Cessacionismo · glossolalia · Teologia Pentecostal

Resposta ao colega Yago Martins

dois dedosPor Gutierres Fernandes Siqueira

O meu colega e teólogo reformado Yago Martins publicou mais um vídeo no canal “Dois Dedos de Teologia” sobre a natureza da glossolalia e a ciência. Neste texto quero apenas comentar a segunda parte do vídeo onde o Yago defende a tese que a língua falada hoje em igrejas pentecostais não é nenhum milagre, mas apenas uma linguagem aleatória (ou vocalização livre) derivada do próprio idioma.

01. Ele faz uma rápida crítica ao meu livro “Revestidos de Poder” (CPAD) porque cito o linguista e comunicólogo Michael T. Motley como contestador dos estudos famosos de William Samarin (1972) (1). De fato, o estudo de Motley é baseado em apenas um falante de línguas (diferente do que uma frase no livro dá a entender), mas a importância do estudo de Motley está no fato de ser o primeiro a contestar o consenso da época. Não só Samarin, mas outros linguistas durante a década de 1960 e 1970 defendiam que a glossolalia não passava de delírio, estado alterado da mente e imitação (Carlson, 1967; Jaquith, 1967; Nida, 1965; Goodman, 1972). Os estudos mais recentes, especialmente na UNICAMP, seguem essa tradição impulsionada pelo William Samarin na década de 1970.

02. Segundo o Yago, apenas o estudo do Motley não é suficiente para desfazer o consenso científico que a glossolalia dos pentecostais de hoje não passa de estado alterado da mente e vocalização livre. A fala do Yago dá a entender que o Michael Motley é o único a contestar as conclusões dos linguistas do passado. Em primeiro lugar, no livro também cito o ótimo trabalho dos psicólogos William Kay e Leslie Francis de 1995 intitulado “Personality, Mental Health and Glossolalia”. Os autores mostram que os pentecostais não são, em geral, manipuláveis, emocionalmente instáveis e vulneráveis a um condicionamento. Além disso, cito também o ótimo trabalho da filóloga polonesa Violetta Makovii intitulado “The linguistic and non-linguistic aspects of glossolalia and xenoglossia”(2). Makovii fez um amplo trabalho de campo.

03. É interessante observar que o próprio apóstolo Paulo (cf. 1 Coríntios 14.7) faz uma distinção entre a glossolalia e o som da música. Paulo alude à relativa falta de segmentação fonológica na glossolalia, contrastando-a com a música, que é definida por uma “distinção mais acentuada nas notas” (diastolen tois phthongois; v. 7). É bem verdade que Paulo não via as línguas como êxtase delirante, e nem os pentecostais hoje assim a veem, mas isso não quer dizer que Paulo entendia a definição de linguagem da mesma forma como os linguistas do século XX. Isso é um anacronismo absurdo.

04. Acho muito temerário pegar uma definição mais estreita de linguagem, como se a linguística fosse uma ciência exata, para, a partir disso, julgar a experiência de fala de milhões de pentecostais como não milagrosa. O próprio teólogo reformado Vern Poythress afirma que a glossolalia é uma “vocalização livre” que exibe, no entanto, um grau de estruturação fonológica maior do que aquela encontrada em fenômenos “mais simples” como fala do bebê e a esquizofrenia (3) . Poythress, escapando da armadilha de construir teologia sobre estudos mutáveis, lembra que a linguística não tem um consenso sobre o que é a própria linguagem.

05. A fala do Yago deixa a entender que o consenso científico sobre a natureza das línguas é cristalino. Há diversos estudos de psicologia (4) que chegam a conclusões diversas sobre o falar em línguas: alguns entendem a glossolalia como patologia, outros como reprodução da linguagem da primeira infância, outros como liberação do inconsciente, outros como emocionalismo religioso, outros como transtorno dissociativo, e até como reafirmação social. A pergunta que não quer calar é: que consenso é esse que a cada novo estudo se chega a uma conclusão diferente?

06. Outro ponto: como esperar que naturalistas dissessem que a glossolalia é um milagre? Acho estranha essa insistência do Yago em validar a sua hermenêutica com a autoridade científica naturalista. O que o consenso científico fala da oração? Dos milagres bíblicos? De Jesus Cristo?

07. Sou falante de glossolalia e tenho saúde mental normal. A minha formação é em comunicação e sei diferenciar muito bem uma fala estruturada de o mero balbuciar de um bebê. Sei diferenciar a estrutura de fala de um latino, anglo-saxão ou eslavo. Será então que a minha própria experiência e de milhões de pentecostais nada comunica sem a chancela de alguns estudiosos? A maioria dos estudos até a década de 1970 diriam que eu, falante de glossolalia, sou uma pessoa manipulável, transtornada e sem nenhum senso crítico. Já pensou se eu fosse um pentecostal naquela época e desse valor ao que dizia o consenso científico?

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Referências:

(1) SAMARIN, William. Tongues of Men and Angels. 1 ed. New York: Macmillan, 1972. p 119—121.
(2)MAKOVII, Violetta. The linguistic and non-linguistic aspects of glossolalia and xenoglossia. University of Economy in Bydgoszcz: Faculty of Applied Studies. Polônia. 2013. p 1-34.
3) POYTHRESS, Vern S. “Linguistic and Sociological Analyses of Modern Tongues— Speaking: Their Contributions and Limitations”, em Watson E. Mills (ed.) Speaking in Tongues: A Guide to Research on Glossolalia. 1 ed. Grand Rapids: Eerdmans, 1986. pp 469—489.
(4) Para um resumo desses estudos veja: KEENER, Craig. Acts: An Exegetical Commentary : Volume 1: Introduction and 1:1-247. 1 ed. Grand Rapids: Baker Academic, 2012. p. 2327 (ePub).

2 comentários em “Resposta ao colega Yago Martins

  1. Parabéns Gutierrez pelo seu esforço teológico isso nos encoraja, a saber que existem pentecostais instruído e bem preparados para refutar a soberba da teologia reformada, que Deus continue iluminando a sua mente e aquecendo seu coração e te enchendo de animosidade para defender com destreza suas opiniões e sua fé, não devemos abrir mão das nossas experiências com Deus ….

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