas, que deve ser usado na congregação quando interpretado, funcionando como uma profecia, e na oração devocional para edificação individual.

2 comentários em “Há diferença entre o falar em línguas como sinal e como dom?

  1. Graças e Paz Irmão!
    Há algum tempo li sobre uma tese , sobre o falar em linguas, que chamou minha atenção. O argumento girava em torno da afirmação,de que a linguas falada no primeiro episodio registrado no biblia,capitulo 2 do livro dos Atos dos Apostolos, não seria linguas humanas, como defendem a maioria dos teologos,mas era uma lingua sogrenatural,e que o espirito santo fez com que,os ali presentes, entendesse no seu idioma.
    Esta ideia enfatiza que houve um milagre na audição do ali presentes.

    Ouvindo-se este som, ajuntou-se uma multidão que ficou perplexa, pois cada um os ouvia falar em sua própria língua.
    Atônitos e maravilhados, eles perguntavam: “Acaso não são galileus todos estes homens que estão falando?
    Então, como os ouvimos, cada um de nós, em nossa própria língua materna?

    Atos 2:6-8

    Gostaria de saber se você conhece esta argumentação e qual seria sua opinião a respeito?

    Curtir

  2. Gutierres, vou comentar algo que não é exatamente sobre este artigo, e você já deve ter tido contato com esta concepção, mas Shedd (mesmo não sendo pentecostal) escreveu que no evento de pentecostes o milagre foi operado nos ouvidos dos indivíduos de fora, pois cada um entendia no seu próprio idioma. De fato, penso eu (e não o Shedd) que o derramar do poder do Alto foi tão grande que mesmo os de fora receberam uma manifestação momentânea do dom de interpretação de línguas.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s